Como Alimentar Sua Criatividade Musical?
- Rafael Piccolotto de Lima

- 30 de dez. de 2024
- 4 min de leitura
Uma das perguntas mais frequentes que recebo de alunos e músicos é como continuar criando ao longo do tempo sem cair na repetição.
Como encontrar novas ideias?
Como evitar escrever sempre as mesmas coisas?
Como manter a criatividade viva depois dos primeiros anos de estudo?
Ao longo da minha trajetória como compositor, arranjador e educador, percebi que existe um fator que influencia profundamente nossa capacidade de criar: a maneira como alimentamos nosso repertório, nossas referências e nossa curiosidade musical.
Neste artigo, quero compartilhar algumas reflexões sobre esse processo.
Desenvolva a Criatividade Através de Boas Referências e Repertório Variado
Desenvolver nossa criatividade é um dos meus tópicos favoritos e o tema central do meu curso de Processos Criativos. Vou compartilhar uma das ideias que considero mais importantes para qualquer compositor, arranjador ou criador musical: como alimentar nossa criatividade.
A chave é simples: nossa criatividade processa todas as informações que absorvemos, as experiências que tivemos e as coisas que ouvimos, observamos ou estudamos. Ou seja, tudo aquilo que entra em contato com nossa percepção e permanece de alguma forma armazenado em nossa memória.
A natureza então faz sua mágica. Ela cria conexões entre experiências aparentemente distantes, permitindo que novas ideias surjam a partir da combinação de referências já existentes.
Muitas vezes imaginamos a criatividade como algo espontâneo ou misterioso. Porém, uma parte importante do processo criativo depende justamente da qualidade e da diversidade dos materiais que oferecemos à nossa própria imaginação.
Essa relação entre repertório, referências e criação está profundamente ligada ao desenvolvimento da composição musical. Se você quiser aprofundar essa reflexão, recomendo também a leitura de:
Escuta Musical: Ativa e Passiva
Esse processo pode acontecer de maneira ativa ou passiva, e compreender essa diferença ajuda a desenvolver um repertório musical mais rico.
A escuta passiva acontece quando ouvimos música enquanto realizamos outras atividades. Durante uma viagem, uma caminhada, um momento de descanso ou mesmo enquanto trabalhamos. Ainda que a atenção não esteja totalmente focada na música, essas experiências também passam a fazer parte do nosso universo criativo.
Já a escuta ativa envolve um nível maior de atenção e intenção. É quando ouvimos uma gravação tentando compreender como ela foi construída. Podemos observar a forma da música, os arranjos, as escolhas harmônicas, a instrumentação, a condução das vozes, a improvisação ou a maneira como os músicos interagem.
Para compositores e arranjadores, essa escuta ativa costuma ser especialmente valiosa. Ouvir acompanhando partituras, analisar gravações e observar decisões criativas dos grandes mestres nos ajuda a expandir nosso vocabulário musical e compreender possibilidades que talvez não surgissem naturalmente.
Essa prática está diretamente relacionada a outro princípio que considero fundamental:
Ambas as formas de escuta são importantes. Uma amplia nossa convivência natural com a música. A outra transforma essa convivência em aprendizado consciente.
Como Colocar em Prática?
Vamos trabalhar com um exemplo prático. Se a intenção é compor uma peça de jazz moderno para big band, quais são os passos a seguir?
Primeiramente, é fundamental ouvir big bands, estudar os compositores que estão atualmente em destaque e entender as preferências estéticas existentes nesse universo musical, além das próprias preferências dentro do estilo. É importante buscar as melhores big bands e os músicos mais destacados que apresentam esse tipo de repertório como referência. Além disso, ouvir referências mais antigas ou de estilos musicais adjacentes pode fornecer um ponto de comparação valioso. Dessa forma, é possível, de maneira consciente, trazer essas informações para a mente e permitir que elas sejam processadas e amadurecidas.
Realizar anotações mentais sobre o que se gosta, o que não se gosta e o que se gostaria de explorar é essencial. Isso se assemelha a abastecer um veículo com gasolina: é preciso ter material para que a criatividade funcione!
Fomentando a Originalidade
Uma observação importante: quanto mais diversas e originais forem as referências que alimentam seu repertório, maior tende a ser sua capacidade de criar conexões inesperadas.
Se ouvimos sempre as mesmas gravações, os mesmos artistas, os mesmos estilos e as mesmas soluções musicais, existe uma tendência natural de reproduzir padrões semelhantes quando criamos.
Muitas vezes a originalidade não surge de uma ideia completamente inédita. Ela surge da combinação pouco comum de influências diferentes.
Um compositor que conhece profundamente jazz, música brasileira, repertório orquestral, improvisação e música popular provavelmente fará conexões diferentes de alguém que circula apenas dentro de um único universo musical.
Por isso, uma das maneiras mais eficientes de desenvolver a criatividade é expandir constantemente o repertório. Ouvir música de épocas diferentes. Conhecer linguagens que normalmente não fazem parte do seu cotidiano. Observar artistas que pensam de maneira diferente da sua.
Quanto mais amplo for o universo de referências, maior será a quantidade de materiais disponíveis para que a criatividade construa novas relações.
No final das contas, criar não é produzir algo a partir do nada. Criar é reorganizar experiências, referências e percepções de maneiras que ainda não existiam.
Se nos alimentamos de boas referências, elas inevitavelmente encontrarão caminhos para aparecer em nossa própria música.
Leituras Complementares
Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.





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