Como Estudar Composição Musical? Lições de Mais de 20 Anos Como Aluno e Professor
- Rafael Piccolotto de Lima

- 31 de out. de 2022
- 6 min de leitura
Atualizado: há 17 horas
Como estudar composição musical?
Ao longo dos anos, essa foi uma pergunta que ouvi muitas vezes de alunos, músicos e compositores iniciantes. Curiosamente, ela também é uma pergunta que me acompanhou durante grande parte da minha própria trajetória.
O caminho do compositor pode ser muito solitário e frustrante, eu sei. Encarar uma folha em branco sem saber por onde começar pode ser muito desafiador. Começar a escrever e se questionar sobre a qualidade (e relevância) do trabalho pode ser paralisante. Não saber como continuar… Ou ainda pior, questionar se vale a pena continuar.
Passei por todas essas experiências.
Embora muitas pessoas hoje me conheçam principalmente na posição de professor, também passei mais de vinte anos na posição de aluno. Estudei composição com professores particulares, passei pela graduação na Unicamp, pelo mestrado e doutorado na Universidade de Miami e participei do grupo de compositores da BMI em Nova Iorque. Ao longo desse percurso, encontrei experiências transformadoras, mas também encontrei métodos, abordagens e formas de ensino que nem sempre me ajudaram a crescer da maneira que eu esperava.
Talvez você olhe para minha produção musical atual - com obras apresentadas em algumas das principais salas de concerto do mundo - e não imagine os desafios que passei ao longo dos anos estudando composição.
Por isso, neste artigo, quero compartilhar algumas das principais lições que aprendi estudando composição musical. Falo sobre experiências que tiveram um impacto profundo na minha formação, sobre erros que observei ao longo do caminho e sobre os elementos que hoje considero mais importantes para quem deseja se desenvolver como compositor.
Espero, através deste artigo, poder te ajudar a encontrar um caminho mais claro dentro do universo da criação musical.

Por Que Estudar Composição Pode Ser Tão Difícil?
Eu acredito que o estudo da composição - e tudo que envolve a área criativa - é uma das áreas mais difíceis de se ensinar, e ensinar bem.
É muito fácil se perder pelo caminho. O professor pode ficar preso a pequenos truques, querer ensinar fórmulas, focar em questões extremamente técnicas ou, no extremo oposto, permanecer em discussões excessivamente abstratas. Tudo isso pode levar a um processo de aprendizagem pouco efetivo.
Os Dois Extremos São Perigosos
De um lado, o ensino de composição pode ser abstrato demais. E, sendo abstrato, é muito difícil - especialmente para quem está entrando nesse universo criativo agora - conseguir dar os primeiros passos. Muitas vezes, o aluno tem dificuldade em desenvolver uma base que o ajude a começar a criar.
Ou, no lado oposto, há quem fique muito preso a conceitos extremamente técnicos, como detalhes de notação musical, orquestração, encadeamento de vozes ou progressão harmônica.
Tenho várias memórias (como aluno) de aulas onde o professor focava por horas em pequenos detalhes que pouco ajudavam a solucionar as dificuldades reais do processo criativo.
Esses detalhes podem ser importantes enquanto ferramentas para compositores, mas, em grande parte, não são os elementos mais importantes no ato da composição, especialmente para quem está começando.
Outra grande dificuldade é que o “fazer” - em certos cursos de composição - fica em segundo plano. O aluno permanece na posição de ouvinte e não coloca a mão na massa. Ele acaba virando um teórico da composição, mas não um compositor de verdade.
Se você não escreve, não compõe.
O desafio é encontrar o caminho do meio.
O Que Procuro Desenvolver em Meus Alunos
Ao longo dos anos, comecei a perceber que o objetivo do ensino de composição não deveria ser apenas transmitir técnicas, conceitos ou informações.
Essas ferramentas são importantes, mas fazem sentido apenas quando estão a serviço da criação.
Hoje, o que mais procuro desenvolver em meus alunos é a capacidade de criar de forma consistente. Isso envolve aprender a gerar ideias, organizar materiais musicais, tomar decisões artísticas, desenvolver repertório, concluir projetos e, gradualmente, construir uma voz própria.
Embora este artigo fale principalmente sobre composição, essa mesma lógica orienta grande parte do meu trabalho com arranjo e processos criativos. Afinal, em todos esses contextos o desafio central continua sendo o mesmo: transformar ideias em música de maneira consciente, consistente e pessoal.
A técnica faz parte desse processo. A teoria também. A análise, a escuta e o repertório igualmente. Ao longo da minha formação, estudei harmonia, contraponto, orquestração, análise musical e inúmeras outras ferramentas que continuam fazendo parte do meu trabalho até hoje. O desafio nunca foi escolher entre técnica e criatividade, mas aprender a colocar essas ferramentas a serviço da criação.
Mas nenhum desses elementos substitui a experiência de criar música regularmente e refletir sobre o próprio processo criativo.
Talvez a habilidade mais importante que um compositor possa desenvolver seja justamente aprender a continuar criando.
É exatamente isso que busco fazer no meu curso de Processos Criativos: focar nos elementos que mais fazem diferença na evolução de um compositor em potencial. Focar nos processos em si, de maneira prática e funcional.
O Que Aprendi Estudando Composição na Universidade de Miami
Algumas das minhas melhores experiências enquanto estudante de composição aconteceram durante meu período na Universidade de Miami, com meu orientador Gary Lindsay.

Ele me guiou por anos através de exercícios musicais práticos e projetos artísticos reais que me deram grandes oportunidades de desenvolvimento.
Cada semestre eu tinha uma série de projetos diferentes para trabalhar, seja a escrita para big band, orquestra sinfônica, coral, grupo de câmara ou qualquer outro grupo musical.
Toda semana tínhamos encontros para buscar referências, fazer análises e discutir técnicas ou conceitos.
Eu sempre estava na posição de criador, ativo.
Seja fazendo um pequeno exercício em cima de alguma técnica ou conceito específico que estávamos estudando, ou trabalhando em cima de uma obra nova a ser apresentada ou gravada em breve.
Tudo isso com feedback honesto e direto.
Esse foi um dos períodos em que mais cresci musicalmente durante a minha vida.
Além da Sala de Aula
Lembra que descrevi, em outro artigo, a importância da interação presencial nos cursos de música? Seja na sala de aula, na sala de prática ou no café dos intervalos?
Pois bem.
Outra coisa que agregou muito à minha trajetória foi ouvir outros compositores falarem sobre seus próprios processos criativos.
Dois exemplos especialmente importantes para mim foram Maria Schneider e Vince Mendoza.
Poder ouvir e analisar junto com eles as composições e arranjos que criaram foi extremamente enriquecedor.
Pude entender como e por que tomaram determinadas decisões composicionais. Tive a oportunidade de observar, na fonte, diferentes formas de pensar e desenvolver música.
Essas experiências não foram apenas inspiradoras. Elas também me permitiram incorporar conceitos, abordagens e perspectivas que passaram a fazer parte do meu próprio trabalho.

O Que Aprendi Estudando Composição
Olhando para trás, percebo que grande parte da minha trajetória foi uma tentativa contínua de entender como as pessoas aprendem a criar.
Algumas das experiências mais importantes que vivi aconteceram em salas de aula. Outras aconteceram em ensaios, workshops, projetos artísticos, conversas e encontros com músicos que admirava profundamente.
Muito do que compartilho hoje através do Criadores Musicais, das mentorias e do curso de Processos Criativos nasce justamente dessa busca.
Em certa medida, procuro oferecer aos meus alunos o tipo de orientação que eu gostaria de ter encontrado quando estava começando.
A composição continua sendo uma jornada cheia de perguntas. Mas algumas perguntas ficam muito mais fáceis de enfrentar quando encontramos bons professores, boas referências e uma comunidade de pessoas que também estão tentando criar algo significativo.
Leituras Complementares
Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.


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