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Nos Bastidores de Jazz and the Philharmonic: Escrevendo para Chick Corea, Terence Blanchard e Eric Owens

Em 2013 recebi uma das oportunidades mais importantes do meu período na Universidade de Miami.


Fui convidado para escrever um dos arranjos centrais de Jazz and the Philharmonic, concerto que reuniria artistas como Chick Corea, Terence Blanchard, Bobby McFerrin, Dave Grusin, Eric Owens, Mark O’Connor e outros convidados em uma produção concebida por Larry Rosen.


Na época eu atuava como Composer Fellow do Henry Mancini Institute, programa ligado à Frost School of Music. Foi através dessa posição que surgiu o convite.


Até então, muitos daqueles músicos faziam parte do repertório, das gravações e das partituras que eu estudava.


Agora eu escreveria uma obra que seria apresentada por alguns deles.


Entre os muitos projetos dos quais participei naquele período, Jazz and the Philharmonic foi um dos mais marcantes.


O que era Jazz and the Philharmonic


Concebido pelo produtor Larry Rosen, Jazz and the Philharmonic reunia artistas ligados ao jazz e à música de concerto em um mesmo projeto.


O concerto foi apresentado em janeiro de 2013 no Adrienne Arsht Center, em Miami, uma das principais salas de concerto do sul da Flórida.


O elenco incluía Chick Corea, Terence Blanchard, Bobby McFerrin, Dave Grusin, Mark O’Connor, Eric Owens, Elizabeth Joy Roe, Desmond Richardson, Shelly Berg e outros artistas convidados.


A apresentação foi filmada, posteriormente lançada em CD e DVD e transformada em um especial exibido nacionalmente pela PBS.


Mais do que um concerto, Jazz and the Philharmonic funcionou como um espaço de encontro entre diferentes tradições musicais. Jazz, música de concerto, improvisação, composição orquestral e performance conviviam dentro do mesmo projeto, criando exatamente o tipo de diálogo artístico que o Henry Mancini Institute procurava estimular.


Além da dimensão da oportunidade, o projeto trazia um desafio artístico particularmente interessante: criar uma obra capaz de conectar algumas das tradições musicais que mais me interessavam dentro de uma produção daquela escala.


Um projeto que dialogava diretamente com minha pesquisa


Havia outro aspecto que tornava aquele projeto particularmente significativo para mim.


Na época, minha pesquisa de doutorado investigava justamente os espaços de encontro entre o jazz e a música de concerto.


Grande parte do meu trabalho acadêmico era dedicada a entender como essas tradições se aproximavam, quais desafios surgiam desse encontro e quais possibilidades musicais apareciam quando compositores, arranjadores e intérpretes transitavam entre esses universos.


Jazz and the Philharmonic era construído exatamente sobre essa premissa.


O programa reunia músicos oriundos dessas diferentes tradições e criava situações em que elas precisavam coexistir dentro do mesmo projeto.


Aquilo que eu estudava, analisava e discutia academicamente aparecia agora diante de mim em escala real, envolvendo alguns dos principais artistas daquela geração.


Pela primeira vez, eu não estava observando esse fenômeno à distância.


Estava participando dele.


A criação da suíte


A obra que me foi atribuída tinha como ponto de partida Spain, uma das composições mais conhecidas de Chick Corea.


Em suas apresentações, Chick frequentemente utilizava o Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo, como introdução para a peça. A partir dessa relação já existente entre as duas obras, comecei a desenvolver uma estrutura mais ampla.


O resultado foi uma suíte de aproximadamente dezesseis minutos.


O Concerto de Aranjuez passou a ocupar um papel central na narrativa musical e ganhou nova dimensão através da participação de Eric Owens.


A partir dali, a música transitava para uma nova seção inspirada em Sketches of Spain e na escrita de Gil Evans. Somente depois surgia Spain propriamente dita.


Na parte final, introduzi elementos associados ao samba e à música brasileira, além de uma seção criada especialmente para a participação do coreógrafo e dançarino Desmond Richardson.


A obra terminava em uma série de diálogos e cadências entre Chick Corea, Terence Blanchard e a orquestra.


No total, mais de dezesseis minutos de música.


A própria estrutura da suíte dialogava diretamente com questões que eu investigava na pesquisa de doutorado: como criar continuidade entre tradições musicais diferentes, como permitir que linguagens distintas dialoguem sem perder suas características próprias e como construir unidade sem apagar diferenças.


Essas questões estavam presentes tanto na pesquisa quanto nas decisões musicais que moldaram o arranjo.


Larry Rosen


Antes que qualquer nota fosse executada, houve um longo processo de desenvolvimento.


Participei de reuniões com Larry Rosen para discutir caminhos possíveis para o arranjo e para a narrativa musical do projeto.


Depois dessas conversas, produzi um mockup digital da obra.


O material foi enviado para avaliação.


Larry Rosen aprovou o trabalho. Chick Corea também.


A partir daquele momento, o arranjo deixava de ser apenas uma ideia no papel e passava a fazer parte oficialmente do concerto.


Com o tempo, passei a compreender melhor a dimensão do papel que Larry Rosen desempenhava naquele processo.


Mais do que produtor, ele possuía uma capacidade incomum de construir contextos.


Jazz and the Philharmonic não existia apenas porque Chick Corea, Terence Blanchard ou Bobby McFerrin estavam disponíveis.


O projeto existia porque alguém havia imaginado aquele encontro, articulado instituições, reunido recursos, criado uma narrativa artística e convencido todas aquelas pessoas a embarcar na mesma ideia.


Acompanhar esse processo revelou uma dimensão do trabalho artístico que raramente aparece para o público. Além dos músicos, existiam decisões de produção, articulações institucionais, construção de parcerias e um trabalho de curadoria fundamental para que um projeto daquela escala acontecesse.


O primeiro ensaio


Entre todas as lembranças daquele projeto, a mais viva continua sendo o primeiro ensaio.


O primeiro ensaio é um momento particular para qualquer arranjador. É quando a música deixa de existir apenas na partitura e passa a ser construída coletivamente pelos músicos.


Lembro da chegada dos músicos.


Lembro de Chick Corea entrando na sala.


Lembro de Terence Blanchard chegando para o ensaio.


Lembro da expectativa.


Mas lembro principalmente da consciência de estar assistindo algo que, até poucos anos antes, existia apenas nos discos, partituras e gravações que eu estudava.


Os músicos que estavam naquela sala eram pessoas cuja obra eu havia passado anos analisando.


Agora eu podia observar como ensaiavam, como tomavam decisões musicais, como reagiam às ideias uns dos outros e como construíam uma performance coletivamente.


Era uma oportunidade rara.


E eu sabia disso.


O concerto


O concerto aconteceu no Knight Concert Hall do Adrienne Arsht Center.


Além dos músicos e da equipe artística, havia uma grande estrutura de gravação e filmagem.


Durante a apresentação, acompanhei parte do trabalho técnico ao lado da equipe de áudio, utilizando a partitura completa como referência para auxiliar decisões relacionadas à captação e ao equilíbrio da performance.


Foi uma oportunidade valiosa para observar como aspectos musicais e técnicos precisavam funcionar juntos dentro de uma produção daquela escala.


Naquele momento eu sabia que o concerto estava sendo registrado.


Não sabia ainda que ele se transformaria em um lançamento internacional e em um especial de televisão exibido nacionalmente.


Depois do concerto


O projeto continuou muito depois da última nota.


Uma das consequências mais marcantes daquela experiência foi a relação profissional que desenvolvi com Larry Rosen.


Nos meses seguintes, participei diretamente do processo de pós-produção do álbum.


Não apenas acompanhando as sessões de mixagem, mas contribuindo ativamente com comentários e decisões relacionadas ao som da orquestra, equilíbrio entre os instrumentos e apresentação final do material gravado.


Meu trabalho como arranjador, minha experiência com gravação e minha formação em Studio Jazz Writing permitiam que eu contribuísse não apenas na escrita da música, mas também na construção de sua sonoridade final.


Essas sessões representaram uma oportunidade rara de acompanhar de perto como um produtor do calibre de Larry Rosen pensava e tomava decisões.


Nos anos seguintes, continuamos nos encontrando em outros projetos da série Jazz Roots.


Em uma dessas ocasiões, durante um evento dedicado à música brasileira, fui convidado para um jantar em sua casa. Ao me apresentar para outros convidados, Larry me identificou como o arranjador que havia escrito o arranjo para Chick Corea em Jazz and the Philharmonic.


Mais de uma década depois, Jazz and the Philharmonic continua sendo uma das experiências mais marcantes daquele período.


O projeto me permitiu acompanhar uma obra desde suas primeiras conversas e aprovações até os ensaios, a apresentação ao vivo, a gravação e a pós-produção.


Também reuniu, dentro de uma mesma produção, muitas das questões que eu investigava como compositor e pesquisador: o diálogo entre jazz e música de concerto, a colaboração entre artistas de diferentes formações e a construção de projetos que dependem simultaneamente de criação artística, produção e realização coletiva.


Contexto do projeto


Ano: 2013


Projeto: Jazz and the Philharmonic


Concebido por: Larry Rosen


Instituições envolvidas: Henry Mancini Institute, Frost School of Music, Jazz Roots, YoungArts Foundation, Adrienne Arsht Center


Local: Adrienne Arsht Center for the Performing Arts, Miami


Artistas convidados: Chick Corea, Terence Blanchard, Bobby McFerrin, Dave Grusin, Mark O’Connor, Eric Owens, Desmond Richardson, Shelly Berg e outros


Papel de Rafael Piccolotto de Lima: Composer Fellow do Henry Mancini Institute e arranjador


Obra: Spanish Suite - suíte baseada em Spain e Concerto de Aranjuez


Lançamentos posteriores: álbum, DVD e especial nacional da PBS

 
 
 

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