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A Metropole Orkest Por Dentro: O Que Vi no Mais Alto Nível da Escrita e Produção para Orquestra Jazz Sinfônica

Durante muitos anos, a Metropole Orkest existiu para mim através de gravações.


Eu conhecia a orquestra pelos discos, pelos vídeos e pelas histórias que circulavam entre músicos, compositores e arranjadores. Conhecia os arranjos de Vince Mendoza, as gravações com Bob Brookmeyer e, em especial, o álbum de Ivan Lins com a Metropole Orkest, um trabalho que sempre me impressionou pela naturalidade com que uma orquestra europeia conseguia lidar com a linguagem da música brasileira.


Para quem se interessa por composição, arranjo, jazz, música brasileira e grandes formações instrumentais, a Metropole ocupava um lugar especial no meu imaginário musical.


Ela parecia representar uma combinação rara entre excelência artística, flexibilidade estilística, produção musical e realização orquestral.


Mas existia uma pergunta que me acompanhava sempre que eu ouvia aquelas gravações.


O que fazia aquela orquestra soar daquela maneira?


A qualidade dos músicos certamente fazia parte da resposta.


A qualidade dos arranjos também.


Mas isso não parecia explicar tudo.


Como uma orquestra desenvolve tanta fluência em linguagens tão diferentes?


Como consegue realizar música complexa com tamanha eficiência?


Como composição, arranjo, direção musical, produção, gravação e infraestrutura se articulam para produzir resultados desse nível?


Em 2014, tive a oportunidade de observar essas questões de perto.


Naquele ano, durante o período em que realizava meu doutorado na Frost School of Music da Universidade de Miami, fui selecionado para participar do Metropole Orkest Arrangers Workshop.


Apesar do nome, o programa não funciona exatamente como um curso. A própria Metropole Orkest realiza um processo internacional de seleção no qual jovens compositores e arranjadores submetem seus trabalhos para avaliação. Os participantes escolhidos passam uma semana trabalhando junto à orquestra, acompanhando ensaios, escrevendo novos arranjos e convivendo com músicos, regentes e profissionais envolvidos no trabalho da instituição.


Naquele ano, o projeto culminava em um concerto com Gregory Porter, que já despontava como uma das vozes mais importantes do jazz contemporâneo.


Antes mesmo de viajar para a Holanda, cada participante já havia recebido uma música para arranjar. No meu caso, fui responsável por escrever um novo arranjo para “Don’t Worry ’Bout a Thing”, que seria apresentado no concerto final com Gregory Porter. O trabalho foi desenvolvido antes da viagem e passou por revisões durante a semana do workshop até chegar à versão final apresentada pela orquestra.


Durante aquela semana, além de acompanhar ensaios e ouvir meu próprio trabalho sendo interpretado pela Metropole, tive a oportunidade de observar o funcionamento interno da instituição e conviver com outros arranjadores selecionados de diferentes países.


Pela primeira vez, os espaços que eu conhecia apenas através de gravações e vídeos passaram a existir diante de mim.


Uma Orquestra Construída Para a Música Popular


Parte da singularidade da Metropole Orkest está na sua própria origem.


Fundada em 1945, a instituição nasceu para atuar no universo da música popular. Diferentemente de muitas orquestras que têm suas raízes na tradição sinfônica e posteriormente expandem sua atuação para outros repertórios, a Metropole foi concebida desde o início para trabalhar em um território que combina elementos da música popular, do jazz, da escrita orquestral e da produção de estúdio.


Sua formação sempre reuniu características pouco comuns dentro de uma mesma organização: uma seção completa de cordas, a tradição das big bands, atuação em rádio, gravações, transmissões e colaboração constante com artistas convidados.


Ao longo das décadas, essa trajetória levou a parcerias com artistas como Ella Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Pat Metheny, Herbie Hancock, Gregory Porter, Jacob Collier e muitos outros.


Mais importante do que a lista de artistas, porém, era perceber como essa história havia moldado a cultura musical da própria orquestra.


Quando a Música Já Chega Muito Perto do Resultado Final


Uma das experiências mais marcantes da semana foi ouvir meu arranjo sendo tocado pela Metropole pela primeira vez.


Quem escreve para grandes grupos conhece bem a distância que costuma existir entre aquilo que imaginamos ao compor e aquilo que ouvimos quando a música finalmente chega aos músicos.


Em muitos contextos, a primeira leitura serve principalmente para identificar problemas, ajustar interpretações e construir gradualmente uma linguagem comum entre o arranjo e o grupo.


Na Metropole, a sensação foi diferente.


Desde a primeira leitura, a música já se aproximava muito daquilo que eu havia imaginado ao escrever.


A partir dali, o trabalho se concentrava principalmente em refinamentos, ajustes de equilíbrio e detalhes de interpretação.


Essa experiência dialogava diretamente com algo que eu já havia observado ao longo dos anos trabalhando com projetos para orquestras sinfônicas interpretando repertórios ligados ao jazz, à música brasileira e a outras linguagens populares.


Nesses contextos, uma parte importante do ensaio frequentemente é dedicada a questões de linguagem.


Articulação.


Timing.


Groove.


Interação com a seção rítmica.


Flexibilidade estilística.


Formas diferentes de responder à regência.


Esses desafios são naturais quando músicos especializados em tradições distintas passam a compartilhar um mesmo projeto.


Na Metropole, muitos desses elementos já pareciam fazer parte do vocabulário coletivo da orquestra.


A impressão era a de que a conversa começava em um estágio muito mais avançado.


Uma Sessão de Gravação Que Explicou Muito Sobre a Metropole Orkest


Além do arranjo escrito para o concerto com Gregory Porter, o workshop incluía uma segunda atividade que acabou se tornando uma das experiências mais reveladoras de toda a semana.


Durante nossa permanência na Holanda, cada participante recebeu uma nova tarefa: escrever um pequeno arranjo instrumental original para a Metropole Orkest em apenas alguns dias.


As músicas foram selecionadas pela organização e distribuídas por sorteio entre os participantes. No meu caso, recebi “Sponge”, composição de Randy Brecker.


Trabalhamos individualmente a partir do hotel onde estávamos hospedados. Eu havia levado meu computador e utilizava uma pequena estação de trabalho com teclado MIDI para desenvolver o material. A proposta era criar um arranjo curto, com aproximadamente dois minutos de duração, que seria lido e gravado pela orquestra antes do encerramento do programa.


A atividade tinha algo de exercício criativo e algo de teste profissional.


O que um arranjador consegue produzir sozinho em poucos dias sabendo que a música será colocada imediatamente diante de uma das melhores orquestras do mundo?


Mas o momento que mais me marcou veio depois.


No dia reservado para as gravações, toda a estrutura já estava pronta.


A orquestra posicionada.


Os microfones montados.


A equipe técnica preparada.


E então aconteceu algo que eu raramente havia presenciado em outros contextos.


A primeira leitura já era o primeiro take.


Não havia uma leitura preliminar seguida de ensaio e gravação.


Os músicos recebiam as partituras, observavam rapidamente o material e a gravação começava.


Depois vinham alguns comentários de Vince Mendoza.


Um segundo take.


Mais alguns ajustes.


Um terceiro take.


E então passávamos para o próximo arranjo.


Éramos sete ou oito participantes ao todo. Todos os arranjos foram lidos, ensaiados e gravados naquele mesmo período.


Cada peça provavelmente ocupou menos de quinze minutos do tempo da orquestra.


O mais impressionante era a qualidade do resultado.


Aquilo ajudava a tornar concretas muitas das perguntas que eu levava comigo para a Holanda.


A eficiência que eu ouvia nas gravações não era consequência de um único fator.


Ela surgia da combinação entre escrita, experiência dos músicos, direção musical, infraestrutura técnica, produção e décadas de convivência com aquele repertório.


Vou incluir ao final deste artigo o vídeo da gravação do meu arranjo de “Sponge”. Mesmo tantos anos depois, ele continua sendo uma das melhores demonstrações daquilo que observei durante aquela semana.


O Trabalho Invisível Por Trás da Fluência


Durante conversas ao longo do workshop, Vince Mendoza comentou que uma das realizações das quais mais se orgulhava em seu trabalho com a orquestra estava relacionada justamente ao desenvolvimento dessa flexibilidade musical.


A capacidade de transitar entre diferentes estilos.


A compreensão dos códigos de cada linguagem.


A maneira de interagir com seções rítmicas, solistas e artistas convidados.


A forma de responder rapidamente a demandas musicais muito distintas.


Observando os ensaios, era possível perceber que essas habilidades não surgiam por acaso.


Elas eram resultado de décadas de trabalho acumulado.


Isso ajudava a explicar por que situações que frequentemente exigem longas explicações em outros contextos muitas vezes eram resolvidas em poucos minutos.


Também me chamou atenção a maneira como Vince Mendoza conduzia os ensaios.


Sua comunicação era direta, objetiva e orientada para resolver questões concretas de execução, equilíbrio e interação entre os músicos.


Mais uma vez, a sensação era de observar um ambiente onde diferentes partes do processo haviam evoluído juntas ao longo do tempo.


Quando Produção e Gravação Fazem Parte da Cultura Musical


Essa integração também aparecia na infraestrutura da instituição.


A sala de ensaios fazia parte de um complexo que reunia diferentes espaços dedicados às atividades da orquestra. Além da excelente acústica, chamava atenção a presença permanente de recursos técnicos voltados para gravação e produção.


Nada parecia improvisado.


Nada parecia ter sido adaptado posteriormente.


A gravação fazia parte daquele ambiente da mesma forma que os instrumentos e as estantes.


Essa observação ajudava a compreender melhor a própria história da Metropole.


Por ter surgido dentro do universo das orquestras de rádio, a instituição desenvolveu uma relação profunda com gravação, transmissão e produção musical. A presença de engenheiros de áudio, produtores e equipes técnicas não aparecia como um suporte externo ao trabalho artístico.


Esses profissionais faziam parte da identidade da organização.


Para alguém interessado não apenas em escrever música, mas também em entender como ela é realizada, produzida e registrada, essa foi uma observação particularmente marcante.


O Que Levei Comigo da Metropole Orkest


Quando penso naquela semana hoje, não me lembro apenas dos ensaios, do concerto ou da oportunidade de ouvir meu trabalho sendo interpretado pela orquestra.


Lembro principalmente da integração entre diferentes dimensões do fazer musical.


Composição.


Arranjo.


Interpretação.


Direção musical.


Regência.


Produção.


Gravação.


Infraestrutura.


A experiência não respondeu completamente todas as perguntas que eu levava comigo para a Holanda.


Mas me permitiu enxergar de forma muito mais concreta como essas diferentes partes se relacionam dentro de uma instituição construída especificamente para esse tipo de trabalho.


Talvez essa tenha sido a principal lição daqueles dias.


A excelência em projetos para grandes grupos não nasce de um único elemento isolado.


Ela surge quando composição, músicos, direção musical, produção e realização passam a funcionar como partes de um mesmo processo criativo.


E poucos lugares me permitiram observar isso de forma tão clara quanto a Metropole Orkest.

 
 
 

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