As Músicas Que Eu Gostaria Que Existissem
- Rafael Piccolotto de Lima

- há 3 dias
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Quando a Admiração se Torna Composição
Durante muitos anos, quando alguém me perguntava sobre minhas influências musicais, eu respondia citando compositores, arranjadores e artistas que admiro profundamente.
Tom Jobim.
Moacir Santos.
Hermeto Pascoal.
Egberto Gismonti.
Nailor Azevedo Proveta.
Maria Schneider.
Vince Mendoza.
Bob Brookmeyer.
A resposta estava correta.
Mas, com o tempo, percebi que ela não explicava exatamente a minha relação com a música desses artistas.
Porque a influência, por si só, é apenas o começo da história.
Existe algo que acontece quando encontramos uma obra que nos transforma profundamente.
Algo que vai além da admiração.
Além do estudo.
Além da análise.
Em alguns casos, surge um desejo difícil de explicar.
O desejo de entrar naquele universo.
De habitar aquele mundo musical por algum tempo.
De participar daquela conversa.
Talvez seja por isso que muitas das minhas composições tenham nascido não apenas da vontade de escrever música, mas da vontade de escrever as músicas que eu gostaria que existissem.
Não no sentido de corrigir ou completar a obra de ninguém.
Mas no sentido de imaginar caminhos que nunca foram percorridos.
Perguntas que talvez nunca tenham sido feitas.
Encontros que nunca aconteceram.
Como seria uma obra inspirada na imaginação melódica e rítmica de Moacir Santos, mas atravessada por experiências vindas da escrita orquestral contemporânea?
Como seria uma peça construída a partir do universo sonoro da Banda Mantiqueira, mas dialogando com procedimentos formais e de desenvolvimento musical que descobri anos depois através da música de Maria Schneider e Bob Brookmeyer?
Como seria uma obra inspirada pela liberdade criativa de Hermeto Pascoal, escrita a partir das minhas próprias experiências entre o Brasil e os Estados Unidos, entre a música popular e a música de concerto, entre a improvisação e a escrita orquestral?
Essas perguntas aparecem repetidamente no meu catálogo.
Não como homenagens no sentido tradicional.
Nem como exercícios de estilo.
Mas como tentativas de continuar conversas musicais que começaram muito antes de mim.
Entrando em Diálogo com Outros Universos Musicais
Mais do que influências, esses compositores representam universos artísticos completos.
Cada um deles criou uma forma particular de ouvir, organizar e imaginar a música.
E talvez o que mais me atraia seja justamente a possibilidade de entrar temporariamente nesses mundos e descobrir o que acontece quando eles encontram minha própria voz.
Samba de Proveta: Conversando com a Linguagem das Big Bands Brasileiras
O que sempre me fascinou na música de Nailor Azevedo Proveta não era apenas a excelência técnica dos arranjos ou o domínio da linguagem das big bands.
Era a naturalidade com que elementos do samba, do choro e da tradição das orquestras de jazz pareciam coexistir dentro de uma linguagem profundamente brasileira.
Ao escrever Samba de Proveta, eu não estava tentando reproduzir aquela estética.
O que me interessava era descobrir o que aconteceria se aquele universo sonoro encontrasse outras influências que também passaram a fazer parte da minha formação ao longo dos anos.
Como o lirismo orquestral de Maria Schneider, determinadas formas de desenvolvimento musical vindas da tradição da composição contemporânea e minha própria experiência trabalhando entre a música brasileira, o jazz e a escrita para grandes grupos.
Entre Outras Coisas: Aprendendo com Moacir Santos
Entre os compositores que mais me fascinam está Moacir Santos.
O que mais me impressiona em sua música não é apenas a originalidade, mas a capacidade de criar um universo que soa profundamente brasileiro sem depender de fórmulas previsíveis ou clichês estilísticos.
Suas obras parecem nascer de células rítmicas, gestos melódicos e formas de organização inspiradas pela cultura brasileira e afro-brasileira, mas transformadas por uma imaginação absolutamente pessoal.
Existe uma simplicidade aparente em sua música que sempre me chamou atenção.
Não uma simplicidade óbvia, mas aquela simplicidade rara que parece inevitável depois que ouvimos, embora seja extremamente difícil de construir.
Em muitos sentidos, Entre Outras Coisas nasceu da vontade de permanecer por algum tempo dentro desse universo musical e descobrir quais conversas poderiam surgir quando essas ideias encontrassem minha própria experiência como compositor.
Brookmeyer Motives: Desenvolvimento Musical e Transformação
Durante meus anos de formação nos Estados Unidos, passei muito tempo estudando a música de Bob Brookmeyer e tentando compreender como pequenas células musicais podiam gerar estruturas de enorme complexidade através de processos contínuos de transformação e desenvolvimento.
Brookmeyer Motives nasceu desse fascínio.
Mas também da tentativa de transportar essas ideias para um universo musical que já carregava outras referências, outras escutas e outras experiências.
A obra acabou recebendo reconhecimento tanto da ASCAP quanto da DownBeat, mas o que mais me interessa nela até hoje é a pergunta que a originou: o que acontece quando determinados modos de pensar forma e desenvolvimento musical encontram outras tradições que também fazem parte da minha formação?
Negative Space: Espaço, Textura e Orquestração
Em Negative Space, o diálogo aconteceu com Vince Mendoza.
Sempre admirei sua capacidade de criar espaços harmônicos amplos, texturas transparentes e formas que parecem respirar naturalmente.
Sua música me mostrou que a intensidade não precisa vir da densidade e que, muitas vezes, aquilo que não é dito pode ser tão importante quanto aquilo que é.
Mais uma vez, o objetivo não era reproduzir uma linguagem.
Era explorar perguntas que surgiam a partir dela.
Voa Hermeto: Liberdade Como Processo Criativo
Escrita como um tributo a Hermeto Pascoal, Voa Hermeto nasceu da admiração por uma das imaginações mais livres que a música brasileira já produziu.
Hermeto sempre me fascinou por sua capacidade de transformar qualquer material em música e por sua recusa em aceitar fronteiras rígidas entre estilos, técnicas ou tradições.
Ao escrever essa obra, a pergunta não era como soar como Hermeto.
A pergunta era outra.
O que poderia surgir ao permitir que algumas das suas ideias atravessassem minha própria experiência como compositor?
[Inserir vídeo de Voa Hermeto]
Outros Diálogos Musicais
Esses diálogos aparecem de diferentes formas ao longo do meu catálogo.
Em alguns casos, surgem como homenagens explícitas. Em outros, aparecem de maneira mais indireta, através de procedimentos composicionais, formas de organizar o material musical, abordagens rítmicas, ideias melódicas ou maneiras de pensar a orquestração.
Abertura Jobiniana, obra que posteriormente me levou a uma indicação ao Latin Grammy, nasceu da tentativa de entrar em diálogo com o universo de Tom Jobim, explorando e reinterpretando materiais presentes em sua obra através de uma linguagem sinfônica própria.
Da mesma forma, outras obras dialogam com figuras como Luiz Gonzaga, Egberto Gismonti e diversos outros artistas que continuam alimentando minha imaginação musical.
Suspeito que muitos outros diálogos ainda estejam por vir.
As Conversas Que Ainda Não Aconteceram
Olhando para trás, percebo que grande parte do meu trabalho tem sido exatamente isso.
Uma tentativa contínua de criar pontes.
Entre tradições.
Entre linguagens.
Entre artistas que nunca se encontraram.
Entre mundos musicais que coexistem dentro da minha própria formação.
Talvez seja por isso que eu continue compondo.
Porque ainda existem muitas músicas que eu gostaria de ouvir.
E, às vezes, a única maneira de escutá-las é escrevendo-as.
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Sobre o autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.





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