Por que Orquestras Tocam Apenas Compositores Mortos?
- Rafael Piccolotto de Lima

- 5 de abr. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: há 13 horas
Já se perguntou por que a maioria das Orquestras Sinfônicas toca predominantemente obras de compositores que já não estão entre nós?
Onde estão os novos compositores e suas criações no repertório orquestral?
Embora novas obras continuem sendo compostas todos os anos, a maioria das orquestras dedica grande parte de sua programação ao repertório histórico. Questões financeiras, institucionais, artísticas e culturais ajudam a explicar por que compositores vivos ocupam uma parcela relativamente pequena do repertório orquestral contemporâneo.

Essa é uma pergunta que me fiz muitas vezes, especialmente durante meus anos de universidade, enquanto estudava composição de música erudita.
Com o tempo, fui entendendo melhor alguns dos principais motivos que explicam essa tendência.
Aqui estão seis pontos para entendermos melhor esse cenário e, no final, uma sugestão para programadores e compositores que querem trazer vida nova à música orquestral.
A Questão Financeira e os Direitos Autorais
Uma das razões mais simples, mas impactantes, é o custo envolvido. Orquestras muitas vezes evitam tocar obras de compositores vivos porque precisam pagar direitos autorais por essas execuções. Além disso, em alguns casos, é possível (e necessário) encomendar obras inéditas, o que aumenta ainda mais os custos.
Esse argumento, embora tenha alguma base financeira, parece contraditório quando consideramos que os valores para encomendar novas obras ou pagar direitos são relativamente pequenos em comparação com o orçamento total de uma orquestra. Ao limitar-se a obras de domínio público, as orquestras perdem a chance de incentivar novos compositores, renovando o repertório e, consequentemente, aumentando sua relevância e atraindo novos públicos.
O Distanciamento Histórico entre Compositores e Público
Durante a primeira metade do século XX, muitos compositores se distanciaram do gosto popular ao criar obras altamente experimentais e intelectuais. Essa produção, muitas vezes cerebral e abstrata, dificultou a conexão do público com a música orquestral da época, afastando-o das obras dos novos compositores. De certa forma, essa prática ainda persiste em grande parte dos círculos da música de concerto contemporânea.
Esse distanciamento contribuiu para que as orquestras passassem a dar preferência a repertórios de épocas anteriores, quando as obras eram mais "palatáveis" para o público geral.
Se olharmos para o passado, a dinâmica era totalmente diferente: as orquestras costumavam tocar composições dos criadores da época, como Beethoven, Mozart e outros. As orquestras eram um veículo do que havia de novo no universo musical. Hoje, esse ciclo foi interrompido.
Ao longo da minha trajetória como compositor, arranjador, maestro e diretor musical, acompanhei de perto essa tensão entre tradição e renovação em diferentes instituições e projetos orquestrais.
A Preferência do Público e dos Músicos
O público que frequenta concertos orquestrais muitas vezes espera ouvir os “clássicos” – obras que resistiram ao tempo e se tornaram icônicas. Essa expectativa também se reflete nos próprios músicos, que podem mostrar resistência em executar obras contemporâneas ou estéticas musicais diferentes dos períodos como Barroco, Classicismo, Romantismo, ou movimentos que ainda mantinham alguma conexão com o tonalismo, como o Impressionismo.
Essa preferência coloca uma barreira significativa para programadores que desejam incluir novas obras em seus programas. Afinal, tocar o que é conhecido garante uma recepção mais segura, tanto pelos músicos quanto pela plateia.
A Necessidade de Aprender Músicas Novas
Tocar obras que já foram amplamente estudadas e interpretadas é, em geral, muito mais fácil do que aprender músicas novas — especialmente aquelas que ainda não têm gravações de referência e apresentam elementos inéditos.
Peças que exploram novas linguagens musicais ou técnicas estendidas nos instrumentos impõem desafios adicionais à performance, exigindo mais tempo de estudo para garantir uma apresentação satisfatória.
Essa exigência extra pode ser encarada por alguns músicos e maestros como algo estimulante e enriquecedor. Por outro lado, aqueles que preferem não sair da zona de conforto podem enxergar isso apenas como “mais trabalho” — algo a ser evitado.
A Insegurança dos Programadores
Maestros e diretores musicais tendem a seguir caminhos mais seguros dentro do meio orquestral. Programar obras consagradas de compositores como Beethoven, Mozart, Mahler e Brahms é uma escolha que dificilmente será questionada. Incluir obras de compositores vivos e ainda não consagrados, no entanto, é um risco, e muitos programadores preferem evitá-lo.
Quando esse risco é tomado, geralmente ocorre de maneira esporádica, com a nova obra “pareada” com outras peças icônicas do repertório. Assim, a falta de ousadia acaba perpetuando o ciclo de repetição, limitando o espaço para novas obras e compositores.
Como muitas novas obras surgem através de encomendas realizadas por orquestras, festivais, universidades ou instituições culturais, as decisões dos programadores influenciam diretamente quais compositores terão oportunidades de desenvolver novos trabalhos.
A Crise de Identidade da Orquestra Contemporânea
Hoje, a orquestra funciona mais como uma instituição-museu, dedicada a preservar o passado, do que como um organismo vivo que aponta para o futuro. Esse dilema de identidade faz com que a orquestra, como instituição, se afaste das novas criações e do cenário musical contemporâneo.
Discuto essa questão com mais profundidade em O Que Significa Compor para Orquestra Hoje?, onde analiso como novas obras surgem, circulam e encontram espaço dentro do ecossistema orquestral contemporâneo.
Enquanto outros gêneros musicais, como o jazz ou a música popular, continuam a se reinventar, a orquestra permanece estagnada, limitada às mesmas obras de sempre. Isso levanta a pergunta: qual é o verdadeiro papel da orquestra na sociedade contemporânea?
Quebrar esse padrão exige coragem, pois mudar a direção de instituições tão grandes e rígidas pode ter sérias consequências, tanto para os programadores quanto para a própria reputação da orquestra.
Como os Compositores Podem Navegar Esse Cenário?
Diante desse contexto, o que resta para os compositores que desejam criar para orquestra? A resposta está em buscar caminhos que conversem com o universo orquestral, mas que também tragam influências culturais contemporâneas.
Inspirar-se em movimentos populares atuais, como Stravinsky fez no início do século XX ao incorporar canções folclóricas em A Sagração da Primavera, pode ser uma maneira eficaz de dialogar com a tradição sem deixar de inovar. Villa-Lobos seguiu um caminho semelhante, assim como Tom Jobim — sim, Tom Jobim também escreveu obras para orquestra sinfônica, que a maioria das pessoas desconhece.
Eu também busco influências na música popular brasileira e no jazz para trazer uma nova abordagem ao universo orquestral. Grande parte da minha criação musical reflete esse caráter híbrido, incorporando diferentes gêneros e tradições na busca de algo novo e pessoal.

Além disso, sempre fui proativo — um produtor dos meus próprios projetos —, criando oportunidades para compor e apresentar minhas obras até ser reconhecido por instituições e orquestras maiores.
Duas Sugestões para o Futuro da Música Orquestral
Aos criadores musicais, minha sugestão é simples: não fiquem esperando as oportunidades baterem à porta, porque elas dificilmente vão bater! Desenvolva seu trabalho com grupos menores e independentes e estabeleça-se como compositor, provando sua capacidade e cultivando o interesse dentro do meio musical erudito. Adicionalmente, relacione-se diretamente com os programadores, curadores e maestros. O relacionamento pessoal é uma chave importante para ter suas obras executadas, especialmente em um ambiente tão fechado como o universo orquestral.
Aos programadores e curadores de orquestras, o pedido é claro: arrisquem mais. Há uma necessidade urgente de renovação no repertório orquestral, não apenas para atrair novos públicos, mas também para incentivar a criação de novas obras e compositores. Ao tocar música nova, vocês estarão ajudando a arte a se reinventar e a orquestra a manter sua relevância no cenário contemporâneo.
A música sempre se renovou ao longo dos séculos, e a orquestra não pode ser uma exceção. Está na hora de sairmos do museu e caminharmos em direção ao futuro.
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Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.


Concordo com todos os motivos que o maestro apontou em sua excelente análise. A sua pergunta "qual é o verdadeiro papel da orquestra na sociedade" é a questão primordial. Temos várias orquestras públicas (sinfônicas) e outras sustentadas por patrocinadores no Brasil. O custo de uma orquestra é maior do que as receitas geradas por ingressos vendidos nas suas apresentações. A mesmice das obras executadas não atrai o grande público. Somente a inovação musical das orquestras poderá atrair novos apreciadores da música de qualidade que a música orquestral proporciona. O maestro está no caminho certo!