O Trabalho do Arranjador e Compositor na Brasil Jazz Sinfônica
- Rafael Piccolotto de Lima

- 7 de jun.
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Atualizado: há 1 dia
Ao longo dos últimos anos, escrevi arranjos para a Brasil Jazz Sinfônica apresentados por artistas como Ivan Lins, Mart’nália, Mônica Salmaso, Vanessa da Mata, Alceu Valença, Chico César, Mariana Aydar, Mestrinho, Martinho da Vila, Alcione, Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Céu, Tim Bernardes, Dora Morelenbaum, Paula Morelenbaum, Diogo Nogueira e Renato Borghetti.
Embora esses artistas tenham repertórios, estéticas e trajetórias bastante diferentes, todos esses projetos colocavam o arranjo diante da mesma questão.
De um lado estava a identidade construída por cada convidado ao longo de sua trajetória.
Do outro, a sonoridade da Brasil Jazz Sinfônica, uma instituição que ocupa um espaço singular na música brasileira ao reunir elementos da tradição sinfônica, da música popular brasileira e do jazz em uma mesma formação.
O trabalho do arranjador acontecia justamente nesse encontro.
Cada projeto exigia decisões sobre como aproximar esses universos, preservando aquilo que tornava cada artista reconhecível e, ao mesmo tempo, explorando as possibilidades oferecidas pela orquestra.
Foi nesse contexto que surgiu grande parte da minha colaboração com a Brasil Jazz Sinfônica.
Como Minha Colaboração com a Brasil Jazz Sinfônica Começou
Minha relação com a orquestra começou antes das primeiras encomendas.
Um arranjo que escrevi para Ponta de Areia, de Milton Nascimento e Fernando Brant, recebeu reconhecimento em um concurso nacional de arranjo e passou a integrar o repertório da Brasil Jazz Sinfônica.
Também participei de um concurso de composição promovido pela instituição. Embora minha obra não tenha sido a vencedora, ela foi selecionada para apresentações pela orquestra.
Ao mesmo tempo, músicos que já haviam trabalhado comigo em outros contextos passaram a recomendar meu trabalho para a direção musical do grupo.
Essas experiências abriram caminho para as primeiras colaborações profissionais e para uma relação que se desenvolveria ao longo dos anos seguintes.
Os Concertos da Retomada
Uma parte importante desse trabalho aconteceu durante o período de retomada das atividades presenciais após a pandemia.
Entre os primeiros projetos estavam os concertos com Ivan Lins e Mart’nália, realizados na Sala São Paulo e transmitidos pela TV Cultura.
Era um momento bastante particular.
As formações ainda eram reduzidas, alguns concertos utilizavam apenas as cordas da orquestra, os músicos tocavam de máscara e o público presente era limitado.
Mesmo assim, a música continuava chegando às pessoas por meio das gravações e transmissões realizadas naquele período.
Foi nesse contexto que começaram a surgir com maior frequência os convites para escrever arranjos destinados aos concertos especiais da Brasil Jazz Sinfônica com artistas convidados.
Como Nasce um Arranjo para a Brasil Jazz Sinfônica
O processo normalmente começava com uma mensagem do maestro ou diretor musical responsável pelo projeto.
Após a confirmação de disponibilidade, eu recebia a gravação de referência da obra, a instrumentação do concerto e algumas orientações gerais.
Na maioria das vezes, a estrutura principal da canção permanecia próxima da gravação original.
A parte cantada era preservada e a principal liberdade criativa estava na construção do universo orquestral ao redor dela.
O trabalho seguia então para uma etapa de escuta, análise e preparação de materiais.
Frequentemente era necessário realizar transcrições da melodia, da harmonia e de outros elementos musicais da gravação original, já que muitos artistas não possuíam partituras completas de seu repertório.
Com esse material organizado, começava a fase de escrita.
Introduções, transições, seções instrumentais, solos, novas texturas e diferentes possibilidades de desenvolvimento passavam a ser construídos em diálogo com a obra original.
Depois da conclusão do arranjo, eu preparava uma realização digital de referência, a grade orquestral completa e todas as partes individuais dos músicos.
Em muitos casos, isso significava revisar e editar manualmente mais de uma centena de páginas antes da entrega final para o arquivo da orquestra.
Entrar no Mundo do Artista
Cada artista convidado trazia consigo uma linguagem própria.
O universo musical de Alcione é diferente do universo de Tim Bernardes.
O repertório de Alceu Valença apresenta desafios distintos daqueles encontrados em um concerto dedicado a Mônica Salmaso, Renato Borghetti ou Martinho da Vila.
Essa diversidade faz parte da riqueza desses projetos.
O trabalho consistia em compreender profundamente a lógica musical presente em cada repertório antes de tomar qualquer decisão de escrita.
Questões de fraseado, instrumentação, textura, densidade, ritmo e forma influenciavam diretamente as escolhas realizadas no arranjo.
A intenção nunca era substituir a identidade da obra original.
Pelo contrário.
O objetivo era criar um contexto orquestral capaz de dialogar com ela.
Trazer o Artista para o Universo da Orquestra
Ao mesmo tempo, esses concertos também precisavam explorar aquilo que a Brasil Jazz Sinfônica tinha de mais característico.
A presença de uma grande formação orquestral abre possibilidades que simplesmente não existem em grupos menores.
A presença de uma grande formação permite trabalhar com combinações tímbricas mais amplas, alternar protagonismo entre diferentes naipes, criar camadas simultâneas de escrita e desenvolver a música em escalas que raramente seriam possíveis em grupos menores.
Parte importante do trabalho consistia em encontrar maneiras de utilizar esses recursos sem romper a conexão com o universo artístico do convidado.
Cada arranjo procurava responder à mesma pergunta:
O que esta música pode se tornar quando encontra uma orquestra como a Brasil Jazz Sinfônica?
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Um Exemplo: Espumas ao Vento
Entre os diversos trabalhos que realizei para a orquestra, um dos arranjos que melhor representa essa abordagem foi minha versão de Espumas ao Vento para Mariana Aydar e Brasil Jazz Sinfônica.
A canção já possuía uma identidade muito forte.
O arranjo partiu dessa identidade e procurou expandir suas possibilidades por meio da escrita orquestral.
Ao longo da peça, diferentes grupos instrumentais assumem protagonismo em momentos distintos. Há mudanças de textura, contrastes de densidade, intervenções dos solistas da orquestra e novas combinações tímbricas que ampliam o material original.
Ao mesmo tempo, a voz artística de Mariana Aydar permanece no centro da narrativa musical.
Esse equilíbrio sempre esteve entre os aspectos mais interessantes do trabalho de arranjo para grandes formações.
Criar novos caminhos para uma obra sem perder aquilo que a tornou única.
O projeto possuía ainda um significado especial por estar ligado ao universo do forró, uma linguagem musical que faz parte da minha trajetória artística há muitos anos.
O Que Essa Experiência Representa na Minha Trajetória
Minha colaboração com a Brasil Jazz Sinfônica reúne vários elementos que continuam presentes no restante do meu trabalho como compositor, arranjador e diretor musical.
A escrita para grandes formações.
O diálogo entre diferentes linguagens musicais.
A colaboração com artistas convidados.
A criação de pontes entre repertórios populares e recursos orquestrais.
Ao longo desse período, tive a oportunidade de contribuir para dezenas de concertos e trabalhar com alguns dos artistas mais importantes da música brasileira contemporânea.
Cada projeto possuía suas próprias características.
O desafio permanecia o mesmo.
Criar um espaço de encontro entre a identidade do artista convidado e as possibilidades oferecidas pela orquestra.
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Sobre o Autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.


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