Como uma Oportunidade Inesperada Levou à Minha Indicação ao Grammy Latino
- Rafael Piccolotto de Lima

- 14 de jan. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: há 1 dia
Como alguém chega a ser indicado a um prêmio importante, como um Grammy? Seria merecimento ou sorte? Você já deve ter pensado sobre isso ao assistir a uma premiação, assim como eu me perguntei quando decidi seguir a carreira musical.
Mal sabia eu que esta se tornaria a minha realidade! Mas, como eu cheguei lá?
Neste artigo, conto a história por trás desta grande surpresa: a indicação de Abertura Jobiniana ao Latin Grammy de 2013, na categoria de Melhor Composição Clássica Contemporânea. Divido também algumas reflexões sobre o processo que deu origem à obra e os desdobramentos desse reconhecimento.
Se você não conhece minha história, pode pensar que isso aconteceu recentemente, quando eu já tinha bastante experiência. Mas a verdade é que eu tinha 27 anos e ainda cursava a pós-graduação na Frost School of Music, da University of Miami, quando tudo isso aconteceu.

A grande notícia
Até hoje, este episódio me causa um turbilhão de sentimentos. Então vamos começar pelo ápice: a grande notícia!
Era um dia de gravação na Universidade de Miami. Eu estava no estúdio, à frente da principal big band da instituição, trabalhando em uma música minha: “Brookmeyer Motives”, inspirada no trabalho de Bob Brookmeyer. Estava de fones de ouvido, com toda a estrutura montada para a gravação, extremamente focado e animado. Fizemos dois takes da música e, de repente, meu orientador entrou na sala. Como de costume, eu esperava algum comentário sobre a gravação ou alguma sugestão sobre o trabalho, mas ele disse que tinha uma notícia para me dar.
Só esse fato já me causou certa estranheza, pois estávamos no meio da gravação. Sem muitos rodeios, ele me pediu para sair da sala, olhou para mim e disse: “Você foi indicado ao Grammy Latino!” Fiquei atônito e pedi mais detalhes. Ele me explicou que Carlomagno Araya, baterista e produtor do projeto indicado, estava na universidade e havia levado a notícia até lá.
Como a oportunidade surgiu
Meu colega Jeremy Fox estava concluindo o doutorado e trabalhando nos arranjos de um projeto chamado Jobim Sinfônico, realizado com a Orquestra Sinfônica Nacional da Costa Rica. Ele viajaria para a Costa Rica para reger a orquestra em um concerto com solistas brasileiros e latino-americanos.
Como estava sem tempo por causa da tese, ele me pediu ajuda com dois arranjos, que precisariam ser escritos em um prazo relativamente curto. O cachê era simbólico, principalmente considerando que se tratava de um trabalho para orquestra sinfônica.
Eu também estava bem atarefado no segundo ano de mestrado e ponderei. Mas logo ajustei meu calendário e decidi ajudá-lo. Acreditei que poderia ser um projeto interessante, do tipo que eu gosto de fazer. Jeremy me permitiu escolher duas músicas entre as previstas para o concerto. Escolhi “Chovendo na Roseira”, uma canção linda e menos conhecida de Tom Jobim, e a abertura, inicialmente concebida como um medley de temas de bossa nova. Quando decidi escrever essa abertura, porém, perguntei se poderia fazer algo um pouco diferente.

Visão artística
Contei a ele algo sobre Tom Jobim que nem todos conhecem: além do cancioneiro pelo qual se tornou amplamente conhecido, ele escreveu obras ligadas à música de concerto, trabalhou como arranjador e orquestrador e desenvolveu uma produção importante para orquestra. Então, apresentei minha ideia.
Como se tratava de um concerto sinfônico dedicado à bossa nova e os arranjos explorariam principalmente o lado popular de Jobim, por que não transformar a abertura em um tributo à sua produção sinfônica? Jeremy achou a ideia interessante, compartilhou com os demais organizadores do projeto e todos aceitaram. Fiquei feliz com a abertura para minha proposta, pois ela mudava a direção inicialmente imaginada para aquela parte do concerto. Essa decisão artística foi determinante para o que aconteceria depois.
Essa foi uma grande oportunidade para eu estudar mais profundamente a produção sinfônica de Jobim, um compositor que admiro muito. Consegui acesso a algumas grades orquestrais, transcrevi trechos de outras peças e ouvi repetidamente muitas obras que já me acompanhavam desde criança. Desse processo nasceu Abertura Jobiniana, uma composição na qual desenvolvo motivos melódicos, caminhos harmônicos e citações de obras como Brasília, Sinfonia da Alvorada, Canta, Canta Mais e Passarim. Para mim, esses materiais eram simbólicos desse outro lado da criação de Jobim e sempre exerceram um grande fascínio. O resultado foi uma obra nova construída com algumas das cores desse universo sinfônico.
O concerto e a gravação
Abertura Jobiniana foi apresentada no concerto realizado na Costa Rica, que posteriormente deu origem ao álbum Bossa Nova Sinfónico. Naquele momento, eu ainda sentia que a peça não estava 100% do jeito que gostaria, tanto do ponto de vista da escrita quanto da interpretação. Cheguei a questionar se ela deveria ser incluída no álbum, mas eles insistiram que deveria fazer parte.
O álbum Bossa Nova Sinfónico foi inscrito em diferentes categorias do Latin Grammy. Entre elas estava a de Melhor Composição Clássica Contemporânea, justamente aquela que mais destoava das demais inscrições do projeto. Foi nessa categoria que Abertura Jobiniana recebeu a indicação em 2013. O registro identifica Rafael Piccolotto de Lima como compositor, Jeremy Fox como regente e a Orquestra Sinfônica Nacional da Costa Rica como intérprete da gravação.
Nos anos seguintes, Abertura Jobiniana passou a ser apresentada por diferentes orquestras no Brasil e no exterior. A visibilidade da indicação também contribuiu para novos convites ligados à composição orquestral, entre eles a estreia de Cenas Quiméricas na abertura da temporada de 2014 da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas.
Essa oportunidade mudou, de certa maneira, o direcionamento da minha vida e abriu uma série de portas. Muitas vezes, oportunidades importantes surgem de onde menos esperamos. A questão é reconhecer aquelas que fazem sentido e realizar o melhor trabalho possível quando elas aparecem.
A indicação não surgiu de uma busca direta por reconhecimento. Ela resultou da combinação entre preparo, disponibilidade para colaborar e a disposição de propor uma visão artística própria dentro do projeto.
Em outros artigos, desenvolvo aspectos diferentes dessa experiência. Em O Significado e as Consequências dos Prêmios na Carreira Musical, reflito sobre os efeitos desse tipo de reconhecimento. Em Como Pequenos Projetos Artísticos Podem Abrir Grandes Oportunidades, discuto como trabalhos aparentemente modestos podem se conectar a etapas posteriores de uma trajetória. Já em As Músicas Que Eu Gostaria Que Existissem, situo Abertura Jobiniana dentro de uma reflexão mais ampla sobre as referências que atravessam minhas composições.

Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.





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