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As Músicas Que Eu Gostaria Que Existissem

Quando a Admiração se Torna Composição


Durante muitos anos, quando alguém me perguntava sobre minhas influências musicais, eu respondia citando compositores, arranjadores e artistas que admiro profundamente.


Tom Jobim.


Moacir Santos.


Hermeto Pascoal.


Egberto Gismonti.


Nailor Azevedo Proveta.


Maria Schneider.


Vince Mendoza.


Bob Brookmeyer.


A resposta estava correta.


Mas, com o tempo, percebi que ela não explicava exatamente a minha relação com a música desses artistas.


Com o tempo, comecei a perceber que a palavra influência não descrevia exatamente o que acontecia.


Em alguns casos, a relação era mais específica.


Eu passava anos ouvindo determinada música, estudando partituras, analisando procedimentos e tentando entender como aquele compositor organizava o som.


Em determinado momento surgia uma curiosidade diferente: o que aconteceria se algumas dessas ideias encontrassem as minhas próprias perguntas musicais?


Muitas vezes comecei uma peça porque queria escutar o resultado de um encontro musical que nunca tinha acontecido.


Não no sentido de corrigir ou completar a obra de ninguém.


Mas no sentido de imaginar caminhos que nunca foram percorridos.


Perguntas que talvez nunca tenham sido feitas.


Encontros que nunca aconteceram.


Como seria uma obra inspirada na imaginação melódica e rítmica de Moacir Santos, mas atravessada por experiências vindas da escrita orquestral contemporânea?


Como seria uma peça construída a partir do universo sonoro da Banda Mantiqueira, mas dialogando com procedimentos formais e de desenvolvimento musical que descobri anos depois através da música de Maria Schneider e Bob Brookmeyer?


Como seria uma obra inspirada pela liberdade criativa de Hermeto Pascoal, escrita a partir das minhas próprias experiências entre o Brasil e os Estados Unidos, entre a música popular e a música de concerto, entre a improvisação e a escrita orquestral?


Essas perguntas aparecem repetidamente no meu catálogo.


Não como homenagens no sentido tradicional nem como exercícios de estilo.


O que me interessava era investigar questões musicais que encontrei primeiro na obra desses artistas e que continuaram me acompanhando depois.


Algumas Conversas Musicais Específicas


O que sempre me interessou nesses compositores não foi apenas o resultado final das obras, mas as perguntas que parecem orientar seus processos criativos.


Em diferentes momentos da minha trajetória, algumas dessas perguntas acabaram encontrando espaço dentro das minhas próprias composições.


Samba de Proveta: Conversando com a Linguagem das Big Bands Brasileiras


O que sempre me fascinou na música de Nailor Azevedo Proveta não era apenas a excelência técnica dos arranjos ou o domínio da linguagem das big bands.


Era a naturalidade com que elementos do samba, do choro e da tradição das orquestras de jazz pareciam coexistir dentro de uma linguagem profundamente brasileira.


Ao escrever Samba de Proveta, eu não estava tentando reproduzir aquela estética.


O que me interessava era descobrir o que aconteceria se aquele universo sonoro encontrasse outras influências que também passaram a fazer parte da minha formação ao longo dos anos.


Como o lirismo orquestral de Maria Schneider, determinadas formas de desenvolvimento musical vindas da tradição da composição contemporânea e minha própria experiência trabalhando entre a música brasileira, o jazz e a escrita para grandes grupos.


Ouça a obra completa:



Entre Outras Coisas: Aprendendo com Moacir Santos


Entre os compositores que mais me fascinam está Moacir Santos.


O que mais me impressiona em sua música não é apenas a originalidade, mas a capacidade de criar um universo que soa profundamente brasileiro sem depender de fórmulas previsíveis ou clichês estilísticos.


Suas obras parecem nascer de células rítmicas, gestos melódicos e formas de organização inspiradas pela cultura brasileira e afro-brasileira, mas transformadas por uma imaginação absolutamente pessoal.


Existe uma simplicidade aparente em sua música que sempre me chamou atenção.


Não uma simplicidade óbvia, mas aquela simplicidade rara que parece inevitável depois que ouvimos, embora seja extremamente difícil de construir.


Entre Outras Coisas nasceu da tentativa de trabalhar durante algum tempo a partir desse tipo de lógica musical e observar quais caminhos ela produziria dentro da minha própria linguagem.


Ouça a obra completa:



Brookmeyer Motives: Desenvolvimento Musical e Transformação


Durante meus anos de formação nos Estados Unidos, passei muito tempo estudando a música de Bob Brookmeyer e tentando compreender como pequenas células musicais podiam gerar estruturas de enorme complexidade através de processos contínuos de transformação e desenvolvimento.


Brookmeyer Motives nasceu desse fascínio.


Mas também da tentativa de transportar essas ideias para um universo musical que já carregava outras referências, outras escutas e outras experiências.


A obra acabou recebendo reconhecimento tanto da ASCAP quanto da DownBeat, mas o que mais me interessa nela até hoje é a pergunta que a originou: o que acontece quando determinados modos de pensar forma e desenvolvimento musical encontram outras tradições que também fazem parte da minha formação?


Ouça a obra completa:



Negative Space: Espaço, Textura e Orquestração


Em Negative Space, o diálogo aconteceu com Vince Mendoza.


Sempre admirei sua capacidade de criar espaços harmônicos amplos, texturas transparentes e formas que parecem respirar naturalmente.


Sua música me mostrou que a intensidade não precisa vir da densidade e que, muitas vezes, aquilo que não é dito pode ser tão importante quanto aquilo que é.


O interesse não estava em reproduzir procedimentos específicos de Mendoza, mas em entender como algumas de suas ideias sobre espaço, textura e densidade poderiam funcionar em outro contexto.


Ouça a obra completa:



Voa Hermeto: Liberdade Como Processo Criativo


Escrita como um tributo a Hermeto Pascoal, Voa Hermeto nasceu da admiração por uma das imaginações mais livres que a música brasileira já produziu.


Hermeto sempre me fascinou por sua capacidade de transformar qualquer material em música e por sua recusa em aceitar fronteiras rígidas entre estilos, técnicas ou tradições.


Ao escrever essa obra, a pergunta não era como soar como Hermeto.


A questão que me interessava era observar o que aconteceria quando algumas das premissas criativas presentes na obra de Hermeto fossem colocadas em funcionamento dentro de um contexto musical diferente.


[Inserir vídeo de Voa Hermeto]


Outros Diálogos Musicais


Esses diálogos aparecem de diferentes formas ao longo do meu catálogo.


Em alguns casos, surgem como homenagens explícitas. Em outros, aparecem de maneira mais indireta, através de procedimentos composicionais, formas de organizar o material musical, abordagens rítmicas, ideias melódicas ou maneiras de pensar a orquestração.


Abertura Jobiniana, obra que posteriormente me levou a uma indicação ao Latin Grammy, nasceu dentro do processo de criação de um concerto apresentado pela Orquestra Nacional da Costa Rica em homenagem a Tom Jobim. A ideia inicial era desenvolver uma espécie de medley sinfônico com temas de bossa nova, mas propus criar uma abertura original que dialogasse com o universo de Jobim de maneira mais composicional.


A obra cita motivos melódicos, sonoridades, texturas e caminhos harmônicos presentes em sua música, mas os reorganiza dentro de uma nova criação sinfônica. Mais do que apresentar uma sequência de temas conhecidos, o que me interessava era imaginar como determinados traços do universo jobiniano poderiam ser transformados em matéria-prima para uma abertura orquestral própria.


Ouça uma gravação ao vivo de Abertura Jobiniana realizada pela Orquestra Sinfônica de Santo André, sob regência da maestrina Natália Larangeira:



Processo semelhante aparece em Fantasia Gismontiana, composição para piano e orquestra inspirada pelo universo criativo de Egberto Gismonti. A obra coloca o piano em destaque como instrumento solista e procura dialogar com a liberdade formal, a energia rítmica, a imaginação harmônica e o trânsito entre diferentes tradições musicais que marcam sua produção, sem tentar reproduzir diretamente sua linguagem.


Ouça uma gravação de Fantasia Gismontiana realizada pela pianista russa Asya Korepanova e uma orquestra de câmara formada por estudantes da Frost School of Music, University of Miami:



Outro exemplo importante é Asa, Zóio e Matulão, obra dedicada a Luiz Gonzaga e encomendada pelo Henry Mancini Institute para estreia em Miami, em um concerto que dialogava com Appalachian Spring, de Aaron Copland. A composição parte de motivos extraídos de três músicas de Gonzaga, desconstruindo e reconstruindo esse material dentro de uma estética camerística que evoca o universo rítmico e melódico do Nordeste brasileiro.


Nesse caso, o diálogo não acontece apenas com Gonzaga, mas também com a ideia de um nacionalismo musical imaginado, semelhante ao modo como Copland construiu uma paisagem sonora americana. A diferença é que, em Asa, Zóio e Matulão, essa paisagem passa pela memória afetiva e rítmica do Nordeste brasileiro, reinventada em um contexto de música de câmara.


Ouça uma gravação de Asa, Zóio e Matulão realizada na CPL Cultural pela Camerata Latino-Americana, sob direção da maestrina Simone Menezes:



As Conversas Que Ainda Não Aconteceram


Olhando para trás, percebo que muitas das obras deste catálogo nasceram de uma dinâmica parecida.


Quase sempre existe uma escuta inicial que desperta uma pergunta.


Às vezes ela surge ao estudar a música de um compositor específico. Em outros momentos aparece ao aproximar tradições que normalmente não costumam ser colocadas lado a lado.


Algumas dessas perguntas resultam em peças concluídas. Outras permanecem abertas por anos.


E talvez seja justamente isso que continua tornando a composição interessante para mim.


Ainda existem muitos encontros musicais que eu tenho curiosidade de ouvir.


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Sobre o autor


Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.




Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador

 
 
 

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