O Que Aprendi Participando da Comunidade de Compositores de Jazz de Nova York
- Rafael Piccolotto de Lima

- 13 de jun.
- 9 min de leitura
Atualizado: 28 de jun.
Quando eu ainda morava no Brasil, imaginava Nova York principalmente como o lugar onde estavam alguns dos compositores de jazz cuja música eu mais admirava. Ouvia suas gravações, analisava partituras e procurava compreender como artistas como Maria Schneider, Jim McNeely, Alan Ferber, Pedro Giraudo e Darcy James Argue haviam desenvolvido linguagens tão particulares para big bands e orquestras de jazz.
Naquele momento, minha atenção estava voltada quase inteiramente para as obras. Eu queria entender como aquelas músicas eram escritas.
Depois da mudança para Nova York, passei a participar mais diretamente daquele ambiente e a conhecer de perto o funcionamento de muitos dos projetos, grupos e iniciativas que sustentavam essa produção. Aos poucos, ficou claro que a força daquela cena não estava apenas na qualidade dos compositores que atuavam nela, mas também no ecossistema construído ao redor dessa música. Instituições, séries de concertos, curadores, líderes de banda, músicos especializados nesse repertório e os próprios compositores ajudam continuamente a criar oportunidades para que novas obras sejam escritas, ensaiadas, apresentadas e continuem evoluindo.
Isso não significa que o processo seja simples. Mesmo em uma cidade que reúne alguns dos principais compositores, arranjadores e músicos desse universo, continuar escrevendo para big bands, orquestras de jazz e outras grandes formações permanece sendo um enorme desafio. Reunir quase vinte músicos, encontrar espaços para ensaiar, produzir concertos e criar oportunidades para que novas obras sejam apresentadas exige um esforço coletivo considerável. Talvez seja justamente por isso que esse ecossistema tenha um papel tão importante.
Foi observando esse funcionamento de perto que passei a refletir sobre como essas iniciativas contribuem para manter viva a criação de novas obras para grandes formações.
Muito Além dos Concertos e Gravações
Quando eu ainda acompanhava essa cena à distância, conhecia principalmente os discos, os concertos e o trabalho dos compositores.
Depois da mudança para Nova York, passei a conhecer as pessoas responsáveis por fazer essa música acontecer. Com isso, aquele ecossistema deixou de ser apenas algo que eu observava de fora e passou a fazer parte da minha própria experiência.


A maior parte dos compositores que atua nesse universo não passa os dias frequentando concertos ou participando de encontros constantes. O trabalho de criação costuma acontecer em momentos de dedicação individual, muitas vezes entre outras atividades profissionais. É em casa, diante do piano, de folhas de partituras ou do computador, que essas obras são desenvolvidas ao longo de semanas ou meses.
Compor, organizar projetos, captar recursos, produzir apresentações e encontrar oportunidades para que novas obras sejam executadas costuma exigir anos de trabalho individual.
É justamente por isso que esses encontros acabam tendo um significado especial. Eles reúnem, por algumas horas, pessoas que normalmente passam boa parte do tempo desenvolvendo seus projetos de forma independente.
Uma Comunidade Construída por Quem Participa Dela
Uma das coisas que mais me impressionou ao longo dos anos foi perceber que muitas das oportunidades para apresentar música autoral não surgem espontaneamente. Algumas são criadas por instituições dedicadas ao desenvolvimento desse repertório. Outras nascem da iniciativa dos próprios compositores, que organizam concertos, criam coletivos e desenvolvem projetos para que essa música continue encontrando espaço.
A BMI Jazz Composers Workshop é um exemplo importante.
→ Leia também: A BMI Jazz Composers Workshop e os Desafios de Desenvolver Música Autoral para Big Band

Ao longo de décadas, o programa criou um ambiente raro onde compositores podem desenvolver novas obras, participar de discussões criativas e ouvir regularmente suas músicas sendo executadas por uma big band profissional. Para quem escreve para big bands, orquestras de jazz e outras grandes formações, esse tipo de oportunidade é extremamente valioso.
A BMI é um exemplo importante de como esse tipo de oportunidade pode ser construído de forma institucional. Ao mesmo tempo, muitos compositores também criam seus próprios espaços de colaboração e apresentação, organizando concertos, formando coletivos e desenvolvendo projetos que ajudam a manter esse repertório em circulação.
Pouco depois da minha mudança para Nova York, desenvolvi ao lado do saxofonista, compositor e arranjador Lívio Almeida um projeto chamado Mó Collective.

Nossa ideia era criar um espaço para a música brasileira para big band dentro da cena nova-iorquina. Além de apresentar repertório original, o grupo funcionava como um ponto de encontro entre músicos interessados em explorar novas possibilidades para grandes formações a partir de referências brasileiras.

Anos mais tarde, participei também da criação do New York Jazz Composers Mosaic ao lado das compositoras Jihye Lee e Migiwa Miyajima.
O projeto reunia artistas com linguagens bastante distintas, todos enfrentando um mesmo desafio: encontrar oportunidades para apresentar música autoral para grandes formações em uma cidade onde esse tipo de produção exige enorme esforço de organização.


Tão importante quanto os concertos em si, iniciativas como essas ajudam a criar as condições para que novas obras continuem sendo escritas, ensaiadas e tocadas.
Por Que a Cena de Big Bands de Nova York Continua Produzindo Novas Linguagens?
A existência de uma comunidade tão ativa levanta uma outra questão interessante. Como uma mesma comunidade consegue permanecer tão diversa do ponto de vista artístico, produzindo compositores com linguagens tão diferentes entre si?
Parte da resposta está no próprio funcionamento dessa comunidade. Compositores, músicos, curadores, instituições e produtores convivem continuamente, compartilham ideias, criam projetos em conjunto e desafiam uns aos outros a expandir as possibilidades da escrita para big bands e orquestras de jazz.
Essa diversidade aparece com clareza quando se observa a produção dos próprios compositores que fazem parte dessa comunidade. Embora compartilhem muitas referências e convivam em um mesmo ambiente artístico, suas obras seguem direções muito diferentes.
Maria Schneider desenvolveu uma escrita marcada pelo lirismo, pelas grandes formas e por uma abordagem orquestral profundamente pessoal, dialogando com a tradição de Gil Evans e Bob Brookmeyer sem jamais soar como uma cópia de nenhum dos dois. Darcy James Argue aproximou a linguagem da big band de influências ligadas ao rock, à música contemporânea e a estruturas formais bastante elaboradas.
Pedro Giraudo construiu uma obra profundamente conectada à música argentina e ao tango. Miho Hazama, por sua vez, explora uma escrita de grande precisão orquestral que dialoga com a música de concerto, o jazz contemporâneo e influências vindas de diferentes tradições musicais.
Jim McNeely expandiu a tradição da Village Vanguard Jazz Orchestra através de uma escrita sofisticada, marcada por harmonias densas, clusters e um tratamento extremamente refinado da orquestração. Wynton Marsalis, por sua vez, demonstra como é possível manter uma ligação profunda com a tradição do jazz ao mesmo tempo em que continua produzindo novas obras e novos arranjos que mantêm essa linguagem viva.
Além dos compositores, os instrumentistas são uma parte fundamental desse processo. Um mesmo músico pode tocar, em poucos dias, um repertório profundamente lírico, uma obra influenciada pela música brasileira, uma composição inspirada no rock ou um programa inteiramente dedicado à tradição do jazz. Cada projeto exige novas soluções de leitura, sonoridade, articulação, improvisação e interpretação. Com o tempo, essa convivência desenvolve músicos capazes de transitar com naturalidade entre universos musicais bastante distintos.


Esse ambiente também cria um padrão de exigência artística muito elevado. Muitos músicos desejam participar justamente dos projetos mais criativos da cidade, o que faz com que desenvolver uma leitura sólida, ampliar constantemente seus recursos musicais e compreender novas linguagens deixe de ser apenas uma escolha pessoal e passe a fazer parte da própria vida profissional. Ao mesmo tempo, compositores sabem que suas obras serão interpretadas por músicos altamente preparados e discutidas por colegas profundamente familiarizados com esse repertório.
Esse processo acaba criando um ciclo contínuo de desenvolvimento. Quanto mais compositores escrevem obras originais, mais os músicos ampliam sua capacidade de interpretar novas linguagens. Quanto mais esses músicos evoluem, maiores se tornam as possibilidades para que novos compositores continuem experimentando. A própria comunidade passa a alimentar continuamente esse processo de inovação.
Essa combinação entre convivência, alto nível de exigência artística e circulação constante de ideias ajuda a explicar por que Nova York permanece sendo um dos lugares mais férteis para o desenvolvimento da música autoral para big bands e orquestras de jazz. É um ambiente que continua formando músicos, aproximando compositores e criando condições para que novas linguagens continuem surgindo.
Compartilhando Referências, Ideias e Inspirações
Passei a conhecer de perto uma geração de compositores que estava construindo seus próprios caminhos em Nova York. Remy Le Boeuf, Miho Hazama, Erica Seguine, Rin Seo, Michael Dudley, Joseph Herbst, Jihye Lee, Migiwa Miyajima e vários outros desenvolviam projetos autorais, enfrentavam desafios semelhantes e buscavam diferentes maneiras de continuar escrevendo para big bands e outras grandes formações.
Nem todas essas relações se transformaram em colaborações. Muitas permaneceram na forma de conversas depois de concertos, encontros ocasionais ou admiração mútua pelo trabalho que cada um vinha desenvolvendo.
Lembro de uma noite no Birdland durante uma apresentação da Maria Schneider Jazz Orchestra.
Sentados na mesma mesa estavam Erica Seguine, Remy Le Boeuf, Migiwa Miyajima, Meg Okura e eu. Antes e depois do concerto, as conversas passavam naturalmente pela música que havíamos acabado de ouvir, pelos projetos que cada um estava desenvolvendo, por novas composições e pelas diferentes maneiras de manter esses trabalhos em atividade.

Anos antes, durante meus estudos na Unicamp e posteriormente no doutorado, eu havia dedicado inúmeras horas à escuta, análise e pesquisa da obra da Maria Schneider. Ela se tornaria uma das artistas entrevistadas e analisadas em minha tese, além de uma figura presente em diferentes momentos da minha formação através do trabalho desenvolvido junto ao Henry Mancini Institute e à University of Miami.
Naquela noite eu estava em Nova York assistindo ao concerto ao lado de compositores que também participavam daquele universo criativo. Em uma mesma mesa estavam artistas cuja música eu havia estudado durante anos, colegas de geração e uma comunidade artística que durante muito tempo conheci apenas através de discos, partituras, concertos e gravações.
O Papel da Liderança Artística
Outra coisa que aprendi observando essa comunidade é a importância das pessoas que assumem a responsabilidade de criar oportunidades para os outros.
Um exemplo que sempre me chamou atenção foi Miho Hazama.
Foi através do trabalho de Miho Hazama como curadora do Jazz Composers Showcase que recebi o convite para participar da série. Além de sua atuação como compositora, arranjadora e diretora musical, ela assumiu um papel ativo na criação de oportunidades dedicadas à apresentação de novas obras para big band em Nova York.
Foi ela quem organizou e conduziu as edições do Jazz Composers Showcase da Jazz Gallery das quais participei.
A proposta da série era simples e poderosa.
Uma orquestra formada por alguns dos principais músicos ligados ao universo das big bands em Nova York era colocada a serviço da música de diferentes compositores convidados.

Em vez de cada artista precisar produzir sozinho um concerto completo para apresentar suas obras, o Showcase criava uma plataforma compartilhada capaz de transformar ideias escritas em experiências musicais reais.
Para quem escreve para big bands e orquestras de jazz, isso tem um valor enorme.
Do Ouvinte ao Participante
Participei do Jazz Composers Showcase pela primeira vez em 2022.
Dois anos depois, fui convidado a retornar para a edição comemorativa de dez anos da série, que reuniu compositores que haviam participado do projeto ao longo de sua trajetória.

Essas experiências foram especiais porque marcaram minha passagem de observador distante para participante de uma comunidade artística que eu admirava muito antes de me mudar para Nova York.
É fácil olhar para orquestras de jazz e big bands e enxergar apenas os concertos, os discos e os nomes que aparecem nos cartazes. O que raramente aparece é a quantidade de trabalho necessária para que essa música continue existindo.
As leituras promovidas pela BMI Jazz Composers Workshop, os músicos que aceitam participar de projetos autorais, os compositores que organizam concertos para apresentar obras uns dos outros, os curadores que desenvolvem séries dedicadas a novas composições e as instituições que criam espaço para novas vozes fazem parte da rede de pessoas e iniciativas que sustenta essa produção musical.
É essa rede de pessoas, projetos e instituições que mantém essa linguagem em constante transformação, permitindo que cada nova geração de compositores desenvolva uma voz própria sem romper o diálogo com a tradição.
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Sobre o Autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.











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