Passagem de Som: Forró Sem Palavras e os bastidores do Instrumental Sesc Brasil
- Rafael Piccolotto de Lima
- há 1 dia
- 8 min de leitura
Atualizado: há 19 horas
Há registros audiovisuais que documentam uma apresentação. Outros conseguem revelar as ideias, as relações e os caminhos que tornaram aquela música possível.
O documentário que o SescTV realizou sobre meu trabalho pertence a essa segunda categoria. Produzido para a série Passagem de Som, o filme acompanha a preparação de uma apresentação de Forró Sem Palavras no Instrumental Sesc Brasil e estabelece uma conversa entre composição, arranjo, prática orquestral, dança e música brasileira.
Além dos ensaios e de trechos do concerto, o documentário reúne depoimentos de Nelson Ayres e Paulo Braga, dois músicos importantes para minha formação e para a maneira como passei a compreender o trabalho do compositor e do arranjador.
Assista ao documentário Passagem de Som no canal oficial do SescTV.
Um documentário entre o palco e a pista de dança
A gravação aconteceu em dois ambientes bastante diferentes.
O concerto foi realizado em 16 de janeiro de 2024, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo. Na apresentação, regi a Orquestra Popular de Câmara, uma formação de 13 músicos, em um programa que reuniu composições autorais e meus arranjos de obras ligadas ao forró e à música brasileira.
De um lado, portanto, estava o palco do Instrumental Sesc Brasil, com a Orquestra Popular de Câmara reunida para interpretar meus arranjos. Do outro, o Brasuca Multicultural, em Barão Geraldo, Campinas, onde conduzi um encontro dedicado à relação entre música e dança no forró.


Essa alternância de espaços ajuda a revelar uma questão central do projeto: como preservar a energia coletiva e o impulso corporal do forró quando essa linguagem passa a ser trabalhada por meio da composição, do arranjo e da escrita para uma formação instrumental ampla?
O xote, o xaxado, o baião e outros ritmos presentes nesse universo não aparecem apenas como referências estilísticas. Eles orientam a articulação, a acentuação, o fraseado, a organização das camadas instrumentais e a própria maneira como os músicos se relacionam com o tempo.
É nesse ponto que a dança se torna também uma forma de escuta.
Forró Sem Palavras e a orquestra como instrumento

Forró Sem Palavras nasceu da vontade de explorar o forró como linguagem instrumental, capaz de existir em diferentes formações e contextos sem perder sua ligação com a festa, o movimento e a convivência.
→ Leia também: Forró Sem Palavras: Criando Pontes Entre o Forró, o Jazz, a Música de Concerto e os Espaços Onde a Música Acontece

No documentário, tento resumir minha relação com esse processo em uma frase:
“O meu instrumento é a orquestra.”
A frase não significa apenas que escrevo para muitos instrumentos. Ela descreve uma forma de pensar musicalmente.
Quando trabalho com uma orquestra ou uma formação de câmara, cada músico participa de uma estrutura maior. Cordas, sopros, acordeon, contrabaixo, bateria e percussões não funcionam somente como blocos separados. Suas entradas, respirações, articulações e combinações formam um único organismo sonoro.
A composição cria o material. O arranjo distribui funções, estabelece relações e transforma uma ideia em experiência coletiva. A regência permite organizar essa construção no tempo real do ensaio e da apresentação.

Quatro horas de ensaio para um concerto inteiro
Um dos momentos que melhor revela os bastidores dessa apresentação surgiu ainda durante o ensaio:
“Nós temos um show de uma hora e meia e quatro horas para ensaiar. Isso dá mais ou menos 20 minutos por música.”
Antes de chegar aos músicos, cada arranjo havia passado dezenas de horas existindo apenas na partitura e na minha imaginação. No ensaio, todo esse trabalho precisava se transformar rapidamente em som.
A situação exigia objetividade. Era necessário ouvir a primeira leitura, reconhecer o que já funcionava, localizar problemas, ajustar articulações e decidir quais detalhes realmente poderiam transformar a interpretação dentro do tempo disponível.
Esse é um aspecto pouco visível do trabalho do compositor e do arranjador. A escrita não termina quando a partitura fica pronta. Ela continua no ensaio, na escuta dos músicos e nas decisões tomadas diante das condições concretas de cada projeto.

O que a dança ensina sobre a música
Embora o enfoque de Forró Sem Palavras seja a música e sua escuta, sua relação com a dança nunca foi algo secundário.
Dançar evidencia elementos que, muitas vezes, permanecem abstratos quando observados somente pela partitura. O corpo percebe a duração de uma frase, a preparação de uma mudança, o peso de um tempo e a diferença entre antecipar ou retardar determinado movimento.

No workshop registrado pelo documentário, parte do trabalho estava ligada a movimentos previamente organizados. Outra parte investigava como os participantes poderiam responder livremente ao que ouviam. Nesse contexto, práticas de improvisação faziam parte da dança e da escuta musical, permitindo que cada pessoa reagisse ao ritmo, à condução e às transformações da música.

Essa relação também influencia minha escrita. Não se trata de reduzir o forró a uma sequência de padrões rítmicos, mas de compreender como esses padrões ganham vida quando passam pelo corpo e pela interação entre as pessoas.

Paulo Braga e o interesse pela escrita musical
Minha formação na Unicamp foi marcada pelo contato com diferentes maneiras de pensar a música popular, a composição e o arranjo.
Paulo Braga, pianista, compositor e educador, havia sido professor da universidade antes do meu ingresso. Como ele conta no documentário, soube do meu trabalho por meio de Mário Campos, professor que o sucedeu:
“Foi aí que eu soube do Rafael, que era um saxofonista e uma pessoa muito interessada nessa coisa da escrita.”

Essa observação registra algo que já estava presente no começo da minha trajetória. Embora o saxofone fizesse parte da minha formação, minha curiosidade se dirigia cada vez mais à construção da música: imaginar combinações instrumentais, organizar ideias e descobrir como uma peça poderia assumir novas dimensões por meio do arranjo.

Anos depois, Paulo participaria como pianista do álbum Pelos Ares, da Orquestra Urbana, e do concerto Forró Sem Palavras Sinfônico, com a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas. Mais tarde, voltaríamos a trabalhar juntos em outros projetos. Aquela referência inicial se transformou, com o tempo, em colaboração artística.


Nelson Ayres e a formação do arranjador
Em 2011, Nelson Ayres participou do Programa Artista Residente da Unicamp, dirigindo uma orquestra e ministrando um curso de arranjo. Eu fui um dos alunos daquele projeto.
No documentário, ele relembra esse encontro:
“Ele se destacava muito. Era o único cara que realmente estava interessado na história, queria ser arranjador e já tinha coisas escritas.”

Em outro momento, Nelson comenta sobre o tempo necessário para a formação de um arranjador:
“É muito raro que um jovem seja um arranjador, porque não tem tempo para estudar isso tudo. Mas ele caiu de cabeça nisso. Estudou mesmo, levou a sério, ralou e se tornou um super arranjador, além de compositor.”
O valor dessas palavras não está apenas no reconhecimento. Elas ajudam a explicar por que o arranjo se tornou uma parte tão importante da minha trajetória.
Aprender a escrever para grupos maiores exige tempo, estudo e experiência prática. É necessário conhecer os instrumentos, compreender suas combinações e desenvolver clareza suficiente para comunicar uma ideia a pessoas que precisam transformá-la em som. Cada ensaio acrescenta algo que nenhum livro ou exercício isolado poderia ensinar.
A convivência com músicos como Nelson Ayres e Paulo Braga inseriu minha formação em uma tradição viva da música instrumental brasileira: uma tradição construída pela escrita, pela escuta, pelo palco e pela transmissão de conhecimento entre diferentes gerações.

Instrumental Sesc Brasil: um espaço para a música instrumental
A apresentação de Forró Sem Palavras fez parte do Instrumental Sesc Brasil, iniciativa dedicada à produção, ao registro e à difusão da música instrumental brasileira. Realizado no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, o concerto também foi transmitido ao vivo pelo canal do projeto no YouTube.
Esse contexto foi especialmente significativo para Forró Sem Palavras. A Orquestra Popular de Câmara reuniu cordas, sopros, acordeon e uma seção rítmica brasileira, em uma instrumentação que permitia aproximar recursos camerísticos e orquestrais da pulsação do forró.
Ao registrar o ensaio, o concerto e as histórias que cercavam aquela música, o SescTV preservou mais do que uma apresentação. O documentário tornou visível um processo artístico desenvolvido durante muitos anos, desde a formação na Unicamp até os projetos realizados no Brasil e nos Estados Unidos.
Um registro e também um ponto de continuidade
Rever este documentário hoje é reencontrar um momento específico da minha trajetória, mas também reconhecer perguntas que continuam orientando meu trabalho.


Como escrever música brasileira para formações orquestrais sem neutralizar sua identidade rítmica? Como fazer a escrita conviver com a flexibilidade dos músicos? Como criar uma música que possa ser ouvida atentamente em um concerto e, em outro contexto, convidar o público a dançar?
Forró Sem Palavras continua sendo um espaço para investigar essas questões.
O documentário registra um instante desse percurso: os músicos reunidos, o tempo curto de ensaio, a música saindo da partitura e a dança devolvendo ao som sua dimensão coletiva.
Informações sobre o documentário e o concerto
Documentário: Passagem de Som, sobre Forró Sem Palavras
Artista documentado: Rafael Piccolotto de Lima
Realização audiovisual: SescTV
Série musical: Instrumental Sesc Brasil
Concerto: Forró Sem Palavras
Data da apresentação: 16 de janeiro de 2024
Local: Teatro Anchieta, Sesc Consolação, São Paulo
Formação: Orquestra Popular de Câmara, com 13 músicos
Atuação de Rafael Piccolotto de Lima: composição, arranjos, direção musical e regência
Outras gravações: ensaio e registro de duas faixas com integrantes da Orquestra Popular de Câmara (Maracaião e Inconsciente)
Local adicional das filmagens: Brasuca Multicultural, em Barão Geraldo, Campinas
Depoimentos: Nelson Ayres e Paulo Braga
Continue explorando
Conheça o projeto Forró Sem Palavras.
Conheça meu trabalho com direção musical e projetos orquestrais.
Sobre o Autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.

