A Colaboração Artística Que Levou Minha Música ao Carnegie Hall
- Rafael Piccolotto de Lima

- 6 de jun.
- 6 min de leitura
Atualizado: 7 de jul.
No último ano do meu doutorado na Universidade de Miami, viajei para Nova York para acompanhar a estreia de uma composição minha no Weill Recital Hall do Carnegie Hall.
Para qualquer compositor interessado em música de concerto, trata-se de um daqueles nomes que dispensam apresentações. Ao longo de mais de um século, o Carnegie Hall recebeu alguns dos mais importantes intérpretes, compositores e orquestras do mundo, tornando-se uma das instituições mais emblemáticas da vida musical internacional.
Estar naquela sala ouvindo uma obra de minha autoria ganhar vida diante do público foi um momento marcante da minha trajetória.
A apresentação aconteceu como parte de um concerto de gala promovido pela Embaixada da Bulgária e marcou a estreia mundial de uma nova versão da obra, escrita especialmente para aquela ocasião.

A estreia da obra no Carnegie Hall é apenas parte dessa história. O que considero igualmente interessante é o caminho que levou até ela. Em vez de surgir por meio de um concurso, de uma chamada pública ou de uma estratégia voltada para alcançar aquele palco, essa oportunidade nasceu de uma colaboração artística.
Uma composição passa a existir de forma plena quando encontra intérpretes, espaços de apresentação e um público. Construir esses encontros faz parte dos maiores desafios da vida profissional de muitos compositores. A história desta obra oferece um exemplo de como uma colaboração artística pode contribuir para que isso aconteça.
Como Conheci Svet Stoyanov
Durante meus estudos na Frost School of Music da Universidade de Miami, tive a oportunidade de conhecer o percussionista búlgaro Svet Stoyanov.
Professor de percussão da Frost School of Music e artista com carreira internacional, Svet desenvolveu uma trajetória de destaque tanto como solista quanto como educador, com atuação em importantes salas de concerto e festivais ao redor do mundo.
Durante aquele período, tive a oportunidade de acompanhar de perto o trabalho de Svet tanto como professor quanto como intérprete. Seu interesse por novas obras e sua abertura para diferentes linguagens musicais acabaram criando um ambiente natural para o surgimento de uma colaboração.
Essas trocas acabaram dando origem a um projeto que viria a ocupar um lugar especial em minha trajetória como compositor.
Escrevendo a Obra

A ideia de compor uma obra para o percussionista Svet Stoyanov acabou nos levando a explorar elementos da tradição musical búlgara. Durante esse processo, ele compartilhou comigo diversas gravações que faziam parte desse universo musical e conversamos sobre como essas referências poderiam dialogar com a composição.
Entre elas, uma canção tradicional chamada Dilmano Dilbero despertou particularmente minha atenção.
O que mais me chamou a atenção inicialmente foi seu caráter rítmico. Enquanto grande parte da música ocidental está organizada em estruturas binárias ou ternárias relativamente regulares, muitas tradições musicais dos Bálcãs exploram agrupamentos assimétricos que produzem uma sensação de movimento bastante particular. Aquilo despertou minha curiosidade imediatamente.
Em vez de realizar uma adaptação direta do material folclórico, comecei a imaginar como aqueles elementos poderiam dialogar com aspectos da música brasileira que sempre fizeram parte da minha formação e da minha linguagem como compositor.
Bulgarian Spices (Especiarias Búlgaras) foi originalmente escrita para uma formação híbrida composta por percussão solista, quarteto de cordas, flauta, piano, contrabaixo e bateria. (assista abaixo essa gravação realizada no estúdio do Departamento de Jazz da Frost School of Music da Universidade de Miami)
Meu interesse era criar um espaço de encontro entre diferentes referências musicais.
Durante diferentes momentos da peça, Svet toca a marimba e o tupan, instrumento tradicional dos Bálcãs que imediatamente me chamou atenção por sua proximidade funcional com a zabumba utilizada no baião e em outras tradições da música nordestina brasileira.
Embora as duas culturas tenham se desenvolvido de forma independente, comecei a perceber pontos de contato interessantes entre aqueles universos rítmicos. Algumas dessas aproximações acabaram encontrando espaço dentro da própria composição.
→ Relacionado: Escrevendo Música Brasileira para Orquestra: Entre a Música Popular, o Jazz e a Música de Concerto
Uma Estreia no Carnegie Hall
Algum tempo depois da gravação, Svet entrou em contato com uma proposta. Ele havia sido convidado para participar de um concerto de gala promovido pela Embaixada da Bulgária em Nova York, realizado no Weill Recital Hall do Carnegie Hall.
Em vez de simplesmente programar uma obra já existente do repertório, perguntou se eu teria interesse em criar uma nova versão da composição para uma formação reduzida composta por percussão, violino e piano. A ideia era apresentar essa nova versão em estreia mundial durante o concerto.
Viajei para Nova York para acompanhar a apresentação. Quando comecei a escrever aquela peça na Universidade de Miami, a possibilidade de ouvi-la um dia no Carnegie Hall simplesmente não fazia parte do horizonte do projeto. A obra havia nascido de uma colaboração artística, do interesse por uma tradição musical que eu estava descobrindo e da oportunidade de escrever para um músico extraordinário. Nada disso havia sido pensado como um caminho para uma estreia em Nova York.
Quando a Música Encontrou Seu Público
Após a apresentação, participei de uma entrevista para a televisão búlgara falando sobre a obra, sobre minha colaboração com Svet Stoyanov e sobre os elementos musicais que conectavam diferentes tradições culturais dentro da peça.

Também tive a oportunidade de conversar com membros da comunidade búlgara presentes no concerto. Mais de uma pessoa mencionou que conhecia aquela música desde a infância, mas que nunca havia ouvido aquelas referências apresentadas daquela maneira. Uma delas comentou que a combinação daqueles elementos da tradição búlgara com ritmos brasileiros havia tornado a obra ainda mais interessante.

O Que Essa Experiência Representa Para Mim
Quando as pessoas descobrem que uma obra minha foi estreada no Carnegie Hall, normalmente enxergam apenas o resultado final. Quando penso naquela noite no Weill Recital Hall, lembro da emoção de ouvir uma obra de minha autoria estrear em uma das salas de concerto mais emblemáticas do mundo.
Também lembro de tudo o que tornou aquele momento possível: os anos de estudo, o ambiente criativo da Universidade de Miami, onde a obra foi concebida e gravada pela primeira vez, a parceria com Svet Stoyanov e uma colaboração artística que continuou evoluindo muito depois da composição original.
Hoje também enxergo aquela noite como um marco de transição. Ela aconteceu nos últimos meses do meu doutorado na Universidade de Miami e antecedeu a mudança que faria pouco tempo depois para Nova York, onde passei a desenvolver minha carreira como compositor e a atuar na cena musical da cidade.
Muitos dos momentos mais importantes da vida artística chegam aos grandes palcos porque começaram em salas de aula, ensaios, conversas entre músicos e projetos que, naquele momento, ainda não sabíamos onde poderiam chegar.

Continue Explorando
Sobre o Autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.





Comentários