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Por Que Criar uma Big Band Autoral nos Dias de Hoje? A História da Orquestra Urbana

Criar uma big band autoral nos dias de hoje parece, sob muitos aspectos, uma decisão pouco racional.


É um formato caro, logisticamente complexo e que exige um nível de organização significativamente maior do que a maioria dos grupos musicais enfrenta. Ensaios demandam espaços adequados, agendas precisam ser conciliadas e cada apresentação mobiliza uma estrutura considerável de músicos, produção e preparação de materiais.


Ao mesmo tempo, vivemos em uma época em que a tecnologia permite produzir resultados sonoros impressionantes com recursos cada vez mais compactos. Um computador, alguns sintetizadores, bibliotecas virtuais e um bom sistema de som conseguem gerar uma massa sonora muito maior do que a de uma big band tradicional.


Se o objetivo fosse apenas produzir volume, impacto ou variedade tímbrica, existem caminhos muito mais eficientes.


Então por que alguém decide criar uma big band?


E mais do que isso: por que dedicar mais de uma década da vida a um projeto desse tipo?


Essa é uma pergunta que músicos, estudantes, compositores e produtores já me fizeram muitas vezes ao longo dos anos. A resposta passa pela história da Orquestra Urbana, mas também por questões mais amplas sobre criação artística, colaboração humana e a necessidade de construir espaços onde determinadas ideias possam existir.


No meu caso, a história da orquestra acabou se tornando também uma forma de responder outra pergunta que me acompanha há bastante tempo: como desenvolver uma linguagem própria para grandes grupos sem depender exclusivamente das oportunidades oferecidas por instituições, encomendas ou projetos de terceiros?



O Que É Uma Big Band?


Quando falamos em big band, normalmente estamos nos referindo à formação que se consolidou dentro da tradição do jazz ao longo do século XX.


Se quisermos fazer uma analogia simples, uma big band ocupa dentro do jazz um papel semelhante ao que uma orquestra sinfônica ocupa na música de concerto. Assim como a música de câmara trabalha com formações menores, o jazz possui seus duos, trios, quartetos e quintetos. A big band representa a expansão dessa linguagem para uma escala maior, normalmente organizada em torno de seções de saxofones, trompetes, trombones e seção rítmica.


Historicamente, ela está associada a nomes como Duke Ellington, Count Basie, Thad Jones, Bob Brookmeyer e Maria Schneider, entre muitos outros compositores, arranjadores e líderes que ajudaram a expandir as possibilidades da escrita para grandes grupos.


Mas a relação do Brasil com esse universo vai muito além da simples importação de um modelo norte-americano. Bandas de coreto, bandas marciais, conjuntos instrumentais ligados ao choro, à música popular brasileira e diversas outras tradições já exploravam formas coletivas de fazer música em larga escala muito antes de eu me interessar por jazz orchestras.


Talvez por isso eu nunca tenha enxergado a big band apenas como uma linguagem do jazz.


Para mim, ela sempre representou um ponto de encontro entre diferentes tradições musicais, um espaço onde composição, improvisação, arranjo e identidade cultural podem coexistir de maneira particularmente rica.


Por Que Criar Uma Big Band Autoral?


Se alguém me perguntasse hoje por que criar uma big band autoral, eu provavelmente responderia que existem várias razões possíveis, mas cinco delas foram especialmente importantes na minha trajetória.


A primeira é a sonoridade.


A escrita para grandes grupos oferece possibilidades que simplesmente não existem em formações menores. A maneira de distribuir vozes, abrir harmonias, construir texturas, criar contrastes entre seções e trabalhar grandes massas sonoras exige um pensamento completamente diferente daquele utilizado em um quarteto ou quinteto.


A segunda é o desenvolvimento de uma voz composicional.


Muitos compositores escrevem para diferentes grupos ao longo da carreira. Mas existe uma diferença importante entre escrever ocasionalmente para uma formação e ter um ensemble capaz de acompanhar suas ideias ao longo de anos. Um grupo autoral permite testar abordagens, revisar obras, amadurecer processos e observar como uma linguagem se desenvolve ao longo do tempo.


A terceira é a colaboração.


Embora a figura do compositor costume receber destaque, grande parte da riqueza de uma big band nasce justamente da interação entre diferentes artistas. Os improvisadores influenciam a música. A seção rítmica influencia a música. Os próprios naipes desenvolvem maneiras particulares de interpretar e reagir ao material escrito. Com o tempo, a identidade do grupo passa a existir não apenas nas partituras, mas também nas pessoas que as interpretam.


A quarta razão é a liberdade criativa.


Projetos autorais permitem escolher colaboradores, definir prioridades, desenvolver repertórios de longo prazo e seguir caminhos que talvez não encontrassem espaço em estruturas já estabelecidas.


E existe ainda uma quinta razão, mais difícil de explicar.


Algumas ideias simplesmente precisam de um espaço próprio para existir.


Nem toda música encontra naturalmente seu lugar em instituições já existentes. Nem toda proposta artística se encaixa nas expectativas de um grupo consolidado. Em muitos casos, criar um ensemble é menos uma questão de ambição e mais uma tentativa de construir um ambiente onde determinadas perguntas possam ser exploradas.


Foi justamente essa busca que acabou levando ao surgimento da Orquestra Urbana.


Antes da Orquestra Urbana


Minha relação com grandes grupos começou muito antes da criação da Orquestra Urbana.


Ainda adolescente, eu já era fascinado pelo universo das big bands. Gostava de ouvir aquelas formações, tentar entender o que estava acontecendo dentro daquelas massas sonoras e observar como diferentes instrumentos se combinavam para criar algo que parecia muito maior do que a soma das partes.


Mais tarde, durante meus anos na Unicamp, tive a oportunidade de tocar regularmente em big bands como saxofonista. Aquilo consolidou uma fascinação que já existia como ouvinte.


Existe algo muito particular na experiência de estar sentado dentro de uma grande formação. Você não está apenas ouvindo a música. Está dentro dela. O som vem de diferentes direções, as seções respiram juntas, os ataques acontecem coletivamente e os naipes se movem como organismos vivos. É uma experiência física, quase espacial, que continua difícil de explicar para quem nunca esteve naquele ambiente.


Mas houve um momento específico que mudou profundamente minha maneira de enxergar esse universo.


Alguns anos antes de me mudar para os Estados Unidos, descobri a música de Maria Schneider.


Foi uma experiência transformadora.


Lembro de ouvir aquelas obras e me emocionar profundamente. Não apenas pela qualidade da escrita, mas pela maneira como composição, improvisação e personalidade dos músicos coexistiam. As obras pareciam vivas. Os músicos não pareciam apenas interpretar aquelas partituras. Eles faziam parte da identidade da própria música.


Aquilo ampliou radicalmente minha percepção sobre o que uma big band poderia ser.


Até então, eu admirava grandes grupos principalmente por suas possibilidades sonoras. A partir daquele momento, comecei a enxergá-los também como plataformas criativas, ambientes onde composição e colaboração podiam se desenvolver simultaneamente.


Em muitos aspectos, esse encontro com a música de Maria Schneider influenciou diretamente minha decisão de buscar formação nos Estados Unidos.


Mais tarde, Maria se tornaria uma importante incentivadora desse processo e me recomendaria a University of Miami, instituição com a qual ela mantém uma longa relação artística e educacional.


Foi nesse ambiente que aprofundei meu contato com a escrita para grandes grupos, com a composição contemporânea para jazz orchestra e com muitos dos músicos, compositores e educadores que ajudariam a moldar minha visão artística.



Por Que Não Apenas Escrever Para Outros Grupos?


Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de escrever para universidades, orquestras, big bands e diversos projetos artísticos.


Continuo fazendo isso.


Receber uma encomenda, escrever para um artista específico ou desenvolver uma obra para determinada instituição é uma parte importante do meu trabalho. Cada projeto traz seus próprios desafios, limitações e oportunidades.


Mas existe uma diferença fundamental entre escrever para um grupo existente e construir o seu próprio espaço de criação.


Durante minha pesquisa de doutorado, tive a oportunidade de entrevistar o compositor grego radicado na Nova Zelândia John Psathas. Entre muitos assuntos, conversamos sobre os desafios de desenvolver uma voz artística própria dentro de estruturas já estabelecidas.


Lembro dele comentar como grupos consolidados frequentemente possuem repertórios, públicos, hábitos e expectativas muito específicos. Muitas vezes, a música que um compositor deseja criar não se encaixa naturalmente naquele contexto. Os músicos estão acostumados a determinadas linguagens. As instituições possuem determinadas prioridades. Os públicos chegam com certas expectativas sobre aquilo que irão ouvir.


A conversa ficou comigo durante muitos anos porque ela ajudava a explicar algo que eu já vinha percebendo intuitivamente.


Projetos autorais trazem dificuldades enormes.


Mas também oferecem uma possibilidade rara.


A de construir um ambiente alinhado à sua própria visão artística.


Muitos compositores importantes criaram seus próprios ensembles por razões semelhantes. Não necessariamente porque fosse o caminho mais fácil ou mais eficiente, mas porque desejavam desenvolver uma linguagem ao longo do tempo, acompanhar diretamente a realização da própria música e trabalhar com pessoas que compartilhassem determinadas inquietações artísticas.


Essa autonomia tem um custo.


Quem lidera um projeto autoral assume responsabilidades que normalmente estariam distribuídas entre instituições, produtores, diretores artísticos e regentes. A liberdade para decidir os rumos do trabalho vem acompanhada do risco, da carga operacional e da responsabilidade de fazer o projeto existir.


Ainda assim, para determinados tipos de criação, esse parece ser o caminho mais natural.


O Surgimento da Orquestra Urbana


A Orquestra Urbana surgiu em 2014.


Naquele momento, eu já vivia fora do Brasil.


De certa forma, ela nasceu justamente da interseção entre dois mundos que vinham moldando minha trajetória. De um lado, minha formação e minha imersão no universo do jazz e da escrita para grandes grupos nos Estados Unidos. Do outro, minha conexão profunda com os músicos, as linguagens e as tradições da música brasileira.


Desde o início, a orquestra funcionou como um espaço onde essas influências podiam dialogar.


A oportunidade surgiu através de um convite para participar de um projeto de big bands em Campinas, minha cidade natal.


A ideia inicial era relativamente simples: reunir músicos para apresentar minhas composições dentro daquela série de concertos.


Mas, como acontece com frequência nos projetos que acabam se tornando importantes, a realidade rapidamente ultrapassou o plano original.


Embora eu seja identificado como fundador da Orquestra Urbana, a verdade é que ela nasceu de um esforço coletivo.


Um papel fundamental nesse processo foi desempenhado pelo trompetista João Lenhari, amigo de longa data e um dos principais articuladores daquele primeiro encontro entre meu trabalho e os músicos ligados à Banda Urbana e à cena instrumental paulista.


Sem seu entusiasmo, sua capacidade de mobilização e sua confiança no projeto, a história da Orquestra Urbana provavelmente teria seguido outro caminho.


Já existia um grupo menor chamado Banda Urbana. A partir dele surgiu a ideia de expandir a formação, incorporar novos músicos e construir algo maior.


O que começou como um concerto rapidamente passou a se parecer com o início de uma banda.


Lembro claramente da energia daqueles primeiros encontros.


Por um lado, eu tinha a oportunidade de trabalhar com músicos que admirava profundamente e cuja trajetória eu acompanhava havia anos.


Por outro, existia uma curiosidade genuína em torno daquele repertório e daquela proposta artística.


Hoje, olhando para trás, percebo que o que mais me marcou não foi apenas a qualidade musical daqueles encontros.


Foi o entusiasmo.


A sensação de que todos os envolvidos acreditavam estar participando da construção de algo novo.


Esse tipo de energia é difícil de planejar.


Ela simplesmente acontece quando as circunstâncias certas encontram as pessoas certas.


A Orquestra Como Laboratório Criativo


Muitas pessoas enxergam uma big band como um grupo de performance.


Para mim, a Orquestra Urbana sempre funcionou principalmente como um laboratório.


Desde os primeiros ensaios, ficou claro que aquele não seria um ambiente onde as partituras chegariam prontas e permaneceriam imutáveis.


As músicas mudavam constantemente.


Os músicos costumavam brincar que toda semana aparecia uma nova versão das partituras. E havia bastante verdade nessa observação.


Eu gravava ensaios, ouvia tudo novamente em casa, analisava o que estava funcionando e voltava para a escrita. Às vezes eram pequenas alterações de orquestração. Outras vezes eram mudanças estruturais, novos backgrounds, cortes, expansões ou reformulações completas de determinados trechos.


As apresentações também faziam parte desse processo.


Uma música podia soar de determinada maneira no papel e revelar outra realidade completamente diferente quando encontrava músicos reais, improvisadores reais e uma plateia real.


Grande parte do que aprendi sobre composição para grandes grupos não aconteceu sozinho diante do computador.


Aconteceu nos ensaios.


Aconteceu ouvindo músicos interpretarem as partituras.


Aconteceu observando como determinadas ideias funcionavam na prática enquanto outras precisavam ser repensadas.


Aconteceu percebendo que a composição não termina necessariamente quando a última nota é escrita.


Em muitos aspectos, a Orquestra Urbana se tornou um ambiente onde composição, improvisação, arranjo e performance passaram a influenciar uns aos outros continuamente.


Hoje, olhando para trás, percebo que esse talvez tenha sido um dos maiores presentes que o projeto me ofereceu.


Não apenas um grupo para tocar minhas músicas.


Mas um espaço onde elas podiam amadurecer.



O Que Uma Big Band Ensina ao Compositor?


Existe um aspecto da Orquestra Urbana que talvez tenha sido tão importante quanto os concertos, os discos ou os projetos realizados ao longo dos anos.


Ela se tornou uma parte fundamental da minha formação.


Quando pensamos em composição, é fácil imaginar uma atividade relativamente solitária. Um compositor diante de um piano, de um computador ou de uma folha de papel tomando decisões sobre sons, formas e estruturas. Mas a experiência de trabalhar regularmente com uma big band lembra constantemente que a música não termina quando a partitura é concluída.


Ela precisa ser ensaiada.


Precisa ser compreendida pelos músicos.


Precisa funcionar em tempo real.


Ao longo dos anos, passei a perceber que muitas das decisões mais importantes não aconteciam necessariamente durante a escrita, mas durante os ensaios. Uma passagem que parecia clara no computador podia gerar dúvidas quando chegava à estante. Um equilíbrio que parecia funcionar na reprodução digital podia soar completamente diferente quando encontrava músicos reais. Uma seção inteira podia ganhar vida através de uma interpretação que eu não havia imaginado.


Com o tempo, fui percebendo que liderar um grande grupo exige habilidades que raramente aparecem em livros de composição.


Existe a preparação dos materiais.


Existe a organização dos ensaios.


Existe a necessidade de tomar decisões rápidas quando o tempo disponível é limitado.


Existe o desafio de reunir uma grande quantidade de pessoas em torno de um objetivo comum e aproveitar ao máximo os momentos em que todos estão presentes.


Em muitos aspectos, a Orquestra Urbana acabou funcionando como uma segunda escola.


Não apenas sobre composição.


Mas sobre direção musical, liderança, organização de processos criativos e realização artística.


Grande parte dessas coisas eu só aprendi porque precisei aprendê-las.


Pelos Ares e a Consolidação do Projeto


Pouco tempo depois do concerto de estreia surgiu uma oportunidade que mudaria o rumo da Orquestra Urbana.


O projeto foi selecionado pelo ProAC para a gravação de seu primeiro álbum.


Olhando para trás, o que mais me chama atenção não é apenas o fato de termos gravado um disco. É a maneira como chegamos até ele.


Em vez de entrar diretamente em estúdio, decidimos desenvolver aquele repertório através de ensaios e apresentações. Durante alguns meses, a banda se reuniu regularmente, apresentou as obras em diferentes espaços e permitiu que a música amadurecesse diante dos músicos e do público.


Hoje percebo o quanto esse processo foi especial.


Especialmente para uma big band independente.


As obras continuavam mudando.


As interpretações continuavam evoluindo.


Os improvisadores encontravam novos caminhos.


Eu continuava reescrevendo trechos, ajustando formas e repensando detalhes de orquestração.


Quando finalmente entramos em estúdio, aquelas músicas já tinham vivido bastante.


Elas carregavam a experiência acumulada dos ensaios, dos concertos e das transformações que haviam acontecido ao longo do caminho.


O álbum Pelos Ares acabou se tornando muito mais do que um registro fonográfico.


Ele documentou um momento específico da minha trajetória artística e da identidade que a Orquestra Urbana começava a desenvolver.


Também reuniu músicos que eu admirava profundamente, incluindo Brian Lynch, John Daversa, Phil Doyle, André Mehmari, Nailor Azevedo “Proveta” e Paulo Braga.


Mas, talvez mais importante do que qualquer nome presente naquele disco, foi o fato de que ele representava a materialização de um processo coletivo que vinha sendo construído desde aqueles primeiros encontros em Campinas.


O Desafio de Continuar


Quando a Orquestra Urbana surgiu, em 2014, eu não estava pensando em construir um projeto que atravessaria mais de uma década.


Naquele momento, a preocupação era muito mais simples: fazer aquele primeiro concerto acontecer.


Depois veio a gravação do álbum.


Depois vieram outras apresentações.


Depois surgiram novas composições.


Como acontece com muitos projetos artísticos, os próximos passos foram aparecendo um de cada vez.


Talvez por isso eu nunca tenha pensado muito sobre a longevidade da orquestra enquanto ela acontecia. Foi apenas com o passar dos anos que comecei a perceber o quanto é raro um grupo desse porte permanecer ativo durante tanto tempo.


Manter uma big band exige uma combinação de fatores que nem sempre é fácil reunir. Existe a questão financeira, naturalmente. Existe a necessidade de encontrar espaços adequados para ensaiar. Existe a dificuldade de conciliar a agenda de quase vinte pessoas. Existe o fato de que músicos viajam, mudam de cidade, assumem novos compromissos profissionais e atravessam diferentes momentos da vida.


No meu caso, existe ainda uma camada adicional de complexidade.


Desde o início, a Orquestra Urbana se desenvolveu enquanto eu vivia fora do Brasil. Isso significa que cada projeto envolve planejamento, deslocamentos, coordenação à distância e uma rede de colaboradores que tornam as coisas possíveis mesmo quando eu não estou fisicamente presente no dia a dia da cena musical paulista.


Ao olhar para trás, no entanto, o que mais me chama atenção não são as dificuldades.


O que mais me chama atenção é a quantidade de pessoas que acreditaram no projeto ao longo do caminho.


Muitos músicos passaram pela orquestra nesses anos. Alguns participaram de praticamente todas as fases. Outros estiveram presentes apenas em determinados períodos. Mas existe algo em comum entre todos eles: ninguém escolhe tocar em uma big band independente por razões puramente práticas.


Existe uma dose considerável de generosidade envolvida nesse tipo de projeto.


Existe também um desejo compartilhado de participar de um espaço onde a música pode ser desenvolvida com tempo, profundidade e liberdade criativa.


Talvez seja isso que tenha permitido que a Orquestra Urbana continuasse existindo.


Não apenas a vontade de um compositor de ouvir suas obras sendo executadas, mas a construção gradual de uma comunidade artística interessada em explorar esse repertório coletivamente.


A Retomada e Um Novo Ciclo


Depois da gravação de Pelos Ares e dos projetos realizados nos anos seguintes, a atividade da orquestra naturalmente diminuiu de intensidade.


Minha vida havia mudado.


Eu já estava estabelecido em Nova York.


Novos projetos profissionais passaram a ocupar espaço crescente na minha rotina.


Ao mesmo tempo, a própria dinâmica de uma big band faz com que seja difícil manter uma atividade contínua sem uma estrutura institucional permanente por trás do grupo.


Mais tarde veio a pandemia, interrompendo apresentações, ensaios e praticamente toda atividade presencial ligada a grandes formações.


Quando a orquestra começou a retomar suas atividades de maneira mais consistente a partir de 2023, tive uma sensação curiosa.


Por um lado, muitas coisas permaneciam familiares. Alguns dos músicos que participaram dos primeiros anos continuavam presentes. Certas características da sonoridade da banda ainda estavam lá. A lógica de trabalho continuava parecida.


Por outro lado, era claramente um novo momento.


Novos músicos passaram a integrar o grupo.


Novas obras começaram a entrar no repertório.


Novos projetos surgiram.


E eu próprio já não era o mesmo compositor que havia escrito aquelas primeiras peças em 2014.


Projetos como o SP Instrumental, as apresentações na Sociedade Hípica de Campinas, os concertos na Sala São Paulo e as gravações mais recentes acabaram marcando essa nova fase.


O que mais me interessa, no entanto, é que a função da orquestra permaneceu essencialmente a mesma.


Ela continuou sendo um espaço onde novas ideias podem ser testadas.


Um lugar onde uma composição ainda inacabada pode ser levada para um ensaio, ouvida por músicos reais, transformada e revisada.


Muitas das obras que farão parte do próximo álbum passaram justamente por esse processo.


Algumas delas começaram como esboços.


Outras foram apresentadas publicamente em versões bastante diferentes daquelas que serão registradas definitivamente.


Em quase todos os casos, a convivência com os músicos acabou influenciando a forma final da obra.


É um processo mais lento do que simplesmente escrever e gravar.


Mas talvez seja justamente essa lentidão que me interessa.


Ela cria espaço para que a música amadureça.


O Que a Orquestra Urbana Representa Hoje


Quando penso na Orquestra Urbana hoje, tenho dificuldade de defini-la apenas como uma banda.


Ao longo dos anos, ela acabou se tornando uma parte importante da maneira como eu desenvolvo meu trabalho artístico.


Muitas das ideias que surgiram durante meus estudos nos Estados Unidos encontraram ali seu primeiro espaço de experimentação. Ao mesmo tempo, a convivência com músicos brasileiros continuou trazendo referências, repertórios, experiências e formas de pensar música que dificilmente teriam surgido em outro contexto.


Talvez por isso a orquestra tenha ocupado um lugar tão particular na minha trajetória.


Ela sempre existiu em um cruzamento de interesses que acompanham minha trajetória há muitos anos. O interesse pela música brasileira, pela escrita para grandes grupos, pela improvisação, pela composição contemporânea e pelo trabalho coletivo nunca apareceu para mim como territórios separados. A Orquestra Urbana acabou se tornando um dos poucos espaços onde todas essas dimensões puderam coexistir naturalmente.


Nenhum desses elementos, isoladamente, explica a identidade da Orquestra Urbana. O que me interessa é justamente a maneira como eles se encontram.


Também existe um aspecto pessoal nessa história.


Quando me mudei para os Estados Unidos, uma das minhas preocupações era encontrar maneiras de continuar conectado ao universo musical que havia moldado minha formação no Brasil. A orquestra acabou se tornando uma dessas conexões.


Ao longo do tempo, ela passou a funcionar como uma ponte entre diferentes partes da minha vida artística. Entre o Brasil e os Estados Unidos. Entre a tradição da música brasileira e a linguagem das jazz orchestras contemporâneas. Entre a composição detalhadamente escrita e a liberdade criativa que surge quando músicos passam a interagir com aquele material.


Depois de mais de uma década, continuo voltando para esse projeto pelas mesmas razões que me fizeram começar.


Pela possibilidade de ouvir uma ideia sair do papel e ganhar vida através de muitos músicos.


Pela surpresa que acontece quando uma obra encontra intérpretes capazes de transformá-la.


E pela experiência, sempre renovada, de construir algo coletivamente que nenhum de nós conseguiria criar sozinho.


Talvez seja essa a resposta mais honesta para a pergunta que deu origem a este texto.


Criar uma big band autoral nunca foi uma decisão baseada em eficiência.


Foi uma decisão baseada na convicção de que determinadas experiências musicais só podem acontecer quando existe um espaço dedicado a elas.


A Orquestra Urbana nasceu dessa convicção.


E continua existindo por ela.


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Sobre o autor


Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.




Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador

 
 
 

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