Como Encontrei Meu Lugar Entre a Música Brasileira, a Composição Orquestral e o Jazz
- Rafael Piccolotto de Lima

- 14 de jun.
- 4 min de leitura
Atualizado: 13 de jul.
Durante muitos anos, uma mesma pergunta surgia em diferentes contextos. Ela aparecia em conversas após concertos, entrevistas, apresentações de novos projetos e encontros com outros músicos. Também surgia com frequência quando pessoas de outras áreas descobriam que eu trabalhava como compositor. A pergunta parecia simples: que tipo de música você faz?
As categorias normalmente utilizadas para responder essa pergunta nunca pareceram descrever completamente os projetos que me interessavam. Desde cedo, referências ligadas à música brasileira, ao jazz e à música de concerto conviviam naturalmente na minha escuta. A composição ocupava o centro desse interesse. Dependendo do projeto, ela se desdobrava em atividades como arranjo, direção musical, regência, pesquisa ou produção artística.
Na formação universitária e nas classificações normalmente utilizadas para descrever a música, essas tradições costumavam aparecer como universos relativamente distintos.
Uma Pergunta Que Aparecia em Diferentes Lugares

Quando entrei na UNICAMP para estudar composição, essa questão já estava presente.
Enquanto estudava disciplinas ligadas à composição e à música de concerto, mantinha um interesse crescente pela improvisação, pela música instrumental brasileira, pelo jazz e pelos projetos que surgiam justamente do encontro entre essas linguagens.
A própria estrutura universitária refletia uma divisão relativamente comum: de um lado, os cursos ligados à tradição da música de concerto; de outro, os cursos ligados à música popular. Muitas das questões que mais me interessavam surgiam entre esses dois campos.
A mesma curiosidade atravessava as pesquisas sobre a linguagem da big band brasileira, os grupos que criei durante a universidade e as primeiras experiências escrevendo para orquestras. Também estava presente em muitos dos artistas e projetos que mais despertavam meu interesse como ouvinte e pesquisador.

Quando a Pergunta se Tornou Pesquisa
Durante o doutorado na University of Miami, essa mesma questão se tornou tema de pesquisa.
→ Leia mais: Blurred Distinctions: O Que Minha Pesquisa de Doutorado Me Ensinou Sobre Jazz, Música de Concerto e Linguagens Híbridas
O título da tese refletia diretamente essa preocupação: Blurred Distinctions.
O título faz referência a algo como “distinções borradas” ou “distinções turvas”, remetendo à imagem de algo fora de foco, cujos contornos deixam de ser perfeitamente nítidos. A pesquisa examinava a diferença entre a maneira como a música costuma ser classificada e a forma como ela efetivamente é criada.
As categorias musicais ajudam a organizar conhecimento, facilitar o ensino e orientar discussões sobre música. Os processos criativos, no entanto, nem sempre seguem essas separações com a mesma clareza. A partir da relação entre jazz e música de concerto, a tese investigava processos de aproximação, influência mútua e hibridização entre tradições musicais.
Por trás dessa investigação existia uma pergunta mais ampla, que continua me interessando até hoje: até que ponto as fronteiras que utilizamos para organizar a música correspondem à maneira como a música efetivamente é criada?

→ Leia também: A BMI Jazz Composers Workshop e os Desafios de Desenvolver Música Autoral para Big Band
Uma Questão Presente na Prática Profissional
Grande parte dos projetos de composição que desenvolvi para big band, orquestra, música de câmara e diferentes formações ligadas à música brasileira nasceu de questões semelhantes. Em muitos deles, o trabalho também envolveu arranjo, direção musical, regência, pesquisa ou produção artística.
O que acontece quando referências, procedimentos e práticas associados a diferentes tradições musicais passam a coexistir dentro de um mesmo projeto?
Em diferentes momentos da minha trajetória, essa busca assumiu formas bastante distintas. Ela aparecia no recital de formatura que reuniu a Orquestra Sinfônica da UNICAMP e o Coletivo Orquestral, uma big band formada por alunos e professores da universidade, em um concerto de jazz sinfônico. Aparecia mais tarde na criação da Orquestra Urbana, um projeto dedicado à composição autoral para big band. E continua presente em trabalhos como o Forró Sem Palavras, um projeto que ao longo dos anos já foi apresentado em formações que vão da música de câmara às apresentações sinfônicas.

Entre Categorias e Prática Artística
A pergunta “que tipo de música você faz?” nunca encontrou uma resposta simples. Nenhuma definição isolada parece suficiente. Diferentes projetos acabaram assumindo formas distintas ao longo da minha trajetória, mas frequentemente eram movidos pelas mesmas perguntas. Música brasileira, jazz, música de concerto, improvisação, composição, direção musical e escrita para grandes formações passaram a convergir em um mesmo conjunto de perguntas que continua reaparecendo de projeto para projeto.
As perguntas que motivaram a tese já estavam presentes nos interesses musicais que me acompanhavam desde o início da formação e continuam presentes nos projetos que desenvolvo hoje.
A pesquisa surgiu da tentativa de compreender um território que eu já habitava na prática: um espaço em que diferentes linguagens, tradições e projetos continuam dialogando de maneiras que raramente cabem em uma única categoria.
Continue explorando
O que realmente significa ser compositor? Este ensaio discute como muitos compositores transformam ideias em projetos, reunindo músicos, instituições e colaborações para dar forma a um universo musical que vai muito além da partitura.
→ Escrevendo Música Brasileira para Orquestra: Entre a Música Popular, o Jazz e a Música de Concerto
Sobre o Autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.





Comentários