Como Funciona a Linguagem da Big Band Brasileira? Lições dos Arranjos de Proveta e da Banda Mantiqueira
- Rafael Piccolotto de Lima

- 7 de jun.
- 7 min de leitura
Atualizado: há 1 dia
Existe uma linguagem brasileira para big band?
Essa foi a pergunta que motivou uma pesquisa de iniciação científica que desenvolvi entre 2009 e 2010 na UNICAMP, com apoio da FAPESP e orientação do professor doutor Rafael dos Santos.
Naquele momento, eu já escrevia para grandes formações e participava ativamente do Coletivo Orquestral da UNICAMP dirigido pelo professor Mario Campos. Também acompanhava com interesse o trabalho de grupos como a Banda Mantiqueira, que me fascinavam pela forma como utilizavam uma formação inspirada nas jazz orchestras para interpretar música brasileira.
Meu objetivo não era definir uma linguagem universal da big band brasileira.
Isso seria impossível.
A tradição brasileira de escrita para grandes conjuntos é ampla e diversa. Ela inclui orquestras de baile, conjuntos de rádio, gafieiras, bandas de frevo, trabalhos de compositores como Moacir Santos, Nelson Ayres, Maestro Branco e muitos outros músicos que desenvolveram abordagens bastante distintas.
O que me interessava era compreender um caso específico.
Mais precisamente, a linguagem desenvolvida por Nailor Azevedo, o Proveta, e pela Banda Mantiqueira.
Por Que Estudar Proveta?
Para qualquer estudante interessado em arranjo e grandes formações no Brasil, Proveta era uma referência inevitável.
Sua atuação como saxofonista, clarinetista, compositor e arranjador já ocupava um lugar central dentro da música instrumental brasileira.
Além disso, a Banda Mantiqueira havia se consolidado como uma das experiências mais bem-sucedidas de adaptação da ideia de big band à realidade musical brasileira.
A sonoridade do grupo era imediatamente reconhecível.
Havia influências claras das jazz orchestras norte-americanas.
Mas havia também elementos vindos do samba, do choro, do frevo, das bandas de música do interior e de diversas tradições ligadas à música popular brasileira.
O grupo parecia apontar para uma questão que me interessava profundamente:
Como uma formação inspirada nas big bands pode desenvolver uma identidade musical própria sem simplesmente reproduzir modelos importados?
Outro aspecto importante era a possibilidade de acesso direto à fonte.
Diferentemente de muitos compositores estudados em ambiente acadêmico, Proveta estava em plena atividade profissional e poderia participar diretamente da pesquisa.
O Desafio de Encontrar o Material
Hoje é relativamente simples localizar partituras, gravações e entrevistas.
Na época, a realidade era bastante diferente.
Grande parte do material não estava disponível online.
O primeiro desafio foi conseguir contato com o próprio Proveta.
Foram necessárias diversas tentativas até que finalmente conseguimos conversar por telefone.
Expliquei o projeto, os objetivos da pesquisa e o interesse em analisar seus arranjos para a Banda Mantiqueira.
A conversa abriu caminho para um primeiro encontro durante uma apresentação da banda em São Paulo.
Foi ali que surgiu uma das descobertas mais importantes de toda a pesquisa.
Quando Descobri Que As Grades Não Existiam
Minha expectativa era simples.
Como acontece com a maioria dos compositores e arranjadores, eu imaginava que encontraria grades completas dos arranjos.
A grade orquestral é a partitura que reúne simultaneamente todos os instrumentos do grupo.
É nela que normalmente observamos a distribuição das vozes, a construção dos voicings, os contrapontos entre os naipes e a organização geral da escrita.
Mas Proveta me explicou que não trabalhava dessa forma.
Os materiais existentes eram as partes individuais utilizadas pelos músicos.
Os arranjos haviam sido escritos diretamente nas partes.
Na época, aquilo me chamou muita atenção.
Grande parte dos métodos tradicionais de arranjo ensina a construção da música a partir de uma visualização vertical da harmonia e da organização simultânea dos instrumentos dentro da grade.
A escrita de Proveta parecia partir de outro lugar.
As linhas melódicas ocupavam papel central.
Cada instrumento recebia uma função específica.
A harmonia surgia da interação entre essas linhas.
Hoje vejo essa abordagem como fortemente ligada ao pensamento contrapontístico e linear.
Na época, ela representava uma maneira bastante diferente de pensar a construção de um arranjo.
Os Manuscritos da Banda Mantiqueira
A descoberta criou um problema prático.
Como analisar os arranjos se as grades não existiam?
Pouco tempo depois surgiu uma oportunidade inesperada.
A Banda Mantiqueira realizaria uma apresentação em São Paulo e consegui autorização para fotografar os manuscritos utilizados pelos músicos.
Era uma época anterior aos smartphones.
Levei uma câmera digital Sony Cybershot e, entre a passagem de som e o início do concerto, fotografei página por página dos arranjos que fariam parte da pesquisa.
A experiência foi marcante.
Muitas das partituras apresentavam sinais evidentes de uso profissional.
Dobras, marcas de desgaste, anotações e páginas que haviam sido abertas e fechadas inúmeras vezes ao longo dos anos.
Não eram documentos preparados para arquivo.
Eram ferramentas de trabalho.
Material vivo.
Material que havia circulado entre músicos e acompanhado a trajetória da banda.
Hoje considero aquelas fotografias parte importante do patrimônio documental da pesquisa.
Reconstruindo as Grades
A partir das fotografias iniciou-se uma etapa que acabaria se tornando central para o projeto.
Reconstruí as grades completas dos arranjos reunindo novamente todas as partes individuais em partituras orquestrais convencionais.
Esse processo permitiu observar detalhes da escrita que seriam extremamente difíceis de perceber apenas ouvindo as gravações.
Foi também o material utilizado para as análises musicais.
Meses depois, levei essas grades reconstruídas para uma nova conversa com Proveta.
Sua reação foi curiosa.
Ao mesmo tempo em que ficou feliz ao ver os arranjos organizados naquele formato, as partituras também levantaram questões sobre notação, escrita e articulação que aparentemente não faziam parte de suas preocupações cotidianas como arranjador.
Essa conversa acabou conduzindo a uma das reflexões mais importantes da pesquisa.
A Entrevista
A entrevista realizada com Proveta teve aproximadamente quatro horas de duração.
Além de discutir os arranjos analisados, conversamos sobre sua formação musical, a história da Banda Mantiqueira, o ambiente musical de São Paulo, suas referências artísticas e seu processo de composição.
Um aspecto particularmente interessante foi sua descrição do caminho que levou ao surgimento da própria Banda Mantiqueira.
Antes dela existiram diversos grupos e tentativas de trabalhar com grandes formações.
Em muitos desses projetos a influência do jazz era ainda mais evidente.
Ao longo do tempo, porém, surgiu a percepção de que sua contribuição mais relevante talvez não estivesse em reproduzir modelos estrangeiros.
A busca passou a ser outra.
Criar um grupo capaz de explorar as possibilidades da música brasileira dentro desse tipo de formação.
Essa mudança de foco acabou se tornando fundamental para a identidade da Banda Mantiqueira.
O Que Eu Esperava Encontrar
Quando iniciei a pesquisa, imaginava que as respostas estariam principalmente na escrita.
Queria entender:
harmonização;
voicings;
contraponto;
desenvolvimento temático;
instrumentação;
forma.
E de fato esses elementos estavam presentes.
Os arranjos demonstravam grande domínio técnico e forte preocupação melódica.
Mas aos poucos ficou claro que a partitura não explicava tudo.
A Questão da Articulação
Uma das descobertas mais importantes da pesquisa surgiu ao comparar manuscritos, gravações e os relatos do próprio Proveta.
Grande parte da linguagem da Banda Mantiqueira não estava completamente registrada na partitura.
A forma de acentuar.
O fraseado.
As nuances de interpretação.
O tratamento rítmico de determinadas passagens.
Muitas dessas informações circulavam através da prática musical.
Elas eram transmitidas por ensaios, apresentações, convivência e escuta.
Essa percepção acabou ocupando espaço crescente dentro da pesquisa.
E continua sendo uma das conclusões que considero mais relevantes até hoje.
Uma Big Band Que Não É Uma Big Band Tradicional
Outro aspecto importante envolve a própria formação instrumental da Banda Mantiqueira.
Embora frequentemente seja descrita como uma big band, sua instrumentação não corresponde exatamente ao modelo tradicional das jazz orchestras.
Ao invés de cinco saxofones, quatro trompetes e quatro trombones, a banda trabalha com uma formação reduzida.
Além disso, não há piano na seção rítmica.
A combinação de guitarra, baixo, bateria e percussão contribui para uma sonoridade bastante específica.
O grupo parece ocupar um espaço intermediário entre diferentes tradições.
Dialoga com as big bands norte-americanas.
Mas também com as gafieiras, bandas de dança e diversas formações ligadas à música instrumental brasileira.
Essa característica ajuda a explicar por que sua identidade sonora é tão particular.
O Que a Pesquisa Revelou
Ao final do trabalho, minha principal conclusão foi que a linguagem da Banda Mantiqueira não pode ser compreendida apenas através das partituras.
Ela resulta da interação entre diferentes elementos.
A escrita.
A articulação.
A tradição oral.
A experiência prática dos músicos.
A instrumentação escolhida.
As referências culturais compartilhadas pelo grupo.
A identidade da banda não está apenas nos arranjos.
Ela também está nas pessoas que os interpretam.
Essa conclusão não diminui a importância da escrita.
Pelo contrário.
Ela amplia nossa compreensão sobre o que significa construir uma linguagem musical.
→ Continue lendo: O Que Minha Pesquisa Sobre Proveta e a Banda Mantiqueira Me Ensinou Sobre Linguagem Musical
Existe Uma Linguagem Brasileira de Big Band?
A pesquisa não pretendia responder essa pergunta de forma definitiva.
Mas ela apontou algumas direções importantes.
A experiência da Banda Mantiqueira sugere que uma linguagem brasileira para grandes formações não surge da simples reprodução de modelos estrangeiros.
Ela se desenvolve quando esses modelos passam a dialogar com repertórios, práticas interpretativas, tradições e experiências musicais locais.
No caso da Mantiqueira, isso significa incorporar elementos do samba, do choro, do frevo, das bandas de música e da trajetória particular dos músicos envolvidos.
Mais de quinze anos depois, continuo considerando essa pesquisa uma documentação valiosa de uma das experiências mais importantes da música instrumental brasileira contemporânea.
Ao revisitar manuscritos, entrevistas e análises, encontro não apenas um trabalho acadêmico realizado durante a graduação.
Encontro também um registro de processos criativos, práticas musicais e reflexões que ajudam a compreender como uma linguagem artística se desenvolve dentro de uma comunidade musical específica.
E talvez essa seja a contribuição mais duradoura da pesquisa.
Não oferecer uma definição definitiva da big band brasileira.
Mas ajudar a documentar um dos caminhos pelos quais ela foi construída.
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Sobre o Autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.


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