Por Que Criar uma Big Band Autoral nos Dias de Hoje? A História da Orquestra Urbana
- Rafael Piccolotto de Lima

- 2 de jun.
- 15 min de leitura
Atualizado: 26 de jul.
Criar uma big band autoral nos dias de hoje parece, sob muitos aspectos, uma decisão pouco racional.
É um formato caro, logisticamente complexo e que exige um nível de organização significativamente maior do que a maioria dos grupos musicais enfrenta. Ensaios demandam espaços adequados, agendas precisam ser conciliadas e cada apresentação mobiliza uma estrutura considerável de músicos, produção e preparação de materiais.

Ao mesmo tempo, há muitas décadas uma formação acústica numerosa deixou de ser requisito para produzir complexidade, volume ou impacto. Instrumentos elétricos, teclados, técnicas de microfonação e sistemas de amplificação já permitiam que formações menores construíssem universos sonoros densos e variados. As tecnologias digitais expandiram radicalmente esse campo, por meio de bancos de sons, técnicas de sobreposição e recursos de produção cada vez mais sofisticados. Massa, impacto e diversidade sonora podem ser alcançados hoje por muitos caminhos.
Essa distinção entre as possibilidades do resultado final e o valor específico do processo escolhido também existe no cinema. Um diretor pode optar por filmar em locações e trabalhar com efeitos práticos mesmo tendo à disposição recursos digitais capazes de construir aquelas imagens de outra maneira. Essa opção não nega a tecnologia nem estabelece uma hierarquia entre os resultados. Ela parte do reconhecimento de que o modo de fazer interfere na experiência de criação e deixa marcas no caráter da obra.
É nesse sentido que a escolha por uma big band não se explica apenas pelo resultado sonoro final. Ela envolve o caráter particular da formação, a experiência de escrever para ela e o processo artístico e humano que acontece quando aqueles músicos se reúnem para realizar a música.
Reconhecer esse valor, porém, não encerra a questão. O que leva alguém a criar uma big band autoral e a continuar investindo tempo, energia e recursos nesse projeto por mais de uma década?

Essa pergunta raramente me é feita de maneira tão direta. Ela costuma aparecer nas entrelinhas de comentários de colegas que se dizem impressionados com a possibilidade de reunir um grupo desse tamanho ou que manifestam admiração por quem assume a responsabilidade de organizar e manter uma big band. Ela também acompanha minha própria relação com a Orquestra Urbana. Por conhecer de perto as dificuldades de produção, os custos e a energia necessários para sustentar um projeto assim, é natural que eu me pergunte por que continuar investindo tanto para torná-lo possível.
Não se trata de uma dúvida que me faça recuar, mas de um questionamento que permanece no ar e acompanha a própria realização do trabalho. A resposta passa pela história da Orquestra Urbana, mas também por questões mais amplas sobre criação artística, colaboração humana e o desejo de construir espaços onde determinadas ideias possam existir.
→ Leia mais: A Construção de uma Linguagem Musical Própria: Revisitando Pelos Ares, Meu Primeiro Álbum com a Orquestra Urbana
O Que É Uma Big Band?
Quando falamos em big band, normalmente estamos nos referindo à formação que se consolidou dentro da tradição do jazz ao longo do século XX.

Como analogia de escala, uma big band ocupa no jazz um lugar comparável ao da orquestra sinfônica na música de concerto. A comparação não está na instrumentação, mas na dimensão da formação e nas possibilidades de escrita que ela oferece. Ao lado da forte tradição de duos, trios, quartetos e quintetos, a big band leva essa linguagem a uma escala maior, organizada em seções de saxofones, trompetes e trombones, além da seção rítmica.
Historicamente, a tradição da big band está associada a nomes como Duke Ellington, Count Basie, Thad Jones, Bob Brookmeyer e Maria Schneider, entre muitos outros compositores, arranjadores e líderes que ajudaram a expandir as possibilidades da escrita para grandes grupos.
Embora a big band tenha se consolidado dentro do jazz norte-americano, sua presença no Brasil não se resume à adoção de um modelo estrangeiro. Quando as jazz bands começaram a se difundir no país, já existia uma vida musical marcada por bandas militares e civis, formações carnavalescas, orquestras de salão e pequenos grupos de choro. Ao se estabelecer no Brasil, esse formato passou a conviver e dialogar com repertórios, músicos e práticas locais, incorporando ao longo do tempo diferentes elementos da música brasileira.
Nunca enxerguei essa formação como limitada ao repertório e à linguagem do jazz. Partindo dessa tradição, a big band pode funcionar como um ponto de encontro com outros universos musicais. Para mim, sua riqueza está justamente na possibilidade de utilizar a composição, o arranjo e as práticas de improvisação para estabelecer diálogos com diferentes tradições, entre elas as da música brasileira.
Por Que Criar Uma Big Band Autoral?
Se alguém me perguntasse hoje por que criar uma big band autoral, eu provavelmente responderia que existem várias razões possíveis, mas cinco delas foram especialmente importantes na minha trajetória.
1. Uma maneira diferente de pensar a escrita
A dimensão de uma big band cria possibilidades particulares de escrita. Distribuir vozes entre as seções, abrir harmonias, sobrepor texturas, criar contrastes entre os naipes e conduzir grandes massas sonoras exige um pensamento diferente daquele empregado em um quarteto ou quinteto. O interesse não está apenas no resultado sonoro, mas na própria experiência de conceber a música para essa formação.

2. Continuidade para desenvolver uma voz composicional
Existe uma diferença importante entre escrever ocasionalmente para uma formação e contar com um grupo capaz de acompanhar suas ideias durante anos. Uma big band autoral permite testar abordagens, revisar obras, amadurecer processos e observar como uma linguagem composicional se desenvolve ao longo do tempo.
3. Uma identidade construída coletivamente
Embora a figura do compositor costume receber destaque, grande parte da riqueza de uma big band nasce da interação entre os músicos. A maneira como os solistas improvisam, as escolhas da seção rítmica e as formas particulares de interpretação desenvolvidas pelos naipes influenciam a música. Com o tempo, a identidade do grupo passa a existir não apenas nas partituras, mas também nas pessoas que as realizam.

4. Autonomia artística
Um projeto autoral permite escolher colaboradores, definir prioridades, desenvolver repertórios de longo prazo e seguir caminhos que talvez não encontrassem espaço em estruturas já estabelecidas. Essa autonomia permite que as decisões artísticas respondam às necessidades do trabalho, mesmo quando elas não coincidem com as expectativas de uma instituição ou de um grupo consolidado.
5. Um espaço para ideias que ainda não encontraram lugar
Algumas ideias precisam de um espaço próprio para existir. Nem toda música encontra naturalmente seu lugar em instituições ou formações já existentes. Em muitos casos, criar uma big band é menos uma questão de ambição do que uma tentativa de construir um ambiente onde determinadas perguntas possam ser exploradas.
Essa combinação de razões ajuda a explicar tanto o surgimento da Orquestra Urbana quanto sua continuidade ao longo dos anos.
Da Experiência de Tocar ao Desejo de Criar uma Big Band
As razões apresentadas acima foram tomando forma muito antes da criação da Orquestra Urbana, a partir das experiências que tive com grandes formações.
Ainda adolescente, eu já era fascinado pelo universo das orquestras e big bands. Gostava de ouvir aquelas massas sonoras, tentar compreender o que acontecia dentro delas e perceber como diferentes instrumentos podiam se combinar para criar algo maior do que a soma das partes.
Durante meus anos na Unicamp, passei a tocar regularmente em big bands como saxofonista e pude experimentar essa música a partir de dentro. O som vinha de diferentes direções, as seções respiravam juntas, as articulações aconteciam coletivamente e os naipes se movimentavam como organismos vivos. Não se tratava apenas de escutar uma formação numerosa, mas de participar de uma realização construída pela interação entre muitas pessoas.
Naquele mesmo período, o contato com trabalhos como os de Maria Schneider e Nailor Azevedo “Proveta” acrescentou outra dimensão a essa experiência. Em linguagens bastante distintas, suas big bands mostravam como a identidade musical de uma formação também se desenvolve na relação contínua entre a escrita e as características dos músicos.

Para a questão que orienta este artigo, o ponto central está nessa continuidade. Interessava-me não apenas escrever ocasionalmente para uma big band, mas acompanhar o que poderia acontecer quando as obras fossem ensaiadas, apresentadas, revistas e novamente interpretadas por músicos que desenvolvessem uma relação duradoura com o repertório.
A experiência de tocar dentro dessas formações e o desejo de manter um ambiente contínuo para a criação ajudaram a estabelecer as bases da Orquestra Urbana. Criar a big band seria uma maneira de reunir essas duas dimensões: as possibilidades particulares da escrita para grandes grupos e a construção musical que acontece por meio da convivência entre os músicos.
Autonomia Artística na Prática: Por Que Não Apenas Escrever Para Outros Grupos?
Entre as razões apresentadas anteriormente para criar uma big band autoral, duas estão especialmente relacionadas: a busca por autonomia artística e a necessidade de construir um espaço para ideias que ainda não encontraram lugar. Essa distinção se torna mais clara quando comparada a outra dimensão importante do meu trabalho: escrever para grupos e instituições que possuem trajetórias próprias.
Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de escrever para universidades, orquestras, big bands, artistas e diferentes projetos. Continuo fazendo isso. Cada encomenda estabelece um contexto particular e pode abrir possibilidades que dificilmente surgiriam de outra maneira.
Ao mesmo tempo, quem escreve para uma formação já estabelecida entra em um ambiente que possui identidade, repertório, prioridades, práticas de trabalho e relações próprias com seus músicos e seu público. Isso não constitui necessariamente uma limitação, mas significa que a obra passa a dialogar com condições que antecedem sua criação.
Durante minha pesquisa de doutorado, tive a oportunidade de entrevistar o compositor grego radicado na Nova Zelândia John Psathas. Entre muitos assuntos, conversamos sobre os desafios de desenvolver uma voz artística própria dentro dessas estruturas.

Lembro dele comentar que grupos consolidados frequentemente possuem repertórios, públicos, hábitos e expectativas muito específicos. Uma ideia musical pode ser plenamente realizável e, ainda assim, não encontrar um lugar natural naquele contexto. A questão não está necessariamente na abertura dos músicos ou das instituições, mas na compatibilidade entre a proposta artística e o ambiente existente.
A conversa ajudou a formular uma diferença que eu também reconhecia na prática. Quando escrevo para outro grupo, desenvolvo a música em diálogo com uma estrutura que já possui sua própria história. Em um projeto autoral, existe a possibilidade de construir gradualmente essa estrutura ao redor das perguntas artísticas que desejo explorar. O repertório transforma o grupo, enquanto a experiência acumulada pelos músicos também transforma o repertório.
É nesse sentido que autonomia artística e construção coletiva não são ideias opostas. Criar um espaço próprio não significa controlar sozinho todos os resultados, mas estabelecer as condições para que determinadas propostas possam ser desenvolvidas em colaboração ao longo do tempo.
Essa autonomia tem um custo. Quem lidera um projeto autoral assume responsabilidades que, em outros contextos, estariam distribuídas entre instituições, produtores, diretores artísticos e regentes. A possibilidade de definir os rumos do trabalho vem acompanhada do risco, da carga operacional e da responsabilidade de criar as condições para que o projeto exista.
Para determinados tipos de criação, porém, esse continua parecendo o caminho mais natural.
O Surgimento da Orquestra Urbana
A Orquestra Urbana surgiu em 2014, quando eu já vivia fora do Brasil. Ela nasceu da interseção entre dois mundos que vinham moldando minha trajetória: de um lado, minha formação e minha imersão no universo do jazz e da escrita para grandes grupos nos Estados Unidos; do outro, minha conexão profunda com os músicos, as linguagens e as tradições da música brasileira. Desde o início, o grupo funcionou como um espaço onde essas influências podiam dialogar.
A oportunidade surgiu por meio de um convite para participar de um projeto de big bands em Campinas, minha cidade natal. A ideia inicial era relativamente simples: reunir músicos para apresentar minhas composições dentro daquela série de concertos.

Embora eu seja identificado como fundador da Orquestra Urbana, a verdade é que ela nasceu de um esforço coletivo. Um papel fundamental nesse processo foi desempenhado pelo trompetista João Lenhari, amigo de longa data e um dos principais articuladores daquele primeiro encontro entre meu trabalho e os músicos ligados à Banda Urbana e à cena instrumental paulista. Sem seu entusiasmo, sua capacidade de mobilização e sua confiança no projeto, a história da Orquestra Urbana provavelmente teria seguido outro caminho.

Já existia um grupo menor chamado Banda Urbana. A partir dele surgiu a ideia de expandir a formação, incorporar novos músicos e construir algo maior. O que começou como um concerto rapidamente passou a se parecer com o início de uma banda.
Lembro claramente da energia daqueles primeiros encontros. Por um lado, eu tinha a oportunidade de trabalhar com músicos que admirava profundamente e cuja trajetória acompanhava havia anos. Por outro, existia uma curiosidade genuína em torno daquele repertório e daquela proposta artística que eu trazia.

Quando lembro daquele período, o que mais me vem à memória não é apenas a qualidade musical daqueles encontros, mas o entusiasmo. Havia a sensação de que todos os envolvidos acreditavam estar participando da construção de algo novo e de valor. Esse tipo de energia é difícil de planejar. Ela simplesmente surge quando as circunstâncias certas encontram as pessoas certas.
A Orquestra Como Laboratório Criativo
Desde os primeiros ensaios, a Orquestra Urbana funcionou como um laboratório para o desenvolvimento das obras. As partituras não chegavam como materiais imutáveis. Os músicos brincavam que toda semana aparecia uma nova versão, e havia bastante verdade nessa observação.
Eu gravava os ensaios, ouvia os registros em casa e retornava à escrita. Algumas vezes fazia pequenos ajustes de orquestração; em outras, reformulava seções inteiras, criava novos backgrounds, realizava cortes ou expandia determinados trechos.

As apresentações também alimentavam esse processo. Uma ideia que parecia funcionar no papel podia revelar outra realidade ao encontrar a interpretação dos músicos, as improvisações dos solistas e a resposta do público. Da mesma forma, uma interpretação podia trazer possibilidades que eu não havia antecipado durante a composição.
Esse ciclo tornou a Orquestra Urbana parte importante da minha formação prática. Além de desenvolver a escrita para grandes grupos, precisei aprender a preparar materiais, conduzir ensaios, tomar decisões em tempo real e transformar aquilo que ouvia em novas versões das obras.
Pelos Ares e a Consolidação do Projeto
Pouco tempo depois do concerto de estreia surgiu uma oportunidade que mudaria o rumo da Orquestra Urbana. O projeto foi selecionado em um edital do ProAC (Programa de Ação Cultural, mecanismo de fomento do Governo do Estado de São Paulo), o que viabilizou a gravação do primeiro álbum da Orquestra Urbana.

Em vez de entrar diretamente em estúdio, desenvolvemos o repertório durante alguns meses de ensaios e apresentações. Nesse período, as obras continuaram mudando, as interpretações evoluíram e as contribuições dos músicos passaram a integrar de maneira mais profunda a identidade do projeto.
Quando entramos no Estúdio Sincopa, em 2015, as músicas já carregavam a experiência acumulada desses encontros. A gravação não representava o começo do processo, mas a consolidação de um repertório que havia sido trabalhado coletivamente.

Pelos Ares documentou um momento específico da minha trajetória e da identidade que a Orquestra Urbana começava a desenvolver. O álbum reuniu músicos como Brian Lynch, John Daversa, Phil Doyle, André Mehmari, Nailor Azevedo “Proveta” e Paulo Braga, ao mesmo tempo que deu forma fonográfica ao processo coletivo iniciado nos primeiros encontros em Campinas.

O Desafio de Continuar
Quando a Orquestra Urbana surgiu, em 2014, minha atenção estava voltada para a criação de relações com os músicos e para a possibilidade de fazer aquele primeiro concerto acontecer.

A gravação do álbum, as apresentações seguintes e as novas composições ampliaram gradualmente o projeto. Sua continuidade não resultou de um plano previamente definido, mas da possibilidade de retomar o repertório e mobilizar novamente os músicos quando novas oportunidades surgiam.
Esse processo sempre envolveu limitações financeiras, espaços de ensaio, agendas de quase vinte pessoas e mudanças na vida profissional dos participantes. Como eu já vivia fora do Brasil, cada nova etapa também exigia planejamento à distância, deslocamentos e a participação de colaboradores presentes no cotidiano da cena musical paulista.
Ao longo dessas diferentes fases, alguns músicos permaneceram por muitos anos, enquanto outros participaram de momentos específicos. Em todos os casos, a continuidade da orquestra dependeu de pessoas dispostas a investir tempo, energia e interesse em um projeto que não se justificava apenas por razões práticas.

Essa disponibilidade permitiu que a Orquestra Urbana se desenvolvesse como uma comunidade artística interessada em explorar o repertório coletivamente, mesmo quando as condições não permitiam manter um calendário contínuo de atividades.
A Retomada e Um Novo Ciclo
Depois da gravação de Pelos Ares e dos projetos realizados nos anos seguintes, a atividade da orquestra naturalmente diminuiu de intensidade. Minha vida havia mudado, eu já estava estabelecido em Nova York e novos projetos profissionais passaram a ocupar um espaço crescente na minha rotina. Ao mesmo tempo, a própria dinâmica de uma big band faz com que seja difícil manter uma atividade contínua sem uma estrutura institucional permanente.
Mais tarde veio a pandemia, interrompendo apresentações, ensaios e praticamente toda atividade presencial ligada a grandes formações.
Quando a orquestra começou a retomar suas atividades de maneira mais consistente, a partir de 2023, tive uma sensação curiosa. Muitas coisas permaneciam familiares. Alguns dos músicos que participaram dos primeiros anos continuavam presentes, certas características da sonoridade da banda permaneciam e a lógica de trabalho seguia parecida. Ao mesmo tempo, era claramente um novo momento.


Novos músicos passaram a integrar o grupo, novas obras começaram a entrar no repertório, novos projetos surgiram e eu próprio já não era o mesmo compositor que havia escrito aquelas primeiras peças em 2014.
A retomada também reativou uma dimensão menos visível de um projeto autoral como esse. Saber que existe um grupo capaz de receber novas obras, músicos interessados em desenvolvê-las e apresentações nas quais elas poderão ganhar vida cria um horizonte concreto para a escrita. A Orquestra Urbana não era apenas um destino para músicas que eu já havia composto. A expectativa de reencontrar os músicos e construir novos repertórios com eles também funcionava como um motor para continuar criando.
Essa nova fase ganhou forma em projetos e apresentações realizados em diferentes contextos, entre eles o SP Instrumental, a Sociedade Hípica de Campinas e a Sala São Paulo. Também fazem parte desse período a atuação da Orquestra Urbana como grupo-base da segunda edição da série Concertos Contemporâneos, no Sesc Pinheiros, e as sessões de gravação do novo álbum.
Embora o contexto fosse novo, a retomada preservou a função central da orquestra como espaço de desenvolvimento do repertório. Muitas obras do segundo álbum passaram por ensaios, apresentações públicas e revisões antes de chegar às versões registradas, permitindo que a nova fase desse continuidade ao processo iniciado nos primeiros anos do projeto.
O Que a Orquestra Urbana Representa Hoje
Quando penso na Orquestra Urbana hoje, tenho dificuldade de defini-la apenas como uma banda. Ao longo dos anos, ela acabou se tornando uma parte importante da maneira como desenvolvo meu trabalho artístico.

Muitas ideias surgidas durante meus estudos nos Estados Unidos encontraram na Orquestra Urbana um espaço de experimentação, enquanto a convivência com músicos brasileiros continuou trazendo referências, repertórios e formas de pensar que dificilmente teriam aparecido em outro contexto.
A orquestra tornou-se, assim, um ponto de encontro entre diferentes partes da minha vida artística: o Brasil e os Estados Unidos, a música brasileira e a escrita contemporânea para grandes grupos, o planejamento detalhado da composição e a liberdade criativa dos músicos que interagem com esse material.
Depois de mais de uma década, continuo retornando ao projeto pela possibilidade de ouvir uma ideia adquirir uma forma coletiva, ser transformada pelos intérpretes e produzir algo que nenhum de nós construiria sozinho.

Essa é a resposta mais direta para a pergunta que deu origem ao texto. Criar uma big band autoral nunca foi uma decisão baseada em eficiência, mas no valor de manter um espaço no qual determinadas experiências musicais pudessem se desenvolver com continuidade. A Orquestra Urbana nasceu desse desejo, e cada novo repertório dá continuidade ao processo coletivo que motivou sua criação.
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Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.





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