Entre a Composição Erudita, o Jazz e a Música Brasileira: Minha Formação na UNICAMP
- Rafael Piccolotto de Lima

- 7 de jun.
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Atualizado: há 1 dia
Como um artista encontra sua própria linguagem?
Quando somos jovens, costumamos imaginar que nossa linguagem artística surgirá a partir de uma influência decisiva, de um professor marcante, de uma escola estética ou de algum conjunto específico de referências. Com o tempo, comecei a perceber que o processo costuma ser mais complexo. Uma linguagem artística raramente nasce de um único lugar. Ela se forma gradualmente a partir da convivência entre experiências, pessoas, repertórios, oportunidades e perguntas que ainda não possuem respostas claras.
Quando entrei na UNICAMP aos dezoito anos, eu não sabia exatamente qual seria meu caminho profissional, mas já carregava algumas inquietações. Havia começado a compor por volta dos quinze anos e me interessava naturalmente por músicas que pareciam habitar mais de um universo ao mesmo tempo.
Eu gostava de música brasileira, me interessava por jazz e passava cada vez mais tempo tentando compor minhas próprias peças. Na prática, essas referências conviviam naturalmente dentro da minha escuta muito antes de eu encontrar explicações teóricas para isso.
E nunca entendi completamente por que esses territórios precisavam existir tão separados.
Essa pergunta me acompanhou durante meus anos na universidade.
Quando As Perguntas Não Cabem Nas Divisões Existentes
Entrei na UNICAMP como aluno do curso de Composição.
Ao mesmo tempo, mantinha um interesse crescente pela improvisação, pela música instrumental brasileira e pelo jazz.
Logo nos primeiros anos, comecei a frequentar disciplinas do departamento de música popular, experiência que mais tarde me levaria a concluir também uma segunda habilitação como saxofonista.
A diversidade de disciplinas disponíveis era estimulante, mas outro aspecto acabou me marcando ainda mais.
Aos poucos comecei a perceber que algumas das perguntas que mais me interessavam pareciam existir entre os departamentos. As respostas oferecidas por cada área eram valiosas, mas muitas das questões que me moviam surgiam nos espaços de encontro entre elas.
→ Leia mais: Blurred Distinctions: O Que Minha Pesquisa de Doutorado Me Ensinou Sobre Jazz, Música de Concerto e Linguagens Híbridas
Dentro das estruturas acadêmicas, música erudita e música popular ainda eram tratadas como campos relativamente independentes.
Para mim, porém, essa separação sempre pareceu um pouco artificial.
Enquanto estudava composição contemporânea, análise e estética, continuava ouvindo artistas que transitavam naturalmente entre diferentes linguagens.
Em muitos momentos, os projetos que mais me inspiravam pareciam surgir exatamente dos lugares onde essas fronteiras deixavam de existir.
Essa percepção não surgiu na universidade.
Mas foi ali que comecei a investigá-la de forma mais consciente.
Um Ecossistema Onde Tudo Acontecia Ao Mesmo Tempo
O que mais marcou minha formação não foi uma disciplina específica.
Foi o ambiente.
A UNICAMP funcionava como um ecossistema onde inúmeras experiências musicais coexistiam simultaneamente.
Era possível passar a manhã discutindo estética musical, ensaiar com um grupo instrumental à tarde, assistir a um concerto à noite e terminar a semana participando de uma roda de choro, de um festival estudantil ou de alguma apresentação organizada pelos próprios alunos.
A formação acontecia em todos os lugares: nas salas de aula, nos corredores, nas repúblicas, nos ensaios, nos espaços culturais de Campinas e nas conversas que continuavam depois dos concertos. Até mesmo os períodos de greve acabavam se transformando em oportunidades inesperadas de criação.
Lembro de momentos em que alunos continuavam frequentando o campus para estudar, ensaiar e desenvolver projetos próprios. As salas vazias se transformavam em espaços improvisados de criação.
Na época, aquilo parecia normal.
Hoje percebo que aquele ambiente estava me ensinando algo que continuaria importante pelo resto da carreira.
A universidade oferecia inúmeras possibilidades.
Mas raramente entregava caminhos totalmente prontos.
Era preciso construir conexões.
Criar grupos.
Organizar projetos.
Fazer as coisas acontecerem.
Sem perceber, eu começava a desenvolver uma postura que continuaria presente ao longo de toda a minha trajetória.
Encontrando Referências Fora Das Fronteiras
Uma parte importante dessa formação aconteceu através dos artistas que eu assistia.
Campinas possuía uma vida cultural intensa e frequentemente recebia músicos cujos trabalhos pareciam responder exatamente às perguntas que eu estava tentando formular.
Espaços como a CPFL Cultura tiveram um papel importante nesse processo, trazendo regularmente artistas que ampliavam nosso horizonte musical e apresentavam possibilidades que raramente apareciam de forma tão clara dentro das divisões acadêmicas.
Para muitos estudantes, a formação musical não terminava quando as aulas acabavam. Ela continuava nos concertos, oficinas, festivais e encontros que aconteciam pela cidade.
Lembro do impacto que tiveram sobre mim artistas como Benjamim Taubkin e a Orquestra Popular de Câmara, Hermeto Pascoal, André Marques, Léa Freire, Nelson Ayres e o grupo Pau Brasil.
Ao observar aqueles trabalhos, comecei a perceber que muitas das fronteiras que pareciam importantes dentro do ambiente acadêmico se tornavam secundárias na prática artística. Composição, improvisação, arranjo, performance e criação coletiva apareciam como partes de um mesmo processo.
Também foi durante esse período que tive contato com artistas residentes de perfis muito diferentes, entre eles Rigo Barnabé, cuja obra desafiava constantemente categorias e expectativas convencionais.
Pela primeira vez eu via de perto artistas construindo exatamente o tipo de diálogo entre linguagens que me interessava.
Os Primeiros Laboratórios De Criação
Grande parte da minha formação aconteceu através dos grupos que criei ou dos quais participei.
Ainda nos primeiros anos formei um quarteto de música instrumental brasileira.
Pouco depois surgiu o Caruwa, grupo que buscava aproximar música instrumental brasileira, composição e elementos da música de câmara através de uma formação pouco convencional.
O Caruwa foi uma das primeiras tentativas conscientes de construir uma linguagem que dialogasse simultaneamente com a música instrumental brasileira, a composição e sonoridades ligadas à música de câmara. Muitas questões que mais tarde reapareceriam em projetos como o Chamber Project já estavam presentes ali em estado embrionário.
O grupo nasceu do desejo de criar um espaço onde essas referências pudessem conviver.
O grupo foi selecionado por um edital de incentivo à cultura e gravou um álbum.
Olhando para trás, percebo que aquele projeto já continha muitas questões que continuariam aparecendo em trabalhos futuros.
Não apenas musicalmente.
Mas também na forma de pensar projetos artísticos.
Aprendi que, muitas vezes, a melhor maneira de investigar uma ideia não era esperar que alguém criasse um espaço para ela.
Era reunir pessoas interessadas e construir esse espaço.
Ao mesmo tempo, participei da Gafieira Camisa Amarela, mergulhando em repertórios ligados à tradição da música brasileira de dança e ao trabalho de arranjo para grupos maiores.
Também desenvolvi um quarteto autoral dedicado a investigações mais experimentais que combinavam música brasileira, jazz contemporâneo, improvisação e linguagens menos convencionais.
Foi com esse grupo que me tornei finalista do Prêmio Furnas para Jovens Talentos da Música e representei o estado de São Paulo na etapa nacional realizada no Rio de Janeiro. Aquela experiência também funcionou como um sinal de que as investigações artísticas que eu vinha desenvolvendo começavam a encontrar ressonância para além do ambiente universitário.
Big Bands, Pesquisa e Grandes Formações
Outro espaço fundamental de aprendizado foi o Coletivo Orquestral da UNICAMP, dirigido pelo professor Mário Campos.
Inicialmente participei do grupo como saxofonista e integrei a gravação do álbum Compacto.
Com o tempo, porém, o coletivo se transformou em algo ainda mais importante.
Foi ali que tive algumas das minhas primeiras oportunidades reais de escrever para grandes formações, apresentar composições próprias, reger e experimentar o papel de diretor musical diante de um conjunto numeroso.
Elas culminariam alguns anos depois em um recital de formatura que reuniu a Orquestra Sinfônica da UNICAMP e o Coletivo Orquestral em um concerto de jazz sinfônico.
Muitas das experiências que mais tarde reapareceriam em projetos como a Orquestra Urbana começaram naquele período.
Pela primeira vez eu me encontrava simultaneamente nas posições de instrumentista, compositor, arranjador, regente e diretor musical dentro de um mesmo projeto. Essa combinação acabaria se tornando uma característica recorrente da minha atuação profissional.
Paralelamente à prática musical, comecei a investigar essas mesmas questões sob uma perspectiva acadêmica.
Paralelamente, desenvolvi uma pesquisa de iniciação científica orientada pelo professor doutor Rafael dos Santos sobre a linguagem da big band brasileira, analisando arranjos de Nailor Azevedo Proveta para a Banda Mantiqueira.
Mais uma vez, eu me encontrava diante da mesma pergunta.
Como desenvolver uma linguagem brasileira para grandes conjuntos?
Como dialogar com a tradição do jazz sem simplesmente reproduzi-la?
Como construir algo que refletisse as experiências musicais que eu vivia naquele contexto?
Uma das obras que escrevi nesse período, Pelos Ares, venceu um concurso nacional de composição para big band. Anos depois, essa mesma composição daria nome ao primeiro álbum da Orquestra Urbana.
Na época, porém, ela era apenas mais uma tentativa de responder perguntas que continuavam me acompanhando.
Aprender a Pensar Música
Existe outro aspecto da minha formação que considero igualmente importante.
A universidade me ensinou a pensar música.
As disciplinas de estética, filosofia, história da arte, história da música e pesquisa acadêmica ampliaram profundamente minha maneira de compreender a criação artística.
Ao mesmo tempo, tive a oportunidade de estudar com Nelson Ayres, uma das minhas grandes referências musicais, e atuar como seu assistente em um projeto que reunia elementos de orquestra sinfônica e jazz dentro do departamento.
Mais uma vez, eu me via diante de artistas que transitavam naturalmente entre diferentes universos.
Aos poucos, comecei a perceber que minha principal busca talvez não fosse escolher uma tradição específica.
Era compreender como diferentes tradições poderiam conversar.
Muito Além Do Currículo
Ao olhar para trás, percebo que a contribuição mais importante da UNICAMP para minha formação não foi uma disciplina, um professor ou um projeto isolado.
Foi a convivência simultânea entre inúmeras possibilidades.
Talvez a síntese mais clara disso tenha aparecido no meu próprio recital de formatura.
Em vez de seguir apenas um dos caminhos disponíveis, decidi reunir a Orquestra Sinfônica da UNICAMP e o Coletivo Orquestral em um concerto de jazz sinfônico.
Na época, aquilo parecia apenas uma ideia interessante.
Hoje percebo que aquele concerto sintetizava uma busca que já vinha se desenvolvendo havia anos.
Aquele concerto já revelava duas características que continuam presentes em praticamente tudo o que faço.
A busca por diálogo entre diferentes linguagens musicais.
E a disposição para criar os projetos necessários para que esse diálogo possa acontecer.
Anos depois, ao trabalhar com orquestras, big bands, projetos de câmara, festivais, gravações e iniciativas educacionais, frequentemente me vejo lidando com questões muito parecidas às que surgiram naquele período.
A diferença é que hoje consigo reconhecer algo que não era tão evidente aos dezoito anos.
Muitas das ideias que orientaram minha trajetória não nasceram de uma decisão planejada ou de uma escola estética específica.
Elas surgiram da convivência entre pessoas, projetos, repertórios e perguntas que coexistiam naquele ambiente.
Foi ali que comecei a perceber que uma linguagem artística não surge pronta. Ela se constrói gradualmente a partir das perguntas que escolhemos perseguir, das pessoas com quem convivemos e dos projetos que decidimos realizar.
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→ Escrevendo Música Brasileira para Orquestra: Entre a Música Popular, o Jazz e a Música de Concerto
Sobre o Autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.


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