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Por que músicos se mudam para Nova Iorque?

Nova Iorque continua sendo uma das cidades mais desejadas do mundo para músicos e artistas. Mesmo em uma era marcada pelo trabalho remoto e pela comunicação digital, a cidade ainda concentra oportunidades, conexões, espaços culturais e uma circulação artística difícil de encontrar em qualquer outro lugar.


Mas afinal, o que faz tantos músicos quererem construir uma trajetória em NYC?



Há quem diga que NYC é a capital do mundo ocidental. Mas, por quê?


O que faz com que tantas pessoas sejam atraídas para cá? A realidade é que apesar de todo desenvolvimento tecnológico e todas as possibilidades do universo digital, a presença física ainda nos propicia uma série de experiências e oportunidades que não existem da mesma maneira no mundo online. E Nova Iorque é uma das cidades que mais oferecem opções nesse sentido.


Nova Iorque - assim como todos outros grandes centros urbanos e culturais do mundo - se apresenta como uma cidade muito interessante para todo tipo de gente. Especialmente para pessoas que querem fazer as coisas acontecerem!


Destaco aqui nesse blog quatro principais fatores que fazem de NYC um atrativo para músicos e artistas de todo tipo!



1 - Estar onde as coisas estão acontecendo


Ver e vivenciar; estar em Nova Iorque é estar presente onde as coisas estão acontecendo!


A criação artística está muito relacionada com a vivência que nós temos, com aquilo que nos cerca. O tipo de relação que temos com essa produção e o outros artistas também tem um grande peso. Assistir a um vídeo ou ouvir uma gravação finalizada à distância é bem diferente de presenciar e participar - mesmo que como platéia - daquele momento.


Vou utilizar um exemplo particular. Sou um grande admirador do trabalho da compositora Maria Schneider. Aqui, pude acompanhar a estreia de novas composições, além de conversar com ela após suas apresentações.


Veja aqui abaixo o print de uma série de stories do meu instagram de 2018, quando fui a um concerto dela no Birdland e pude participar, da plateia, sendo uma dos "passarinhos" da composição dela "Celurean Skies".



Em NYC é possível assistir a novas obras saindo do forno, muitas vezes quase como em um formato de pré-produção. Afinal, é sempre possível que o artista apresente novas composições e arranjos que estão sendo preparados para a gravação de álbum, por exemplo. Eu mesmo estou fazendo isso atualmente. Cada apresentação musical é um laboratório para testar novas criações e fazer revisões/edições de criações anteriores.


Músicos em Nova Iorque - Compositor Rafael Piccolotto de Lima

2 - Ser visto por outros músicos e produtores musicais


Além de ver as outras pessoas e vivenciar essa cena do ponto de vista de espectador, um grande atrativo da cidade é a possibilidade de também ser visto enquanto artista! Músicos em Nova Iorque têm - metaforicamente - um espaço de maior visibilidade na "vitrine mundial".


Vou retomar o exemplo anterior, da Maria Schneider. Depois de assistir ao show, pude conversar com ela e trocar experiências. Essa foi uma chance de me aproximar mais dela. Circunstâncias como essa, se feito da maneira correta, podem gerar oportunidades e possíveis projetos futuros.


A criação de arranjos para o álbum da Fleurine (cantora de jazz) é um bom exemplo de projeto que aconteceu em função de um desses encontros inesperados. Totalmente por acaso, eu acabei conhecendo ela no Nublu, uma casa de jazz e música alternativa no Lower East Side de Manhattan. Depois de conversarmos sobre assuntos diversos, descobrimos que alguns músicos que tocavam na minha orquestra de jazz também tocavam com ela em outro projeto. Pouco tempo depois ela entraria em estúdio para gravar um álbum dedicado a música brasileira e acabou me convidando para escrever dois arranjos para ela; um com adição de um quarteto de cordas, e outro com sopros. Ambas faixas também contaram com a participação do Brad Mehldau, seu marido e um dos grandes nomes do piano de jazz da atualidade.


Músicos em Nova Iorque - quarteto de cordas em estúdio
Gravação de quarteto de cordas para o album da Fleurine. Arranjo e regência: Rafael Piccolotto de Lima.

3 - Colaborar com músicos do mais alto nível


Em NYC você está cercado destes enormes talentos, pessoas com este ímpeto criativo e de realização. Pessoas com quem se pode colaborar e criar projetos em parceria. Isso é o que eu posso chamar de um “prato cheio”, porque tenho acesso a todos esses músicos para realizar os meus projetos.


Entendemos que tudo isso depende também de outros fatores, como cachê, viabilidade financeira e disponibilidade de tempo. E claro, o projeto precisa ser interessante para estes músicos. Mas, por estarmos no mesmo espaço físico, na mesma cena, tudo fica mais fácil. Essas possibilidades existem se soubermos nos posicionar e agirmos corretamente!


Músicos em Nova Iorque - Rafael Piccolotto de Lima e sua Orquestra de Jazz no Rockwood Music Hall
Rafael Piccolotto de Lima e sua Orquestra de Jazz no Rockwood Music Hall em Nova Iorque (2017).

4 - Realizar suas criações musicais


Estar cercado de tantos talentos - pessoas na mesma sintonia de realização - deixa o cenário extremamente favorável para aqueles que tomam a iniciativa e fazem acontecer.


NYC é também um lugar onde você pode ter acesso a um público qualificado e acostumado a ouvir música de todo tipo que não é mainstream (padrão e de modinha). É um lugar onde – se você estiver à altura e tomar as atitudes corretas – tudo é possível artisticamente.


Assista abaixo um video gravado em uma das minhas primeiras apresentações na cidade, em um espaço alternativo no Brooklyn que tinha uma programação com big bands e grandes grupos instrumentais toda segunda feira.



Um ciclo virtuoso


É interessante observar que todos estes pontos se retroalimentam. O fato de estar exposto a uma produção artística interessante nos gera ideias. Essas ideias nos impulsionam a conectar com outras pessoas. Ao nos conectarmos, vemos e somos vistos. A partir daí, há a possibilidade de surgir uma colaboração, que pode gerar um novo projeto. É um ciclo virtuoso para aqueles que querem criar e produzir.


Mais um exemplo pessoal


Para ilustrar estes pontos, trago outro exemplo pessoal. Vou contar sobre minha experiência com o BMI Jazz Composers Workshop; um coletivo de compositores que se reúnem semanalmente para discutir os trabalhos que estão realizando. Mensalmente, eles fazem uma sessão de leitura com uma big band com músicos requisitados da cena de jazz da cidade e, no final da primavera, algumas obras são selecionadas para um concerto.


Assista abaixo um video retratando um dia na minha vida, enquanto compositor aqui em Nova Iorque. Levo vocês comigo para um encontro e leitura de novos arranjos dos compositores de jazz da BMI com a big band.



Durante esta vivência toda, eu estive exposto a uma variedade de músicos de alto nível. Por dois anos consecutivos, tive criações minhas em sessões de leitura da big band da BMI, ou seja, minha criações foram ouvidas atentamente e analisadas por algumas dezenas de profissionais atuantes no mercado. Depois, tive a chance de concorrer a um espaço no concerto de final de ano e, felizmente, fui selecionado como um dos oito melhores trabalhos nos dois anos em que participei. Portanto, minhas obras também foram expostas à platéia e ao júri do concurso, que é formado por alguns dos profissionais mais reconhecidos do meio, tais como Jim McNeely, Alan Ferber e James Darcy Argue.


Tempos depois, criei um projeto com duas compositoras que conheci através desse workshop - uma da Coréia e outra do Japão -, e nós fizemos dois concertos em uma linda sala de concerto apresentando um repertório autoral nosso, com 18 músicos no palco. Isso foi, de certa maneira, reflexo desta experiência e conexões artísticas no BMI.


Eu poderia também citar outros tantos exemplos, como a oportunidade de me apresentar no Lincoln Center com Romero Lubambo (assista ao video abaixo).



De Nova Iorque para o mundo


Antes que qualquer pessoa se iluda achando que mudar para um cidade como NYC é uma pílula mágica, é importante também mencionar que isso tudo só aconteceu porque eu fui atrás do que queria. Me coloquei em uma posição ativa e estava preparado para estas oportunidades que se apresentaram no meu caminho. De nada adiantaria estar aqui vivendo tudo isso, se eu não tivesse as habilidades necessárias para realizar os projetos, não tivesse uma obra a ser apresentada para essas pessoas.


Estou preparando um breve guia para vocês que me acompanham e pensam em vir para Nova York (ou outras cidade com características parecidas). E já dou uma prévia: venham associados a alguma instituição de ensino que vai te dar suporte e oportunidades (o que foi meu caso em Miami), ou venham em um momento de vida em que você já tenha as habilidades musicais necessárias para aproveitar as oportunidades que podem aparecer. E o mais importante, venha preparado psicologicamente para sair da zona de conforto e fazer as coisas acontecerem!


Continue explorando


Uma reflexão sobre o papel de NYC como ponto de encontro entre artistas, produtores, instituições culturais e públicos de todo o mundo.


Uma análise dos fatores que continuam atraindo músicos e artistas para NYC, mesmo diante dos desafios e custos da cidade.


Compartilho minha experiência realizando mestrado e doutorado nos Estados Unidos com bolsa integral e algumas estratégias para quem pretende seguir um caminho semelhante.



Sobre o autor


Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.




Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador

 
 
 

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