Nos Bastidores de Jazz and the Philharmonic: Escrevendo para Chick Corea, Terence Blanchard e Eric Owens
- Rafael Piccolotto de Lima

- 7 de jun.
- 8 min de leitura
Atualizado: 11 de jul.
Em 2013 recebi uma das oportunidades mais importantes do meu período na University of Miami. Fui convidado para escrever um dos arranjos centrais de Jazz and the Philharmonic, concerto que reuniria artistas como Chick Corea, Terence Blanchard, Bobby McFerrin, Dave Grusin, Eric Owens, Mark O’Connor e outros convidados em uma produção concebida por Larry Rosen. Na época eu atuava como Composer Fellow do Henry Mancini Institute, programa ligado à Frost School of Music, e foi através dessa posição que surgiu o convite.
Até então, muitos daqueles músicos eram nomes centrais dentro do universo musical que eu acompanhava. Eu ouvia suas gravações e acompanhava seus trabalhos havia anos. Agora eu escreveria uma obra que seria interpretada por alguns deles. Entre os muitos projetos dos quais participei naquele período, Jazz and the Philharmonic foi um dos mais marcantes.

O que era Jazz and the Philharmonic
Concebido pelo produtor Larry Rosen, Jazz and the Philharmonic reunia artistas ligados ao jazz e à música de concerto em um mesmo projeto. O concerto foi apresentado em janeiro de 2013 no Adrienne Arsht Center, em Miami, uma das principais salas de concerto do sul da Flórida. O elenco incluía Chick Corea, Terence Blanchard, Bobby McFerrin, Dave Grusin, Mark O’Connor, Eric Owens, Desmond Richardson, Shelly Berg e outros artistas convidados.
A apresentação foi filmada, posteriormente lançada em CD e DVD e transformada em um especial exibido nacionalmente pela PBS. Mais do que um concerto, Jazz and the Philharmonic funcionou como um espaço de encontro entre diferentes tradições musicais. Jazz, música de concerto, improvisação, composição orquestral e performance conviviam dentro do mesmo projeto, criando exatamente o tipo de diálogo artístico que o Henry Mancini Institute procurava estimular.

Além da dimensão da oportunidade, o projeto trazia um desafio artístico particularmente interessante: criar uma obra capaz de conectar algumas das tradições musicais que mais me interessavam dentro de uma produção daquela escala.
Um projeto que dialogava diretamente com minha pesquisa
Havia outro aspecto que tornava aquele projeto particularmente significativo para mim. Na época, minha pesquisa de doutorado investigava justamente os espaços de encontro entre o jazz e a música de concerto. Grande parte do meu trabalho acadêmico era dedicada a entender como essas tradições se aproximavam, quais desafios surgiam desse encontro e quais possibilidades musicais apareciam quando compositores, arranjadores e intérpretes transitavam entre esses universos.
→ Leia mais: Blurred Distinctions: O Que Minha Pesquisa de Doutorado Me Ensinou Sobre Jazz, Música de Concerto e Linguagens Híbridas
Jazz and the Philharmonic era construído exatamente sobre essa premissa. O programa reunia músicos oriundos dessas diferentes tradições e criava situações em que elas precisavam coexistir dentro do mesmo projeto. Aquilo que eu estudava, analisava e discutia academicamente aparecia agora diante de mim em escala real, envolvendo alguns dos principais artistas daquela geração.

A criação da suíte
A obra que me foi atribuída tinha como ponto de partida Spain, uma das composições mais conhecidas de Chick Corea. Em suas apresentações, Chick frequentemente utilizava o Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo, como introdução para a peça. A partir dessa relação já existente entre as duas obras, comecei a desenvolver uma estrutura mais ampla.
O resultado foi uma suíte de aproximadamente dezesseis minutos. O Concerto de Aranjuez passou a ocupar um papel central na narrativa musical e ganhou nova dimensão através da participação de Eric Owens. A partir dali, a música transitava para uma nova seção inspirada em Sketches of Spain e na escrita de Gil Evans. Somente depois surgia Spain propriamente dita.
Na parte final, introduzi elementos associados ao samba e à música brasileira, além de uma seção criada especialmente para a participação do coreógrafo e dançarino Desmond Richardson. A obra terminava em uma série de diálogos e cadências entre Chick Corea, Terence Blanchard e a orquestra.

Escrevendo para músicos que também eram criadores
Uma das principais preocupações durante a escrita da Spanish Suite era criar uma obra capaz de reunir aqueles artistas no mesmo palco e, ao mesmo tempo, aproveitar aquilo que cada um deles tinha de mais característico como músico.
Desde as primeiras conversas com Larry Rosen e com a equipe do Henry Mancini Institute, ficou claro que a improvisação deveria ocupar um papel central. Antes mesmo do início da suíte, deixamos um espaço completamente aberto para que Chick Corea criasse livremente uma introdução ao piano. Em vez de definir cada detalhe da abertura, a própria obra começava convidando um dos maiores improvisadores do jazz a fazer aquilo que sabia fazer melhor.
Ao longo da suíte, procurei construir uma narrativa em que cada um dos três solistas ocupasse um papel diferente. No trecho baseado no Concerto de Aranjuez, Eric Owens assumia o protagonismo em um momento mais próximo da música de concerto. Quando a obra se aproximava do universo de Sketches of Spain, Terence Blanchard passava a conduzir a narrativa, apresentando o tema e desenvolvendo sua improvisação. Somente depois surgia Spain, quando Chick Corea assumia naturalmente o centro da performance.
Essa estrutura evitava uma solução bastante comum no jazz, em que vários músicos improvisam sucessivamente sobre a mesma sequência harmônica. Em vez disso, cada improvisação fazia parte do desenvolvimento da própria obra. Cada solista recebia um contexto musical diferente, pensado para valorizar sua identidade artística e seu papel dentro da narrativa.
Na conclusão da suíte, esses personagens voltavam a se encontrar em uma sequência de cadências e diálogos entre os solistas e a orquestra antes do encerramento da peça.
Havia ainda outro aspecto que tornava aquele trabalho especialmente desafiador. Spain já era uma das composições mais conhecidas de Chick Corea, e o próprio Chick seria o pianista da estreia. Em vários momentos, optei por caminhos bastante diferentes da versão original, reorganizando a estrutura da obra e propondo novas conexões com o Concerto de Aranjuez, Sketches of Spain e elementos da música brasileira. Era uma abordagem ousada para uma composição tão conhecida, principalmente sabendo que seu próprio compositor estaria no palco como solista.
Uma das lembranças mais marcantes desse processo foi perceber a abertura com que Chick Corea recebeu essas ideias. Em vez de esperar uma reprodução fiel da obra original, acolheu a proposta do arranjo e contribuiu para que ela ganhasse vida através de sua própria interpretação. Aquilo dizia muito sobre sua maneira de fazer música.

Larry Rosen, o produtor
Antes que qualquer nota fosse executada, houve um processo de desenvolvimento e direção artística. Participei de reuniões com Larry Rosen para discutir caminhos possíveis para o arranjo e para a narrativa musical do projeto. Depois dessas conversas, produzi um mockup - uma simulação digital da obra - que foi enviado para avaliação.
Larry Rosen aprovou o arranjo. Chick Corea também. A partir daquele momento, o arranjo deixava de ser apenas uma ideia no papel e passava a fazer parte oficialmente do concerto.
Com o tempo, passei a compreender melhor a dimensão do papel que Larry Rosen desempenhava naquele processo. Ele concebia o projeto como um todo, articulando artistas, instituições, parceiros, repertório e recursos em torno de uma mesma proposta artística.
Acompanhar esse processo ampliou minha compreensão sobre tudo o que antecede um concerto. Além da criação musical, havia decisões de produção, articulações institucionais, construção de parcerias e um trabalho de curadoria que sustentava toda a realização do projeto.
O primeiro ensaio
Entre as lembranças mais marcantes daquele projeto está o primeiro ensaio. Lembro da chegada dos músicos, de Chick Corea entrando na sala, de Terence Blanchard chegando para o ensaio e da expectativa que antecedia a primeira leitura. O primeiro ensaio é sempre um momento especial para qualquer arranjador. É quando a música deixa de existir apenas na partitura e passa a ser construída coletivamente pelos músicos.

Agora eu podia acompanhar de perto como aqueles músicos liam uma obra nova, interagiam com a orquestra e transformavam as partituras em música.
Era uma oportunidade rara, e eu tinha consciência disso. Em um dos ensaios, lembro de pensar comigo mesmo que precisava parar de me preocupar apenas com o trabalho e aproveitar aquela experiência.

O concerto
O concerto aconteceu no Knight Concert Hall do Adrienne Arsht Center. Além dos músicos e da equipe artística, havia uma grande estrutura de gravação e filmagem.

Durante a apresentação, acompanhei parte do trabalho técnico ao lado da equipe de áudio, utilizando a partitura completa como referência para auxiliar decisões relacionadas à captação e ao equilíbrio da performance. Ali também pude observar como aspectos musicais e técnicos funcionavam juntos dentro de uma produção daquela escala.

Depois do concerto
O projeto continuou muito depois da última nota. Uma das consequências mais marcantes daquela experiência foi a relação profissional que desenvolvi com Larry Rosen.
Nos meses seguintes, participei diretamente do processo de pós-produção do álbum. Além de acompanhar as sessões de mixagem, contribuí ativamente com comentários e decisões relacionadas ao som da orquestra, ao equilíbrio entre os instrumentos e à apresentação final do material gravado. Meu trabalho como arranjador, minha experiência com gravação e minha formação em Studio Jazz Writing permitiam que eu contribuísse não apenas na escrita da música, mas também na construção de sua sonoridade final.
Essas sessões me permitiram acompanhar de perto como um produtor do calibre de Larry Rosen pensava e tomava decisões.
Nos anos seguintes, continuamos nos encontrando em outros projetos da série Jazz Roots. Em uma dessas ocasiões, durante um evento dedicado à música brasileira, fui convidado para um jantar em sua casa. Ao me apresentar para outros convidados, Larry me identificou como o arranjador que havia escrito o arranjo para Chick Corea em Jazz and the Philharmonic.
Mais de uma década depois, ainda associo Jazz and the Philharmonic à experiência de acompanhar um projeto dessa dimensão desde as primeiras conversas até a pós-produção do álbum.
Contexto do projeto
Ano: 2013
Projeto: Jazz and the Philharmonic
Concebido por: Larry Rosen
Instituições envolvidas: Henry Mancini Institute, Frost School of Music, Jazz Roots, YoungArts Foundation, Adrienne Arsht Center
Local: Adrienne Arsht Center for the Performing Arts, Miami
Artistas convidados: Chick Corea, Terence Blanchard, Bobby McFerrin, Dave Grusin, Mark O’Connor, Eric Owens, Desmond Richardson, Shelly Berg e outros
Papel de Rafael Piccolotto de Lima: Composer Fellow do Henry Mancini Institute e arranjador
Obra: Spanish Suite - suíte baseada em Spain e Concerto de Aranjuez
Lançamentos posteriores: álbum, DVD e especial nacional da PBS
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→ Escrevendo Música Brasileira para Orquestra: Entre a Música Popular, o Jazz e a Música de Concerto
Sobre o Autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.





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