O Que Aprendi Trabalhando com Chick Corea Sobre Criatividade e Colaboração Musical
- Rafael Piccolotto de Lima

- 25 de dez. de 2022
- 7 min de leitura
Atualizado: há 11 horas
Certos momentos da nossa vida nos marcam e geram reflexões profundas sobre nossa jornada. Em 2013 eu tive um desses momentos e aprendi uma grande lição com Chick Corea.
Se você é um músico ou apreciador de jazz, você provavelmente sabe da importância dele: um dos maiores pianistas improvisadores do século XX. Ganhador de 27 Grammy Awards, com lugar reservado na maioria dos livros de história do jazz.
Eu tive a oportunidade de escrever para ele em um concerto. Essa apresentação em Miami depois virou um álbum e se desdobrou para um programa de televisão aqui nos Estados Unidos, na PBS (equivalente a TV Cultura no Brasil). Mais do que os créditos adicionais que ficam bonitos no currículo, a possibilidade de estar junto ao Chick Corea, foi um marco na minha vida.

Mais do que uma oportunidade de escrever para um dos maiores nomes da história do jazz, essa experiência me ensinou algo sobre criatividade e colaboração musical. Ao observar como Chick Corea reagiu a um arranjo que reinterpretava profundamente uma de suas obras mais conhecidas, aprendi uma lição sobre abertura artística, confiança criativa e construção coletiva de ideias que continua influenciando meu trabalho até hoje.
Venha comigo nesta viagem no tempo. Entenda a importância deste episódio para minha carreira e como essa experiência moldou minha visão sobre criatividade, colaboração e generosidade musical.
A primeira vez a gente nunca esquece
Ao longo da minha vida eu tive a oportunidade de escrever para vários grupos musicais, desde grupos de estudantes amadores, até grupos de músicos profissionais do mais alto nível, a exemplo da BMI New York Jazz Orchestra, Brasil Jazz Sinfônica e a Metropole Orkest (na Holanda), e de nomes como Brad Mehldau, Gregory Porter, Ivan Lins, Proveta e Romero Lubambo, só para citar alguns.
Entre as ocasiões de maior portfólio, consideradas mais importantes, uma das primeiras delas foi escrever para o Chick Corea. Lembro que na época, quando apareceu esta oportunidade, eu quase chorei de alegria em imaginar a realização deste sonho, que é escrever para uma das lendas do jazz.
Do estudante que tocava Spain ao arranjador do concerto
Lembro que quando comecei a estudar música, tinham músicas do Chick Corea no famoso livro das partituras de clássicos do jazz, o Real book. Antes mesmo de entrar na faculdade eu toquei uma de suas peças, talvez a mais conhecida: Spain.
E como se fosse ontem, me recordo de pensar “nossa, esta música é desafiadora”. E, acreditem! Foi essa mesmo que tive a responsabilidade de arranjar anos depois. Estar na posição de trabalhar com este artista e escrever para este concerto foi indescritível; um momento de muita felicidade, mas também de muita responsabilidade. Afinal, era hora de fazer bem-feito!

O desafio de rearranjar uma obra de Chick Corea
Naquela época eu era relativamente novo, tinha por volta dos meus 28 anos. Estava em um momento de muita experimentação, e decidi correr um risco, confiando no meu instinto. Fui um tanto quanto ousado no meu arranjo, principalmente a considerar que era um arranjo justamente para a música Spain, a mais famosa do Chick Corea. Escrevi uma suíte orquestral, incluindo um trecho do Concerto de Aranjuez (concerto de origem espanhola, originalmente para violão, que o Chick Corea geralmente usa como introdução para a música dele).
Eu fiz um arranjo extenso, me apropriando dos elementos musicais dos originais, e os reapresentando de uma maneira diferente. O arranjo começa com uma sessão de solo improvisado do Chick Corea. Logo, a orquestra entra tocando uma variação lenta de um trecho de Spain, seguindo para uma re-orquestração do Concerto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo. Na sequência, o tema é transportado para um universo noir, que faz uma referência ao trabalho do grande arranjador Gil Evans, nos anos 50 e 60, com vocabulário harmônico modal cheio de dissonâncias. Isso até chegar no tema propriamente dito: Spain. Nessa última parte, eu trago à tona elementos de samba e habanera. No total, são cerca de 15 minutos.
Por ter sido tão ousado, eu poderia ter sido recusado, não ter dado certo ou qualquer coisa nesse sentido. Mas, aí vem a lição!
O ensaio e a conversa com Chick Corea
Primeiro mandei a partitura e um mockup (gravação de referência com sons sequenciados no computador) para ele e o produtor do show ouvirem. Para minha alegria o arranjo foi aprovado. Preparei todas as partituras e incluí nas pastas dos músicos da orquestra do Henry Mancini Institute (na época eu era maestro assistente da orquestra e uma das minhas responsabilidades era supervisão do arquivo musical, além da preparação de partituras para os concertos).
O Henry Mancini Institute reunia estudantes e jovens profissionais em projetos com alguns dos principais artistas convidados da música instrumental, do jazz e da música de concerto, criando um ambiente de colaboração artística de altíssimo nível.

Poucos dias depois chegou o grande momento. Me lembro vividamente! Estávamos no Adrienne Arsht Center for the Performing Arts - uma sala de concerto maravilhosa em Miami - para o ensaio com a orquestra e os solistas: Chick Corea, Terence Blanchard e Eric Owens. Quando começou, Chick Corea que estava sentado ao piano, disse que gostaria só de ouvir na primeira passagem e não iria tocar. Depois disso, ele me chamou para uma breve conversa ao piano (veja o exato momento na foto acima). Me perguntou sobre a construção da peça e o que eu havia pensado em cada ponto. Enfim, era a música dele, ele era a celebridade do evento, além de uma lenda do jazz. E quem era eu naquele cenário, “reinventando a roda”?
O que mais me chamou a atenção naquele momento foi o interesse genuíno pelo processo. Em vez de defender uma versão “correta” da própria música ou questionar por que eu havia tomado determinados caminhos, ele procurou entender a lógica por trás das escolhas.
Ele teve uma postura muito generosa de ouvir sobre minha linha de raciocínio e depois, em cima dela, brilhar como pianista. Fazer o que os grandes gênios da música conseguem fazer: pegar uma idéia e transformar em algo muito maior. Para minha alegria, a apresentação foi gravada e você pode conferir abaixo.
O que aprendi sobre criatividade e colaboração musical
Isto tudo foi, para mim, uma lição de generosidade, inclusive em comparação com outras oportunidades que tive como arranjador para artistas famosos. Um contraponto com outras experiências profissionais que tive ao longo da carreira. Algumas destas experiências não foram exatamente tão agradáveis, quanto mais inspiradores. Alguns artistas chegaram a questionar - e pedir para mudar - pequenos detalhes de arranjos que eu fiz, travando o processo.
Chick Corea, que vai ficar para a história como um dos grandes pianistas, compositores e improvisadores do século XX e XXI, teve a generosidade de aceitar minhas ideias e colaborar comigo. Eu transformei a música dele em outra coisa e ele pegou meu arranjo e deu a voz dele.
Essa generosidade musical é algo que tento levar para mim. É algo que observo em muitos dos grandes músicos com quem trabalho, músicos que são grandes improvisadores, grandes criadores musicais. São pessoas que são tão confiantes no que são capazes de fazer e têm a segurança para se abrir para coisas novas, coisas diferentes.
Acho que é isso que faz com que essas pessoas sejam tão criativas. Elas estão abertas a ouvir, aprender e experimentar coisas novas. Estão sempre em evolução. E isto também cria um ciclo bonito entre as pessoas. Algo que me remete a um conceito que atores aqui nos Estados Unidos conhecem bem. É como o “yes and” ou “sim e...”, quando eu aceito o que você está falando e falo outra coisa que vai dar prosseguimento a essa ideia.
Olhando para trás, essa talvez tenha sido uma das maiores lições daquele encontro. A criatividade não acontece apenas quando temos boas ideias. Ela também depende da capacidade de ouvir, desenvolver e dar continuidade às ideias que vêm de outras pessoas.
Quer saber como eu cheguei a ter oportunidades musicais desse porte? Eu te conto no artigo: Transforme pequenos projetos artísticos em grandes oportunidades.
Contexto do projeto
Ano: 2013
Instituição: Henry Mancini Institute
Local: Adrienne Arsht Center, Miami
Solistas convidados: Chick Corea, Terence Blanchard e Eric Owens
Papel de Rafael Piccolotto de Lima: arranjador e maestro assistente
Obra: Spain (suíte orquestral de aproximadamente 15 minutos)
Continue Explorando
→ Nos Bastidores de Jazz and the Philharmonic: Escrevendo para Chick Corea, Terence Blanchard e Eric Owens
Um relato sobre o concerto que reuniu Chick Corea, Terence Blanchard, Eric Owens e a orquestra do Henry Mancini Institute, incluindo os bastidores da criação e preparação dos arranjos.
Uma reflexão sobre identidade artística, linguagem musical e a construção de uma trajetória que transita entre diferentes tradições e formas de criação.
Sobre originalidade, influência e os caminhos que levam alguns criadores a desenvolver uma voz musical reconhecível ao longo do tempo.
Uma reflexão sobre como repertório, visão artística e projetos autorais podem influenciar os rumos de uma carreira musical.
Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.


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