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Passagem de Som: Forró Sem Palavras e os bastidores do Instrumental Sesc Brasil

Atualizado: há 19 horas

Há registros audiovisuais que documentam uma apresentação. Outros conseguem revelar as ideias, as relações e os caminhos que tornaram aquela música possível.


O documentário que o SescTV realizou sobre meu trabalho pertence a essa segunda categoria. Produzido para a série Passagem de Som, o filme acompanha a preparação de uma apresentação de Forró Sem Palavras no Instrumental Sesc Brasil e estabelece uma conversa entre composição, arranjo, prática orquestral, dança e música brasileira.


Além dos ensaios e de trechos do concerto, o documentário reúne depoimentos de Nelson Ayres e Paulo Braga, dois músicos importantes para minha formação e para a maneira como passei a compreender o trabalho do compositor e do arranjador.


Documentário Passagem de Som, produzido pelo SescTV, me acompanha nos bastidores de Forró Sem Palavras no Instrumental Sesc Brasil.


Um documentário entre o palco e a pista de dança


A gravação aconteceu em dois ambientes bastante diferentes.


O concerto foi realizado em 16 de janeiro de 2024, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo. Na apresentação, regi a Orquestra Popular de Câmara, uma formação de 13 músicos, em um programa que reuniu composições autorais e meus arranjos de obras ligadas ao forró e à música brasileira.


De um lado, portanto, estava o palco do Instrumental Sesc Brasil, com a Orquestra Popular de Câmara reunida para interpretar meus arranjos. Do outro, o Brasuca Multicultural, em Barão Geraldo, Campinas, onde conduzi um encontro dedicado à relação entre música e dança no forró.


Rafael marca passos básicos no centro do salão enquanto os participantes repetem os movimentos atrás dele.
Conduzo o aquecimento do workshop de forró no Brasuca Multicultural, em Barão Geraldo, durante as gravações do documentário.

Rafael e sua parceira demonstram um movimento de forró no centro do salão enquanto os participantes observam.
Demonstro com minha parceira um dos movimentos trabalhados com os participantes do workshop.

Essa alternância de espaços ajuda a revelar uma questão central do projeto: como preservar a energia coletiva e o impulso corporal do forró quando essa linguagem passa a ser trabalhada por meio da composição, do arranjo e da escrita para uma formação instrumental ampla?


O xote, o xaxado, o baião e outros ritmos presentes nesse universo não aparecem apenas como referências estilísticas. Eles orientam a articulação, a acentuação, o fraseado, a organização das camadas instrumentais e a própria maneira como os músicos se relacionam com o tempo.

É nesse ponto que a dança se torna também uma forma de escuta.


Forró Sem Palavras e a orquestra como instrumento


Músicos vistos de costas no palco, com Rafael Piccolotto de Lima de frente para a Orquestra Popular de Câmara durante a regência.
Rejo a Orquestra Popular de Câmara durante Forró Sem Palavras no Instrumental Sesc Brasil.

Forró Sem Palavras nasceu da vontade de explorar o forró como linguagem instrumental, capaz de existir em diferentes formações e contextos sem perder sua ligação com a festa, o movimento e a convivência.



Rafael Piccolotto de Lima, visto de costas, rege os sopros, com saxofones, flautas e clarone à frente e o quarteto de cordas ao fundo.
Sopros e cordas da Orquestra Popular de Câmara durante a apresentação de Forró Sem Palavras.

No documentário, tento resumir minha relação com esse processo em uma frase:


“O meu instrumento é a orquestra.”

A frase não significa apenas que escrevo para muitos instrumentos. Ela descreve uma forma de pensar musicalmente.


Quando trabalho com uma orquestra ou uma formação de câmara, cada músico participa de uma estrutura maior. Cordas, sopros, acordeon, contrabaixo, bateria e percussões não funcionam somente como blocos separados. Suas entradas, respirações, articulações e combinações formam um único organismo sonoro.


A composição cria o material. O arranjo distribui funções, estabelece relações e transforma uma ideia em experiência coletiva. A regência permite organizar essa construção no tempo real do ensaio e da apresentação.


Rafael Piccolotto de Lima rege a Orquestra Popular de Câmara durante o ensaio, fotografado de baixo para cima e iluminado por uma luz de contracampo.
Durante o ensaio, rejo a Orquestra Popular de Câmara para a apresentação no Instrumental Sesc Brasil.

Quatro horas de ensaio para um concerto inteiro


Um dos momentos que melhor revela os bastidores dessa apresentação surgiu ainda durante o ensaio:


“Nós temos um show de uma hora e meia e quatro horas para ensaiar. Isso dá mais ou menos 20 minutos por música.”

Antes de chegar aos músicos, cada arranjo havia passado dezenas de horas existindo apenas na partitura e na minha imaginação. No ensaio, todo esse trabalho precisava se transformar rapidamente em som.


A situação exigia objetividade. Era necessário ouvir a primeira leitura, reconhecer o que já funcionava, localizar problemas, ajustar articulações e decidir quais detalhes realmente poderiam transformar a interpretação dentro do tempo disponível.


Esse é um aspecto pouco visível do trabalho do compositor e do arranjador. A escrita não termina quando a partitura fica pronta. Ela continua no ensaio, na escuta dos músicos e nas decisões tomadas diante das condições concretas de cada projeto.



Rafael Piccolotto de Lima rege quatro instrumentistas de sopro e um acordeonista reunidos com partituras na sala de gravação.
Depois das quatro horas de ensaio, o encontro continuou com a gravação de duas faixas. Rejo os quatro sopros e o acordeon durante a sessão.

O que a dança ensina sobre a música


Embora o enfoque de Forró Sem Palavras seja a música e sua escuta, sua relação com a dança nunca foi algo secundário.


Dançar evidencia elementos que, muitas vezes, permanecem abstratos quando observados somente pela partitura. O corpo percebe a duração de uma frase, a preparação de uma mudança, o peso de um tempo e a diferença entre antecipar ou retardar determinado movimento.


Participantes praticam passos de forró em pares enquanto Rafael dança com o grupo em um plano aberto do salão.
Danço com os participantes durante a prática de movimentos no workshop do Brasuca Multicultural.

No workshop registrado pelo documentário, parte do trabalho estava ligada a movimentos previamente organizados. Outra parte investigava como os participantes poderiam responder livremente ao que ouviam. Nesse contexto, práticas de improvisação faziam parte da dança e da escuta musical, permitindo que cada pessoa reagisse ao ritmo, à condução e às transformações da música.


Rafael Piccolotto de Lima e dezenas de participantes do workshop estão reunidos no salão, sorrindo e olhando para a câmera.
Com os participantes do workshop ao final das gravações no Brasuca Multicultural.

Essa relação também influencia minha escrita. Não se trata de reduzir o forró a uma sequência de padrões rítmicos, mas de compreender como esses padrões ganham vida quando passam pelo corpo e pela interação entre as pessoas.


Partitura para saxofone barítono e clarone do arranjo de Rafael Piccolotto de Lima para “Santo Antônio”, fotografada sobre a estante durante o ensaio.
Parte de saxofone barítono e clarone do meu arranjo para “Santo Antônio”, de Hermeto Pascoal, durante a passagem de som no Sesc.

Paulo Braga e o interesse pela escrita musical


Minha formação na Unicamp foi marcada pelo contato com diferentes maneiras de pensar a música popular, a composição e o arranjo.


Paulo Braga, pianista, compositor e educador, havia sido professor da universidade antes do meu ingresso. Como ele conta no documentário, soube do meu trabalho por meio de Mário Campos, professor que o sucedeu:


“Foi aí que eu soube do Rafael, que era um saxofonista e uma pessoa muito interessada nessa coisa da escrita.”

Paulo Braga fala para a câmera com a identificação “Paulo Braga — pianista” exibida na parte inferior da imagem.
Paulo Braga, pianista, compositor e educador, em depoimento para o documentário Passagem de Som.

Essa observação registra algo que já estava presente no começo da minha trajetória. Embora o saxofone fizesse parte da minha formação, minha curiosidade se dirigia cada vez mais à construção da música: imaginar combinações instrumentais, organizar ideias e descobrir como uma peça poderia assumir novas dimensões por meio do arranjo.


Rafael Piccolotto de Lima e Paulo Braga posam juntos durante uma edição da Oficina de Música de Curitiba.
Com Paulo Braga durante a Oficina de Música de Curitiba, no início da minha formação universitária.

Anos depois, Paulo participaria como pianista do álbum Pelos Ares, da Orquestra Urbana, e do concerto Forró Sem Palavras Sinfônico, com a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas. Mais tarde, voltaríamos a trabalhar juntos em outros projetos. Aquela referência inicial se transformou, com o tempo, em colaboração artística.


Paulo Braga faz anotações na partitura enquanto Rafael Piccolotto de Lima testa uma passagem ao piano durante a sessão de gravação.
Com Paulo Braga, trabalhando na partitura de “Sob(re) Pedais” durante a gravação do álbum Pelos Ares.

Rafael Piccolotto de Lima e Paulo Braga ouvem a gravação e sorriem diante dos equipamentos da sala técnica.
Com Paulo Braga, ouvindo um take de “Sob(re) Pedais” na sala técnica durante as gravações de Pelos Ares.

Nelson Ayres e a formação do arranjador


Em 2011, Nelson Ayres participou do Programa Artista Residente da Unicamp, dirigindo uma orquestra e ministrando um curso de arranjo. Eu fui um dos alunos daquele projeto.

No documentário, ele relembra esse encontro:


“Ele se destacava muito. Era o único cara que realmente estava interessado na história, queria ser arranjador e já tinha coisas escritas.”

Nelson Ayres aparece sentado em uma entrevista gravada à distância, com seu nome e suas atividades musicais identificados na imagem.
Nelson Ayres, compositor, pianista e regente, em depoimento gravado para o documentário Passagem de Som.

Em outro momento, Nelson comenta sobre o tempo necessário para a formação de um arranjador:


“É muito raro que um jovem seja um arranjador, porque não tem tempo para estudar isso tudo. Mas ele caiu de cabeça nisso. Estudou mesmo, levou a sério, ralou e se tornou um super arranjador, além de compositor.”

O valor dessas palavras não está apenas no reconhecimento. Elas ajudam a explicar por que o arranjo se tornou uma parte tão importante da minha trajetória.


Aprender a escrever para grupos maiores exige tempo, estudo e experiência prática. É necessário conhecer os instrumentos, compreender suas combinações e desenvolver clareza suficiente para comunicar uma ideia a pessoas que precisam transformá-la em som. Cada ensaio acrescenta algo que nenhum livro ou exercício isolado poderia ensinar.


A convivência com músicos como Nelson Ayres e Paulo Braga inseriu minha formação em uma tradição viva da música instrumental brasileira: uma tradição construída pela escrita, pela escuta, pelo palco e pela transmissão de conhecimento entre diferentes gerações.


Montagem com Rafael Piccolotto de Lima e Nelson Ayres após o Festival Etapa, em 2016, à esquerda, e juntos ao piano na Americas Society, em Nova York, em 2024, à direita.
Com Nelson Ayres após a apresentação de sua big band no Festival Etapa de Música de Arte, em Valinhos, em 2016, e após seu concerto com Mônica Salmaso e Teco Cardoso na Americas Society, em Nova York, em 2024.

Instrumental Sesc Brasil: um espaço para a música instrumental


A apresentação de Forró Sem Palavras fez parte do Instrumental Sesc Brasil, iniciativa dedicada à produção, ao registro e à difusão da música instrumental brasileira. Realizado no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, o concerto também foi transmitido ao vivo pelo canal do projeto no YouTube.


Esse contexto foi especialmente significativo para Forró Sem Palavras. A Orquestra Popular de Câmara reuniu cordas, sopros, acordeon e uma seção rítmica brasileira, em uma instrumentação que permitia aproximar recursos camerísticos e orquestrais da pulsação do forró.


Ao registrar o ensaio, o concerto e as histórias que cercavam aquela música, o SescTV preservou mais do que uma apresentação. O documentário tornou visível um processo artístico desenvolvido durante muitos anos, desde a formação na Unicamp até os projetos realizados no Brasil e nos Estados Unidos.


Um registro e também um ponto de continuidade


Rever este documentário hoje é reencontrar um momento específico da minha trajetória, mas também reconhecer perguntas que continuam orientando meu trabalho.


Rafael Piccolotto de Lima fala durante uma entrevista ao ar livre, com o microfone de boom acima dele, o entrevistador à frente e uma câmera posicionada ao lado.
Bastidores da minha entrevista para o SescTV na área externa do Brasuca Multicultural.

Rafael Piccolotto de Lima, Karen e integrantes da equipe do SescTV estão reunidos e sorrindo para a câmera após as gravações do documentário.
Com a equipe de produção e filmagem do SescTV ao final das gravações no Brasuca Multicultural.

Como escrever música brasileira para formações orquestrais sem neutralizar sua identidade rítmica? Como fazer a escrita conviver com a flexibilidade dos músicos? Como criar uma música que possa ser ouvida atentamente em um concerto e, em outro contexto, convidar o público a dançar?


Forró Sem Palavras continua sendo um espaço para investigar essas questões.


O documentário registra um instante desse percurso: os músicos reunidos, o tempo curto de ensaio, a música saindo da partitura e a dança devolvendo ao som sua dimensão coletiva.


Informações sobre o documentário e o concerto


Documentário: Passagem de Som, sobre Forró Sem Palavras

Artista documentado: Rafael Piccolotto de Lima

Realização audiovisual: SescTV

Série musical: Instrumental Sesc Brasil

Concerto: Forró Sem Palavras

Data da apresentação: 16 de janeiro de 2024

Local: Teatro Anchieta, Sesc Consolação, São Paulo

Formação: Orquestra Popular de Câmara, com 13 músicos

Atuação de Rafael Piccolotto de Lima: composição, arranjos, direção musical e regência

Outras gravações: ensaio e registro de duas faixas com integrantes da Orquestra Popular de Câmara (Maracaião e Inconsciente)

Local adicional das filmagens: Brasuca Multicultural, em Barão Geraldo, Campinas

Depoimentos: Nelson Ayres e Paulo Braga


Continue explorando




Conheça o projeto Forró Sem Palavras.


Conheça meu trabalho com direção musical e projetos orquestrais.



Sobre o Autor


Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.




Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador

 
 
 

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