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O Trabalho do Arranjador e Compositor para a Brasil Jazz Sinfônica

Atualizado: 25 de jun.

O que acontece quando uma canção originalmente acompanhada por uma pequena banda passa a ser interpretada por uma orquestra jazz sinfônica com dezenas de músicos?


A resposta envolve muito mais do que ampliar a instrumentação. Cada projeto exige compreender profundamente o universo musical do artista convidado, decidir o que preservar da obra original e explorar novas possibilidades de desenvolvimento através da escrita orquestral.


Essas são algumas das questões que fazem parte do trabalho do arranjador.


Ao longo dos últimos anos, tive a oportunidade de me debruçar sobre esse processo ao escrever dezenas de arranjos para a Brasil Jazz Sinfônica ao lado de artistas como Ivan Lins, Mart’nália, Mônica Salmaso, Vanessa da Mata, Alceu Valença, Chico César, Mariana Aydar, Mestrinho, Martinho da Vila, Alcione, Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Céu, Tim Bernardes, Dora Morelenbaum, Paula Morelenbaum, Filó Machado e Renato Borghetti.


Embora esses artistas tenham repertórios, estéticas e trajetórias bastante diferentes, todos esses projetos colocavam o arranjo diante da mesma questão.


De um lado estava a identidade construída por cada convidado ao longo de sua trajetória.


Do outro, a sonoridade da Brasil Jazz Sinfônica, uma instituição que ocupa um espaço singular na música brasileira ao reunir elementos da tradição sinfônica, da música popular brasileira e do jazz em uma mesma formação.


Cada projeto exigia decisões sobre como aproximar esses universos, preservando aquilo que tornava cada artista reconhecível e, ao mesmo tempo, explorando as possibilidades oferecidas pela orquestra.


Montagem com duas imagens relacionadas à Brasil Jazz Sinfônica. À esquerda, selfie de Rafael Piccolotto de Lima com a cantora Mariana Aydar e o maestro Gustavo Petri após um ensaio. À direita, a Brasil Jazz Sinfônica durante uma sessão de leitura e ensaio no Teatro Franco Zampari, da TV Cultura, em São Paulo, com Mariana Aydar e Chico César no palco sob regência de Gustavo Petri.
Escrever para a Brasil Jazz Sinfônica significava trabalhar em estreita colaboração com artistas convidados e direção musical. À esquerda, Mariana Aydar, o maestro Gustavo Petri e eu após um ensaio. À direita, a orquestra durante uma leitura de arranjos no Teatro Franco Zampari, da TV Cultura, em São Paulo.


Como Minha Colaboração com a Brasil Jazz Sinfônica Começou


Minha relação com a orquestra começou antes das primeiras encomendas.


Um arranjo que escrevi para Ponta de Areia, de Milton Nascimento e Fernando Brant, recebeu reconhecimento em um concurso nacional de arranjo e passou a integrar o repertório da big band da Brasil Jazz Sinfônica.


Também participei de um concurso de composição promovido pela instituição. Embora minha obra não tenha sido a vencedora, ela foi selecionada para apresentações em concerto na Sala São Paulo e no Memorial da América Latina.


A seleção teve um significado especial pela afinidade entre os universos musicais explorados pela Brasil Jazz Sinfônica e muitos dos interesses que já faziam parte da minha trajetória artística.


Naquele período, eu já atuava como Composer Fellow do Henry Mancini Institute, em Miami, trabalhando com a orquestra jazz sinfônica da instituição. Ainda assim, existia uma curiosa inversão: minhas obras já eram apresentadas por grandes formações fora do Brasil e grandes artistas como Chick Corea e Terence Blanchard, mas eu ainda não havia desenvolvido uma relação com uma instituição brasileira dedicada justamente ao encontro entre música popular, jazz e escrita orquestral. Por isso, aquela aproximação com a Brasil Jazz Sinfônica pareceu uma consequência bastante natural dos caminhos que eu já vinha explorando como compositor e arranjador.


Essas experiências abriram caminho para as primeiras colaborações profissionais e para uma relação que se desenvolveria ao longo dos anos seguintes.




Músicos da Big Band da Brasil Jazz Sinfônica em apresentação no Teatro B32, em São Paulo, durante concerto dedicado à obra de Henry Mancini.
Big Band da Brasil Jazz Sinfônica em concerto realizado no Teatro B32, em São Paulo. A apresentação incluiu um arranjo que escrevi para um tributo à música de Henry Mancini, uma das diversas colaborações que desenvolvi com a instituição ao longo dos anos.

Uma Nova Fase de Concertos com Artistas Convidados


Uma parte importante dessa colaboração se desenvolveu durante o período de retomada das atividades presenciais após a pandemia.


Naquele momento, a Brasil Jazz Sinfônica apresentou uma série que promovia encontros entre artistas convidados da música popular brasileira e a orquestra. Reunindo intérpretes de diferentes gerações, estilos e trajetórias, esses concertos criavam diálogos inéditos entre artistas que compartilhavam afinidades musicais ou pontos de contato em seus repertórios.


Cada projeto exigia a criação de novos arranjos. Composições originalmente concebidas para voz e banda precisavam ser adaptadas para a formação da orquestra.


Foi nesse contexto que começaram a surgir com maior frequência os convites para escrever arranjos para a orquestra. Entre os primeiros projetos estavam os concertos com Ivan Lins e Mart’nália, realizados na Sala São Paulo e transmitidos pela TV Cultura.



Era um momento bastante particular. As formações ainda eram reduzidas, os concertos utilizavam apenas as cordas e sessão rítmica da orquestra, os músicos tocavam de máscara e o público presente era limitado. Mesmo assim, a música continuava chegando às pessoas por meio das gravações e transmissões da TV Cultura realizadas naquele período.


Ao longo dos anos seguintes, essa colaboração se expandiria para dezenas de concertos com artistas convidados de diferentes universos musicais. Muitos desses projetos fizeram parte da Série Encontros Históricos, com curadoria de Glauber Amaral e co-produção da Barravento Artes. A série acabou concentrando uma parte importante do meu trabalho de arranjador para a Brasil Jazz Sinfônica.


Como Nasce um Arranjo para a Brasil Jazz Sinfônica


O processo normalmente começava com uma mensagem do maestro ou diretor musical responsável pelo projeto.


Ao longo dos anos, grande parte dessas colaborações surgiu a partir de convites feitos pelos maestros João Maurício Galindo, Gustavo Petri e Ruriá Duprat, responsáveis, em diferentes momentos, pela direção artística, direção musical e regência da orquestra.


Após a confirmação de disponibilidade, eu recebia a gravação de referência da obra, a instrumentação do concerto e algumas orientações gerais. Às vezes havia também um lead sheet (melodia cifrada), o que facilitava o processo.


Na maioria das vezes, a estrutura principal da canção permanecia próxima da gravação original.


A parte cantada normalmente era preservada, enquanto a principal liberdade criativa estava na construção do arranjo ao seu redor. Introduções, finais, seções instrumentais, transições e outros elementos de desenvolvimento podiam ser criados ou expandidos para explorar as possibilidades oferecidas pela orquestra.


Como os artistas convidados já possuíam uma relação consolidada com esse repertório, suas interpretações tendiam a permanecer próximas das versões que já apresentavam em shows e gravações, concentrando a maior parte da reinvenção musical na escrita para a orquestra.


O trabalho seguia então para uma etapa de escuta e análise.


Frequentemente era necessário realizar transcrições da melodia, da harmonia e de outros elementos musicais da gravação original, já que muitos artistas não possuíam partituras de seu repertório.


Com esse material organizado, começava a fase de criação. Era o momento de experimentar possibilidades, desenvolver ideias, testar caminhos para a forma do arranjo e explorar diferentes maneiras de expandir o material original por meio da escrita orquestral.


Depois que essas ideias começavam a tomar forma, iniciava-se o trabalho de escrita propriamente dito. A partir daí, todo o material precisava ser desenvolvido e orquestrado.


A etapa final consistia na preparação de uma realização digital simples de referência, gerada diretamente pelo programa de edição de partituras, além da grade orquestral completa e de todas as partes individuais dos músicos. Isso significava revisar e editar manualmente mais de uma centena de páginas de partitura antes da entrega final do material para o arquivo da orquestra.


Entrar no Mundo do Artista


Montagem com três imagens relacionadas à Brasil Jazz Sinfônica. Ao centro, Rafael Piccolotto de Lima e Mariana Aydar após um ensaio. À direita, a orquestra durante passagem de som na Sala São Paulo. À esquerda, caixa de transporte de equipamentos com o logotipo da Brasil Jazz Sinfônica.
Bastidores de um dos projetos da Brasil Jazz Sinfônica com Mariana Aydar. Ao centro, após um ensaio com a cantora. À direita, passagem de som na Sala São Paulo. À esquerda, o logo da orquestra e TV Cultura no equipamento utilizado pela orquestra durante as produções e apresentações.

Cada artista convidado trazia consigo uma linguagem própria.


O universo musical de Martinho da Vila, profundamente ligado ao samba e à canção popular brasileira, apresenta desafios bastante diferentes daqueles encontrados em um projeto com Filó Machado, cuja música instrumental frequentemente explora caminhos harmônicos menos previsíveis e uma relação distinta com a improvisação.


Da mesma forma, artistas como Mônica Salmaso e Liniker possuem sonoridades, repertórios e abordagens vocais muito particulares. Cada projeto exigia compreender essas características antes mesmo das primeiras decisões de escrita. Essa diversidade fazia parte da riqueza desses concertos e também de um dos aspectos mais desafiadores do trabalho do arranjador.


O trabalho consistia em compreender profundamente a lógica musical presente em cada repertório antes de tomar qualquer decisão de escrita. A intenção nunca era substituir a identidade da obra original. O objetivo era criar um contexto orquestral capaz de dialogar com ela.


Trazer o Artista para o Universo da Orquestra


Ao mesmo tempo, esses concertos também precisavam explorar aquilo que a Brasil Jazz Sinfônica tinha de mais característico.


A presença de uma grande formação orquestral abre possibilidades que simplesmente não existem em grupos menores, permitindo trabalhar com combinações tímbricas mais amplas, alternar protagonismo entre diferentes naipes, criar camadas simultâneas de escrita e desenvolver a música em escalas raramente possíveis em formações menores.


Parte importante do trabalho consistia em encontrar maneiras de utilizar esses recursos sem romper a conexão com o universo artístico do convidado.


Cada arranjo procurava responder à mesma pergunta: o que esta música pode se tornar quando encontra uma orquestra como a Brasil Jazz Sinfônica?


Brasil Jazz Sinfônica durante ensaio no Teatro Franco Zampari, da TV Cultura, em São Paulo. O maestro Gustavo Petri rege a orquestra enquanto o cantor Chico César acompanha o trabalho no palco.
Ensaio da Brasil Jazz Sinfônica com o cantor Chico César e o maestro Gustavo Petri no Teatro Franco Zampari em São Paulo - 2023.


Um Exemplo: Espumas ao Vento


Entre os diversos trabalhos que realizei para a orquestra, um dos arranjos que melhor representa essa abordagem foi minha versão de Espumas ao Vento para Mariana Aydar e a orquestra.


A canção já possuía uma identidade forte na versão gravada por Mariana Aydar. O arranjo partiu dessa identidade e procurou expandir suas possibilidades por meio da escrita orquestral.



Ao longo da peça, diferentes grupos instrumentais assumem protagonismo em momentos distintos. Há mudanças de textura, contrastes de densidade, intervenções dos solistas da orquestra e novas combinações tímbricas que ampliam o material original.


Ao mesmo tempo, a voz artística de Mariana Aydar permanece no centro da narrativa musical.


Esse equilíbrio sempre esteve entre os aspectos mais interessantes do trabalho de arranjo para grandes formações.


O projeto possuía ainda um significado especial por aproximar meu trabalho de escrita orquestral de uma linguagem musical com a qual mantenho uma relação artística há muitos anos: o forró.



Entre Arranjo e Composição


Embora grande parte da minha colaboração com a Brasil Jazz Sinfônica tenha acontecido por meio de arranjos para artistas convidados, alguns projetos ocuparam um território diferente, situado entre o arranjo e a composição.


Um dos exemplos mais significativos surgiu a partir de uma encomenda criada para destacar o trompetista Sidmar Vieira como solista da orquestra.


A proposta nasceu do desejo da Brasil Jazz Sinfônica de criar, dentro desses concertos com artistas convidados, um espaço de protagonismo para a própria orquestra e para alguns de seus músicos. Sidmar Vieira, um dos principais solistas e improvisadores da formação e alguém com quem eu já havia colaborado em diversos projetos ao longo dos anos, incluindo trabalhos ligados à Orquestra Urbana, foi escolhido para ocupar esse papel.


Foi a partir dessa encomenda que surgiu a ideia de revisitar Rasga Coração, do Choros No. 10, de Heitor Villa-Lobos. A escolha da obra partiu de uma decisão minha e estava diretamente ligada à influência que Villa-Lobos exerce sobre a maneira como penso a relação entre escrita orquestral e identidade musical brasileira.


O projeto partiu da obra original, mas envolveu a criação de novas seções, a expansão de sua estrutura formal, a re-orquestração do material existente e o desenvolvimento de uma linguagem pensada especificamente para o universo da Brasil Jazz Sinfônica.


Mais do que uma adaptação, tratava-se de re-imaginar a obra dentro de um novo contexto sonoro, preservando elementos centrais da escrita de Villa-Lobos enquanto explorava possibilidades associadas à combinação entre orquestra sinfônica, a linguagem da música popular brasileira e o universo do jazz.



Diferentemente da maior parte dos arranjos escritos para artistas convidados, esse projeto oferecia um grau muito maior de liberdade criativa.


Em muitos dos concertos da Brasil Jazz Sinfônica, o ponto de partida era uma canção que já possuía uma versão consolidada pelo próprio artista convidado. O trabalho consistia em construir uma nova dimensão orquestral ao redor daquela interpretação, preservando elementos centrais da forma como o repertório já era apresentado em shows e gravações.


Nesse caso, porém, a proposta era diferente. Além do protagonismo de Sidmar Vieira como solista, não existiam diretrizes específicas sobre o que a peça deveria ser. Isso me deu liberdade para escolher o material de partida, definir os caminhos formais da obra e tomar decisões artísticas sem a necessidade de me manter próximo de uma versão previamente estabelecida.


Isso permitiu expandir seções, criar novos materiais, desenvolver passagens inéditas e explorar caminhos que se aproximavam mais diretamente do processo composicional. Em vez de apenas construir um novo entorno orquestral para um material existente, o trabalho envolvia tomar decisões que refletiam de forma mais explícita a minha própria voz como compositor.


O Que Essa Experiência Representa na Minha Trajetória


Ao longo dos anos, a Brasil Jazz Sinfônica acabou se tornando um dos principais espaços onde pude explorar questões que continuam presentes em grande parte do meu trabalho: a escrita para grandes formações e o diálogo entre diferentes linguagens musicais.


Cada projeto partia de um repertório, de um artista e de um conjunto de circunstâncias diferentes. Ainda assim, todos compartilhavam a mesma pergunta: o que uma música pode se tornar quando encontra uma orquestra como a Brasil Jazz Sinfônica?



Mais Arranjos para a Brasil Jazz Sinfônica


Abaixo estão algumas dessas performances, registradas em concertos da orquestra e transmitidas pela TV Cultura.


Deus Me Proteja

Chico César, Mestrinho e Brasil Jazz Sinfônica


Arranjo escrito para concerto da Brasil Jazz Sinfônica com Chico César e Mestrinho. O projeto aproximava a sonoridade da orquestra do universo do forró e da música nordestina.



Só Você e Eu

Vanessa da Mata, Céu e Brasil Jazz Sinfônica



Minha Voz, Minha Vida

Dora Morelenbaum, Tim Bernardes e Brasil Jazz Sinfônica


Arranjo escrito para um concerto em homenagem a Gal Costa, interpretado por Dora Morelenbaum e Tim Bernardes ao lado da Brasil Jazz Sinfônica. O projeto celebrava o repertório associado à trajetória de Gal Costa através de uma nova leitura construída para a formação orquestral.



Flor de Maracujá

Paula Morelenbaum e Brasil Jazz Sinfônica


Arranjo desenvolvido para um concerto em homenagem a João Donato, reunindo Paula Morelenbaum e a Brasil Jazz Sinfônica.



Barra do Ribeira

Renato Borghetti, Daniel Sá e Brasil Jazz Sinfônica


Arranjo escrito para concerto da Brasil Jazz Sinfônica com Renato Borghetti e Daniel Sá. O projeto reuniu elementos da música instrumental brasileira com foco na tradição gaúcha.



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Sobre o Autor


Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.




Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador

 
 
 

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