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O Que Aprendi Participando da Comunidade de Compositores de Jazz de Nova York

Uma das maiores dificuldades de quem escreve para big bands e jazz orchestras não é compor.


É conseguir ouvir a própria música.


Diferentemente de formações menores, big bands, orquestras de jazz e outras grandes formações exigem dezenas de músicos, ensaios, espaços adequados, recursos financeiros e uma enorme coordenação logística. Muitas vezes um compositor passa meses desenvolvendo uma obra que será apresentada apenas uma vez. Em alguns casos, ela nunca chega a ser executada.


Foi justamente essa realidade que despertou meu interesse, ainda durante os anos de graduação na Unicamp, por uma comunidade específica de compositores que vinha desenvolvendo novas possibilidades para a escrita para big bands e orquestras de jazz em Nova York.


Na época, eu passava boa parte do meu tempo ouvindo gravações, estudando arranjos, analisando composições e tentando entender como diferentes artistas construíam suas linguagens.


Entre as referências que mais me influenciaram estavam Maria Schneider, Wynton Marsalis, Jim McNeely, John Hollenbeck e Alan Ferber. Cada um deles apresentava uma visão diferente sobre o que uma big band contemporânea poderia ser.


Ao mesmo tempo, comecei a acompanhar compositores de uma geração um pouco mais próxima da minha, como Darcy James Argue, Pedro Giraudo e Miho Hazama. O que me chamava atenção naquele trabalho era a sensação de que novas linguagens estavam surgindo dentro de um universo que muitas vezes é visto apenas através da tradição.


Naquele momento eu observava tudo à distância.


Conhecia os discos, acompanhava as obras e reconhecia os nomes. Mas ainda não conhecia a comunidade que tornava aquele trabalho possível.


O Que Existe Por Trás dos Concertos


Quando pensamos em uma cena musical, normalmente prestamos atenção aos álbuns, aos concertos e aos artistas. O que raramente aparece são as relações, iniciativas, instituições e pessoas que tornam esses projetos possíveis.


Essa percepção se tornou muito clara para mim depois da mudança para Nova York.


A maior parte dos compositores que atuam nesse universo não passa os dias frequentando concertos ou participando de encontros constantes. Na realidade, o cotidiano costuma ser bastante solitário. A maior parte do trabalho acontece em estúdios, apartamentos, salas de ensaio ou diante de um computador.


Compor, organizar projetos, captar recursos, produzir apresentações e encontrar oportunidades para que novas obras sejam executadas costuma exigir anos de trabalho individual.


É justamente por isso que esses encontros acabam se tornando memoráveis. Eles interrompem, ainda que por algumas horas, um trabalho que normalmente acontece de forma bastante solitária.


Uma Comunidade Construída por Quem Participa Dela


Uma das coisas que mais me impressionou ao longo dos anos foi perceber que grande parte das oportunidades não surge espontaneamente.


Elas são criadas pelas próprias pessoas que fazem parte daquele universo.


Algumas dessas iniciativas vêm de instituições.


Outras nascem diretamente da ação dos próprios compositores.


A BMI Jazz Composers Workshop é um exemplo importante.



Ao longo de décadas, o programa criou um ambiente raro onde compositores podem desenvolver novas obras, participar de discussões criativas e ouvir regularmente suas músicas sendo executadas por uma big band profissional. Para quem escreve para big bands, orquestras de jazz e outras grandes formações, esse tipo de oportunidade é extremamente valioso.

Mas existem também iniciativas criadas pelos próprios artistas.


Pouco depois da minha mudança para Nova York, desenvolvi ao lado do saxofonista, compositor e arranjador Lívio Almeida um projeto chamado Mó Collective.


Nossa ideia era criar um espaço dedicado à música brasileira para big band dentro da cena nova-iorquina. Além de apresentar repertório original, o grupo funcionava como um ponto de encontro entre músicos interessados em explorar novas possibilidades para grandes formações a partir de referências brasileiras.


Anos mais tarde, participei também da criação do New York Jazz Composers Mosaic ao lado das compositoras Jihye Lee e Migiwa Miyajima.


O projeto reunia artistas com linguagens bastante diferentes, mas que compartilhavam um mesmo desafio: encontrar oportunidades para apresentar música autoral para grandes formações em uma cidade onde esse tipo de produção exige enorme esforço de organização.


Projetos como esses surgem porque seus participantes acreditam que essa música merece continuar encontrando espaço para existir.



Compartilhando Referências, Ideias e Inspirações


Ao longo dos anos, passei a encontrar com frequência nomes que antes conhecia apenas através de gravações, concertos ou recomendações de outros músicos. Remy Le Boeuf, Erica Seguine, Rin Seo, Michael Dudley, Joseph Herbst, Jihye Lee, Migiwa Miyajima e vários outros compositores estavam desenvolvendo projetos próprios, enfrentando desafios semelhantes e procurando maneiras diferentes de continuar criando música para grandes formações.


Nem todas essas relações se transformaram em colaborações. Muitas permaneceram na forma de conversas depois de concertos, encontros ocasionais ou admiração mútua pelo trabalho que cada um vinha desenvolvendo.


Lembro de uma noite no Birdland durante uma apresentação da Maria Schneider Orchestra.


Sentados na mesma mesa estavam Erica Seguine, Remy Le Boeuf, Rin Seo, Migiwa Miyajima, Michael Dudley e outros compositores da cena. Enquanto o concerto acontecia, as conversas giravam em torno da música que estávamos ouvindo, de projetos em andamento, de gravações recentes e de compositores que admirávamos.


Anos antes, durante meus estudos na Unicamp e posteriormente no doutorado, eu havia dedicado inúmeras horas à escuta, análise e pesquisa da obra da Maria Schneider. Ela se tornaria uma das artistas entrevistadas e analisadas em minha tese, além de uma figura presente em diferentes momentos da minha formação através do trabalho desenvolvido junto ao Henry Mancini Institute e à University of Miami.



Naquela noite eu estava em Nova York assistindo ao concerto ao lado de compositores que também participavam daquele universo criativo. Em uma mesma mesa estavam artistas cuja música eu havia estudado durante anos, colegas de geração e uma comunidade artística que durante muito tempo conheci apenas através de discos, partituras, concertos e gravações.


O Papel da Liderança Artística


Outra coisa que aprendi observando essa comunidade é a importância das pessoas que assumem a responsabilidade de criar oportunidades para os outros.


Um exemplo que sempre me chamou atenção foi Miho Hazama.


Foi através do trabalho de Miho Hazama como curadora do Jazz Composers Showcase que recebi o convite para participar da série. Além de sua atuação como compositora, arranjadora e diretora musical, ela assumiu um papel ativo na criação de oportunidades dedicadas à apresentação de novas obras para big band em Nova York.


Foi ela quem organizou e conduziu as edições do Jazz Composers Showcase da Jazz Gallery das quais participei.


A proposta da série era simples e poderosa.


Uma orquestra formada por alguns dos principais músicos ligados ao universo das big bands em Nova York era colocada a serviço da música de diferentes compositores convidados.


Em vez de cada artista precisar produzir sozinho um concerto completo para apresentar suas obras, o Showcase criava uma plataforma compartilhada capaz de transformar ideias escritas em experiências musicais reais.


Para quem escreve para big bands e orquestras de jazz, isso tem um valor enorme.


Do Ouvinte ao Participante


Participei do Jazz Composers Showcase pela primeira vez em 2022.


Dois anos depois, fui convidado a retornar para a edição comemorativa de dez anos da série, que reuniu compositores que haviam participado do projeto ao longo de sua trajetória.


O que tornou essas experiências especiais para mim não foi apenas a oportunidade de apresentar minha música.


Foi perceber que eu havia passado a fazer parte de uma comunidade artística que admirava muito antes de me mudar para Nova York.


Quando pensamos em jazz orchestras e big bands, normalmente enxergamos os concertos, os discos e os nomes que aparecem nos cartazes. O que raramente aparece é a quantidade de trabalho necessária para que essa música continue existindo.


As leituras promovidas pela BMI Jazz Composers Workshop, os músicos que aceitam participar de projetos autorais, os compositores que organizam concertos para apresentar obras uns dos outros, as instituições que criam espaço para novas vozes e as pessoas que continuam investindo tempo e energia em uma música que dificilmente ocupará o centro da indústria cultural fazem parte dessa realidade.


Ao longo dos anos, encontrei tudo isso em diferentes formas: no Mó Collective, no New York Jazz Composers Mosaic, na BMI, na Jazz Gallery, nas conversas depois dos concertos e nas colaborações que surgiram pelo caminho.



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Sobre o Autor


Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.




Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador

 
 
 

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