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A BMI Jazz Composers Workshop e os Desafios de Desenvolver Música Autoral para Big Band

Atualizado: há 1 dia

Escrever para big band é uma das atividades mais complexas dentro da música contemporânea.


Além dos desafios criativos envolvidos em qualquer processo de composição, existe a necessidade de dominar uma linguagem altamente especializada, compreender profundamente as possibilidades dos instrumentos, equilibrar improvisação e escrita, lidar com grandes formações e desenvolver uma voz própria dentro de uma tradição musical centenária.


Mas mesmo depois de todo o trabalho necessário para criar uma obra, ainda existe outro desafio.


Obras para big band raramente são desenvolvidas em estúdio ou em situações controladas. Para a maioria dos compositores, ouvir uma peça sendo executada por uma formação completa já é um acontecimento relativamente raro.


Revisá-la várias vezes ao longo de meses ou anos é mais raro ainda.


A realidade costuma ser simples: a obra estreia, o concerto termina e o compositor segue para o próximo projeto.


Ambientes onde novas composições podem ser testadas, revisadas e amadurecidas de forma continuada são exceções dentro desse universo.


Foi justamente essa característica que despertou meu interesse pela BMI Jazz Composers Workshop muitos anos antes de eu me mudar para Nova York.


Anos depois, a BMI acabaria se tornando uma das minhas principais portas de entrada para a comunidade de compositores, arranjadores e líderes de big band que mantêm viva a tradição dos grandes conjuntos autorais em Nova York.


A Busca por Ambientes Onde Novas Obras Podem Amadurecer


O ambiente mais próximo daquilo que encontrei posteriormente na BMI surgiu durante meus anos na Frost School of Music da University of Miami.


Sob a liderança do compositor, arranjador e educador Gary Lindsay, a escola cultivava uma cultura extremamente favorável à criação de novas obras.


Os compositores não eram apenas observadores do processo.


Eles participavam ativamente da vida musical dos ensembles, escrevendo para as big bands da universidade, ouvindo suas obras em ensaios, acompanhando gravações e desenvolvendo repertório em contato constante com músicos de altíssimo nível.


Grande parte do meu desenvolvimento como compositor para big band aconteceu ali.


Durante aqueles anos, tive a oportunidade de escrever regularmente para diferentes ensembles, ouvir gravações profissionais das obras, trabalhar diretamente com músicos excepcionais e acompanhar um processo contínuo de revisão e amadurecimento de repertório.


Em muitos aspectos, foi ali que construí a base técnica e artística que tornaria possível tudo o que viria depois.


Foi durante aqueles anos que escrevi, ouvi, revisei e gravei uma quantidade significativa de repertório.


Também foi ali que compreendi algo que continua influenciando meu trabalho até hoje: composições raramente nascem prontas.


Elas amadurecem através da escuta, passam por revisões, ganham novas versões e encontram novos caminhos à medida que entram em contato com músicos, ensaios, gravações e diferentes contextos de performance.


Quando me aproximei da conclusão do doutorado, comecei a pensar sobre uma questão diferente.


Onde encontrar esse tipo de ambiente depois da universidade?



Um Lugar Que Eu Queria Conhecer Antes Mesmo de Chegar a Nova York


Quando comecei a pesquisar programas de pós-graduação nos Estados Unidos, Nova York já exercia um fascínio especial sobre mim.


Uma das razões era a BMI Jazz Composers Workshop.


Na época, cheguei a ser aceito pela Manhattan School of Music e tive contato com Jim McNeely, que então dirigia a BMI e integrava o corpo docente da instituição.


Eu já acompanhava seu trabalho havia anos e o considerava uma das referências centrais da escrita contemporânea para big band. Sua atuação como compositor, arranjador, educador e líder de banda ajudou a moldar toda uma geração de criadores ligados à tradição que se desenvolveu a partir de figuras como Bob Brookmeyer e continua influenciando o universo das jazz orchestras até hoje.


Acabei escolhendo outro caminho e fui para Miami como Composer Fellow do Henry Mancini Institute.


Mas a BMI permaneceu como uma referência.


Anos depois, próximo da conclusão do doutorado, candidatei-me ao workshop e fui aceito.


Ainda durante meu último semestre na University of Miami, passei a viajar regularmente para Nova York para participar dos encontros e sessões de leitura enquanto preparava minha mudança definitiva para a cidade.


Na prática, a BMI acabou se tornando uma das minhas primeiras conexões com a comunidade de compositores e arranjadores que atuava naquele universo.


Um Laboratório Criativo para Compositores


O que torna a BMI especial é que ela não funciona como uma escola tradicional.


O foco não está em ensinar fundamentos de composição.


A maior parte dos participantes já possui formação sólida e experiência profissional.


Muitos haviam concluído mestrados ou doutorados. Outros eram instrumentistas experientes desenvolvendo seus próprios projetos autorais. Havia ainda compositores mais experientes que buscavam um espaço para continuar criando, ouvindo e refinando suas obras.


Os encontros semanais funcionavam como um fórum permanente de discussão criativa.


Os participantes apresentavam partituras, gravações, mockups digitais e obras em desenvolvimento. O grupo discutia questões relacionadas à escrita, forma, orquestração e processo criativo, enquanto os mentores contribuíam com observações e comentários.


Durante os anos em que participei do workshop, tive a oportunidade de acompanhar de perto o trabalho de músicos como Ted Nash, Alan Ferber e Remy Le Boeuf, além da influência permanente da linhagem composicional associada a nomes como Bob Brookmeyer e Jim McNeely.


Mensalmente aconteciam as sessões de leitura.


Uma big band formada por músicos profissionais da cena de jazz de Nova York executava obras dos participantes.


Cada compositor tinha tempo para ouvir uma ou duas leituras e receber comentários.


Mas quando músicos desse nível colocam uma partitura no estante pela primeira vez, poucos minutos são suficientes para revelar informações que poderiam permanecer escondidas durante meses de trabalho solitário.


Quase nenhuma das obras apresentadas estava realmente concluída.


O workshop era um espaço de experimentação.


Muitas vezes os compositores apresentavam rascunhos, versões preliminares ou trabalhos ainda em processo de desenvolvimento.


Meses depois, aquelas mesmas peças retornavam transformadas pelas leituras, pelas discussões e pelo amadurecimento natural do processo criativo.



Quando Uma Composição Continua Evoluindo


Duas obras minhas ilustram bem esse processo.


A primeira delas foi Negative Space.


A composição surgiu originalmente durante meu último ano na University of Miami como uma peça para pequeno grupo de jazz.


Posteriormente recebeu uma nova versão para o Chamber Project e foi selecionada para apresentação na conferência da International Society of Jazz Arrangers and Composers (ISJAC).


Quando entrei na BMI, decidi revisitar aquele material.


A obra recebeu uma nova adaptação para big band e passou pelo processo de desenvolvimento proporcionado pelo workshop.


Essa versão acabou sendo selecionada como finalista do Charlie Parker Jazz Composition Prize.


Anos depois, a peça continuou sua trajetória e passou a integrar o repertório da Orquestra Urbana, fazendo parte do álbum que atualmente está sendo produzido no Brasil.


Algo semelhante aconteceu com Raiar.


A obra foi originalmente encomendada e estreada pela Symphony of the Americas em colaboração com o grupo liderado pelo pianista Errol Rackipov.


Posteriormente desenvolvi uma nova versão para big band apresentada na BMI.


Mais uma vez, a obra foi selecionada como finalista do Charlie Parker Jazz Composition Prize e continuou sua evolução até integrar o repertório atual da Orquestra Urbana.


Essas trajetórias reforçaram uma percepção importante.


A composição não termina quando a partitura está pronta.


Em muitos casos, é justamente aí que começa uma nova etapa do processo criativo.


Nova York e o Universo das Big Bands


A BMI também me colocou em contato direto com um dos ecossistemas mais importantes do mundo para quem trabalha com grandes conjuntos.


Poucas cidades possuem uma concentração tão grande de compositores, arranjadores, líderes de banda e músicos especializados em grandes conjuntos quanto Nova York.



Além das universidades da região, existe uma rede de big bands profissionais, ensembles autorais, instituições culturais e espaços de apresentação que mantém essa tradição ativa de forma contínua.


Em uma mesma semana é possível assistir a projetos liderados por artistas consagrados como Maria Schneider, Darcy James Argue ou Arturo O’Farrill e, ao mesmo tempo, encontrar dezenas de compositores emergentes desenvolvendo seus próprios trabalhos.


Essa convivência entre diferentes gerações talvez seja uma das características mais marcantes da cidade.


Ao lado dos nomes já estabelecidos existe uma enorme quantidade de artistas construindo seus próprios caminhos, criando novos ensembles e desenvolvendo repertório original.


Foi nesse ambiente que participei de iniciativas como o Mó Collective, criado em parceria com o saxofonista e arranjador brasileiro Lívio Almeida, e do New York Jazz Composers Mosaic, projeto desenvolvido ao lado das compositoras Jihye Lee e Migiwa Miyajima.


Relações Que Continuam Muito Depois das Leituras


Uma das consequências mais importantes da BMI foi a construção de relações profissionais que continuam presentes na minha trajetória até hoje.


Entre os compositores que conheci naquele ambiente estava Jihye Lee.


Anos mais tarde, acabamos colaborando diretamente no New York Jazz Composers Mosaic, série de concertos que nasceu das relações construídas dentro daquela comunidade.


Outro exemplo foi Remy Le Boeuf.


Lembro de ouvir suas obras durante as sessões de leitura e considerá-las algumas das mais interessantes apresentadas naquele período.


Além da admiração pelo trabalho dele, percebia afinidades estéticas que provavelmente passavam pela influência compartilhada de compositores como Maria Schneider.


Com o tempo surgiu uma amizade que acabou gerando novas colaborações.


Anos depois, Remy me encomendou uma obra para a big band da University of Colorado.


Dessa encomenda nasceu Entre Outras Coisas, composição inspirada na obra de Moacir Santos e que posteriormente passou a integrar o repertório da Orquestra Urbana.


Ted Nash também teve uma influência importante naquele período.


Pouco depois da minha mudança para Nova York, convidei-o para um almoço no Jazz at Lincoln Center.


Eu estava tentando entender melhor aquele universo, compreender seus desafios e encontrar caminhos para desenvolver meus próprios projetos.


Durante aquela conversa, Ted compartilhou observações sobre o funcionamento da cena de big bands em Nova York, os desafios de manter projetos autorais ativos e os diferentes caminhos percorridos por compositores e líderes de banda na cidade.


Falamos também sobre música brasileira, tema que sempre despertou seu interesse e que já havia aparecido em diferentes momentos de sua trajetória artística.


Eu havia acabado de me mudar para Nova York e estava tentando entender como construir meus próprios projetos naquele ambiente. Ouvir a perspectiva de alguém que participava daquela comunidade há décadas foi extremamente valioso.


A conversa não ofereceu respostas prontas, mas ajudou a compreender melhor o ecossistema artístico que eu estava começando a integrar.


Por Que a BMI Continua Relevante


Ao longo da minha trajetória participei de universidades, conferências, festivais, residências artísticas e projetos profissionais em diferentes países.


Poucos ambientes me pareceram tão valiosos para compositores de grandes conjuntos quanto a BMI Jazz Composers Workshop.


A razão está diretamente ligada àquilo que o workshop oferece.


Poucos compositores têm acesso regular a uma big band profissional capaz de ler novas obras, registrar essas leituras e permitir que o processo de revisão continue ao longo do tempo.


Ainda mais raros são os ambientes onde esse trabalho acontece ao lado de outros criadores enfrentando desafios semelhantes.


Quando penso na importância da BMI para minha trajetória, lembro das obras que passaram por ali, das leituras, das conversas e das relações profissionais construídas ao longo dos anos.


Mas lembro principalmente da oportunidade de acompanhar músicas em transformação.


Ver ideias saindo do papel, encontrando intérpretes, sendo revisadas e assumindo formas que muitas vezes não eram visíveis no momento em que foram escritas.


Para quem escreve para grandes conjuntos, esse processo de escuta, revisão e amadurecimento é parte essencial da própria composição.


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Sobre o Autor


Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.




Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador

 
 
 

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