Entre a Composição Erudita, o Jazz e a Música Brasileira: Minha Formação na UNICAMP
- Rafael Piccolotto de Lima

- Jun 7
- 20 min read
Updated: 2 days ago
O que acontece quando as perguntas mais importantes de um estudante não cabem inteiramente no curso em que ele entrou?
Quando ingressei na UNICAMP aos dezoito anos, eu ainda não sabia exatamente qual seria meu caminho profissional, mas uma coisa já estava clara: queria compor. Havia começado a escrever minhas próprias peças por volta dos quinze anos e me interessava profundamente pelo processo de imaginar músicas e projetos, para depois buscar maneiras de realizá-los através da escrita e da prática musical. Por isso, entrar em um curso de Composição, e não de performance, foi uma escolha natural.
Minha escuta, porém, era muito mais abrangente do que uma única tradição. Eu ouvia artistas ligados à música brasileira e ao jazz, como Hermeto Pascoal, John Coltrane e Duke Ellington; compositores pertencentes à tradição da música de concerto, como Mozart, Bach e Stravinsky; e trilhas sonoras de grandes produções épicas, como as de John Williams, Hans Zimmer e Howard Shore. Essas referências não me pareciam incompatíveis. Todas alimentavam, de maneiras diferentes, minha curiosidade sobre composição, orquestração e as possibilidades expressivas da música.
O curso de Composição estava ligado principalmente à tradição da música de concerto, com atenção especial às estéticas composicionais dos séculos XX e XXI. A música de concerto não era nova para mim, mas eu ainda tinha pouca familiaridade com algumas de suas vertentes modernistas e experimentais, especialmente as linguagens atonais e seriais, a música espectral e outras abordagens composicionais que adquiriram forte presença no ambiente acadêmico ao longo do século XX. Essas linguagens despertavam minha curiosidade como campo de estudo, mas, naquele momento, não ocupavam um lugar central entre as referências que me mobilizavam artisticamente ou inspiravam a música que eu desejava escrever. As referências que mais diretamente me moviam estavam sobretudo no jazz e na música instrumental brasileira, incluindo as práticas de improvisação presentes nesses repertórios, e apareciam em diferentes cursos, departamentos e ambientes da universidade.
Eu ainda não percebia, mas minha formação na UNICAMP seria marcada menos pela escolha de um único caminho e mais pela tentativa de construir conexões entre as possibilidades que encontrava ao meu redor.

Quando as perguntas não cabem nas divisões existentes
Essa amplitude de interesses logo influenciou as escolhas que fiz durante a graduação. Comecei a frequentar disciplinas do curso de Música Popular e, com o tempo, esse percurso me levou a concluir também um segundo bacharelado, desta vez como saxofonista.
A composição erudita e a música popular ocupavam áreas relativamente independentes dentro da estrutura acadêmica. Circulando entre elas, encontrei professores, músicos, repertórios e práticas que contribuíam de maneiras diferentes para a formação que eu procurava.
Passei, assim, a organizar meu percurso a partir dessa circulação. Em cada área, buscava conhecimentos e experiências que ajudavam a desenvolver aspectos diferentes do meu trabalho. Foi dessa maneira que comecei a construir, dentro da própria universidade, uma formação que não estava concentrada em um único curso.
→ Leia como essa busca se desenvolveu posteriormente em minha pós-graduação nos Estados Unidos: Blurred Distinctions: O Que Minha Pesquisa de Doutorado Me Ensinou Sobre Jazz, Música de Concerto e Linguagens Híbridas
Um ecossistema onde tudo acontecia ao mesmo tempo
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O que mais marcou minha formação não foi uma disciplina específica, mas o ambiente. A UNICAMP funcionava como um ecossistema onde inúmeras experiências musicais coexistiam.
A própria organização dos horários deixava intervalos entre algumas aulas. Nessas janelas, os estudantes podiam praticar seus instrumentos, estudar, ensaiar e também conviver com os colegas.
Perto do Instituto de Artes havia uma cantina onde funcionava uma pequena banca de CDs. O responsável era o Naná, uma figura conhecida entre os alunos, que frequentemente colocava para tocar gravações interessantes. Entre um pão de queijo, um café ou um suco, ouvíamos aquelas músicas, conversávamos sobre o que estávamos estudando e compartilhávamos descobertas com os colegas.
Essas conversas ajudavam a formar referências, aproximavam estudantes de anos e cursos diferentes e faziam circular músicas que talvez não aparecessem nas disciplinas que estávamos frequentando. Parte da formação acontecia justamente nesses intervalos, mesmo quando não havia um objetivo definido para aqueles encontros.
As festas também integravam essa vida musical. Os próprios alunos montavam bandas, preparavam repertórios e tocavam para os colegas. A música aparecia junto às conversas, às paqueras e à socialização, em um ambiente muito diferente daquele das aulas e dos concertos formais.
No meu primeiro ano, durante as atividades de recepção dos calouros, alguns veteranos nos levaram a uma das repúblicas estudantis. Ali, uma banda formada por estudantes de turmas mais avançadas havia preparado um repertório incomum, exigente e, em alguns momentos, bastante virtuosístico. Lembro de ficar verdadeiramente encantado ao ver aqueles músicos tocando com tanta criatividade em uma apresentação informal, organizada fora do programa acadêmico.
Alguns daqueles músicos se tornariam parceiros em projetos posteriores e artistas com os quais mantenho afinidade musical até hoje. Um deles é Emiliano Sampaio, cuja trajetória possui pontos de contato com a minha, especialmente pela experiência de estudar fora do país, pelo trabalho com big bands e outras grandes formações instrumentais e pela proximidade entre os temas de nossas pesquisas acadêmicas. Sua trajetória é apenas um exemplo das relações artísticas iniciadas naquele ambiente que continuaram se desenvolvendo nos anos seguintes.
Anos depois, ao estudar na Frost School of Music e participar do Henry Mancini Institute, reconheci com maior clareza o valor daqueles espaços de criação artística que existiam dentro da universidade, mas fora da estrutura formal das aulas. Na Frost, encontrei um modelo mais organizado, com grupos previamente formados, programas definidos, agendas de apresentações e experiências de ensaio, gravação e produção integradas ao percurso dos estudantes.
Na UNICAMP, essa dinâmica surgia de outra maneira. Grande parte da atividade artística que mais nos mobilizava não fazia parte de uma programação institucional concebida para organizar essas experiências ou promover a autonomia dos alunos. Festivais como o FEIA, rodas de choro, festas, grupos autorais e apresentações organizadas pelos estudantes ampliavam aquilo que acontecia nas disciplinas. A universidade oferecia salas, instrumentos, professores, colegas e liberdade de circulação, mas era a relativa ausência de uma programação artística formalizada, combinada à presença de estudantes interessados em criar e realizar seus próprios trabalhos, que acabava produzindo condições favoráveis ao surgimento de projetos. Foi nesse contexto que formei vários dos meus grupos. Os projetos começavam a existir quando alguém reunia os recursos disponíveis e tomava a iniciativa de realizá-los.
Os dois ambientes ofereciam possibilidades importantes, mas por caminhos diferentes: na Frost, essas experiências eram sustentadas por uma estrutura mais organizada; na UNICAMP, muitas delas surgiam daquilo que os próprios estudantes construíam nos espaços ainda não ocupados pela programação institucional.

Aquele ambiente exemplificava uma dimensão duradoura da formação universitária: uma instituição também forma por meio dos encontros que permite e dos espaços que seus estudantes aprendem a ocupar.
Campinas: a cidade como extensão da universidade
Uma parte importante dessa formação aconteceu nos concertos a que eu assistia. Campinas possuía uma vida cultural ativa e recebia com frequência músicos cujos trabalhos eu admirava. Suas apresentações mostravam de maneira concreta como um artista podia construir uma trajetória sem se limitar a uma única tradição musical, possibilidade que dialogava diretamente com o trabalho que eu desejava desenvolver.
Espaços como a CPFL Cultura e o SESC tiveram um papel importante nesse processo, trazendo regularmente artistas que ampliavam nosso horizonte musical e apresentavam possibilidades que raramente apareciam de forma tão clara dentro das divisões acadêmicas.
Para muitos estudantes, a formação musical não terminava quando as aulas acabavam. Ela continuava nos concertos, oficinas, festivais e encontros que aconteciam pela cidade.
Lembro do impacto que tiveram sobre mim artistas como Benjamim Taubkin e a Orquestra Popular de Câmara, Hermeto Pascoal, Léa Freire, Mônica Salmaso, Nelson Ayres e o grupo Pau Brasil.
Esses concertos me colocavam em contato, por meio da curadoria desses espaços, com uma produção contemporânea que se desenvolvia especialmente em São Paulo e circulava por Campinas. Em retrospecto, vejo aquele período como um momento particularmente fértil da música brasileira na região. Em vez de uma estética dominante, encontrava uma grande diversidade de projetos, formações instrumentais e caminhos artísticos. Muitas daquelas possibilidades eram novas para mim e ampliavam minha percepção e minha curiosidade musical.
Também foi durante esse período que tive contato com artistas residentes de perfis muito diferentes, entre eles Arrigo Barnabé, cuja obra desafiava constantemente categorias e expectativas convencionais.
Aquelas experiências transformavam uma curiosidade ainda abstrata em possibilidades que podiam ser observadas na prática. Os artistas que eu acompanhava não apenas transitavam entre linguagens. Eles haviam criado grupos, repertórios e formas de trabalho capazes de sustentar suas escolhas musicais.
Os primeiros laboratórios de criação
Grande parte da minha formação aconteceu por meio dos grupos que criei ou dos quais participei. No primeiro ano, formei um quarteto de música instrumental brasileira com outros três alunos da minha turma. O pianista era um amigo próximo com quem eu havia estudado no colégio e que também havia tocado comigo na prova de aptidão para o curso. Eu tocava saxofone, e a formação se completava com contrabaixo e bateria.
Poucos meses depois do início das aulas, a universidade entrou em greve. Decidimos continuar nos encontrando e passamos a ensaiar quase diariamente em uma das salas de prática de grupo. O espaço possuía piano, bateria e amplificador de contrabaixo, tudo de que precisávamos para trabalhar o repertório durante horas.
Depois de algum tempo, comecei a notar que um aluno mais avançado aparecia ocasionalmente na sala e acompanhava parte dos nossos ensaios. Era o baixista Danilo Penteado, que estava concluindo sua formação na UNICAMP e integrava o Quatro a Zero, grupo de choro formado por músicos do curso de Música Popular que havia conquistado o segundo lugar no 7º Prêmio Visa de Música Brasileira em 2004. Depois de acompanhar alguns de nossos ensaios, Danilo me convidou para participar de uma nova formação ligada àqueles músicos. O projeto se tornaria a Gafieira Camisa Amarela, grupo no qual atuei como saxofonista e arranjador durante grande parte do período em que estive na UNICAMP.

Aquele convite teve um peso especial para mim. Uma iniciativa criada por quatro alunos do primeiro ano, mantida durante uma greve e desenvolvida fora das disciplinas havia chamado a atenção de um músico mais experiente. Os ensaios que organizamos por conta própria abriram caminho para um projeto que ocuparia um lugar importante na minha formação.

Nos anos seguintes, surgiu também o Caruwa, grupo que aproximava música instrumental brasileira, composição e elementos da música de câmara em uma formação pouco convencional.
O projeto nasceu porque eu não encontrava uma formação que permitisse aproximar ritmos regionais e tradições populares brasileiras de uma abordagem camerística. O grupo reunia instrumentos associados a diferentes universos musicais, como violoncelo, saxofone, contrabaixo acústico, viola caipira, violão e percussão. A Orquestra Popular de Câmara, uma referência importante em minha formação musical, exerceu forte influência sobre essa concepção. Reunir os músicos, desenvolver o repertório e ouvir as composições em ensaio tornou-se uma forma prática de explorar essas possibilidades. O grupo foi selecionado por um edital de incentivo à cultura e gravou um álbum.

Olhando para trás, percebo que o Caruwa antecipou não apenas questões musicais que reapareceriam no Chamber Project, mas também uma maneira de trabalhar. Quando uma ideia não cabia nas formações existentes, era possível reunir pessoas interessadas e criar um espaço para experimentá-la.

Também desenvolvi um quarteto autoral voltado a uma vertente mais experimental da música brasileira e do jazz contemporâneo. Sua proposta estética envolvia materiais atonais e modais, estruturas rítmicas compostas e uma reinterpretação livre de ritmos brasileiros. Essa busca ganhou forma especialmente na suíte Transfigurações Brasileiras, concebida como um espaço para transfigurar esses elementos e explorar novos caminhos para incorporá-los à escrita e ao repertório.
Foi com esse grupo que venci a etapa paulista do programa Furnas Geração Musical III, na categoria Música Instrumental Brasileira, e representei o estado de São Paulo na final nacional, realizada no Rio de Janeiro em 2009. A experiência mostrou que as investigações artísticas que eu vinha desenvolvendo começavam a encontrar ressonância fora do ambiente universitário.


Big bands, pesquisa e grandes formações
Outro espaço fundamental de aprendizado foi o Coletivo Orquestral da UNICAMP, dirigido pelo professor Mário Campos. Inicialmente participei do grupo como saxofonista e integrei a gravação do álbum Compacto.
Com o tempo, porém, minha relação com o Coletivo Orquestral começou a mudar. O grupo deixou de ser apenas um lugar onde eu tocava saxofone e passou a oferecer algumas das minhas primeiras oportunidades reais de escrever para grandes formações, apresentar composições próprias e reger.


Além de atuar como saxofonista no Coletivo Orquestral, passei também a levar composições próprias para o repertório. No Caruwa, no Rafael de Lima Quarteto e na Gafieira Camisa Amarela, eu costumava orientar leituras e ensaios de dentro da própria formação, mantendo minha posição como instrumentista. No Coletivo, a apresentação de composições minhas exigia que eu assumisse outro lugar: para ensaiar e apresentar essas obras, deixava a estante de saxofone e passava à frente da big band como regente. Foi nesse contexto que recebi algumas das minhas primeiras oportunidades de exercer a regência de maneira dissociada da atuação como instrumentista.
Essa mudança em minha atuação encontrava, em escala pessoal, um paralelo no desenvolvimento histórico das orquestras. Se observarmos a história da música, veremos que, durante o barroco e parte do classicismo, a direção musical costumava ser exercida por um instrumentista, frequentemente o cravista ou o primeiro violino, que tocava enquanto orientava os demais músicos. Entre o final do classicismo e o romantismo, com a ampliação das orquestras e o aumento da complexidade do repertório, essas responsabilidades se separaram gradualmente e deram origem à figura moderna do regente. Guardadas as proporções, minha trajetória seguiu um movimento semelhante: inicialmente, eu liderava os grupos enquanto tocava; mais tarde, passei a deixar o saxofone para assumir exclusivamente a regência.
Essa ampliação da minha atuação se refletiu nos dois concertos que encerraram meus bacharelados. Em 2009, o Coletivo Orquestral participou do meu recital de formatura em Composição. Em 2011, ao concluir o bacharelado em Música Popular, reuni o grupo à Orquestra Sinfônica da UNICAMP em uma formação jazz sinfônica, assumindo a regência de uma produção de escala maior.


Ao longo desses projetos, atuei como instrumentista, compositor, arranjador, regente e diretor musical. Algumas dessas funções se combinavam em um mesmo trabalho, enquanto outras eram exercidas separadamente, em projetos ou momentos distintos. Essa multiplicidade de atuações teria continuidade em trabalhos profissionais posteriores, entre eles a Orquestra Urbana, o Forró sem Palavras, o Chamber Project e minhas colaborações com a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas.
Enquanto desenvolvia essas experiências na prática, comecei também a investigá-las academicamente. Em uma iniciação científica orientada pelo professor doutor Rafael dos Santos, analisei a linguagem da big band brasileira a partir de arranjos de Nailor Azevedo “Proveta” para a Banda Mantiqueira.
→ Conheça a dimensão técnica e documental da pesquisa: Como Funciona a Linguagem da Big Band Brasileira? Lições dos Arranjos de Proveta e da Banda Mantiqueira
→ Conheça seus desdobramentos artísticos e reflexivos: O Que Minha Pesquisa Sobre Proveta e a Banda Mantiqueira Me Ensinou Sobre Linguagem Musical

A pesquisa me oferecia instrumentos para observar de maneira mais precisa aquilo que eu ouvia e tentava realizar. Analisar partituras, identificar procedimentos e compreender como elementos da música brasileira eram organizados na escrita para big band me ajudava a reconhecer com maior clareza aspectos que eu já percebia pela escuta e a relacioná-los às minhas próprias decisões de composição e arranjo.
Uma das obras que escrevi nesse período, Pelos Ares, recebeu o primeiro lugar no II Concurso Latino-Americano de Composição Ricardo Rizek para big band. O reconhecimento não encerrava aquelas investigações, mas indicava que o trabalho desenvolvido dentro da universidade começava a encontrar ressonância fora dela. Anos depois, a mesma composição daria nome ao primeiro álbum da Orquestra Urbana.
Aprender a pensar música
Existe outro aspecto da minha formação que considero igualmente importante: a universidade me ensinou a pensar música. Até então, muitas das minhas escolhas eram intuitivas. Eu sabia reconhecer aquilo que me interessava, mas nem sempre possuía instrumentos para compreender por que determinadas obras funcionavam daquela maneira ou como suas decisões se relacionavam com questões históricas e estéticas mais amplas.
As disciplinas de estética, filosofia, história da arte, história da música e pesquisa acadêmica ampliaram minha maneira de compreender a criação. A análise deixou de ser apenas um exercício de estudo e passou a oferecer ferramentas para formular perguntas, comparar soluções e reconhecer as consequências de determinadas escolhas artísticas.
Ao mesmo tempo, tive a oportunidade de estudar com Nelson Ayres, uma das minhas grandes referências musicais, e atuar como seu assistente em um projeto que reunia orquestra sinfônica e jazz dentro do departamento.
A convivência entre reflexão e prática foi decisiva, pois a universidade me oferecia experiências musicais diferentes e recursos para compreendê-las, estabelecer relações entre elas e tomar decisões mais conscientes.

Muito além do currículo
Ao olhar para trás, percebo que a contribuição da UNICAMP para minha formação esteve tanto no aprendizado proporcionado por cada disciplina, professor e projeto quanto na possibilidade de estabelecer relações entre experiências que, à primeira vista, pertenciam a caminhos diferentes.
Uma síntese concreta desse processo apareceu em 2011, no recital de conclusão do bacharelado em Música Popular. Decidi reunir a Orquestra Sinfônica da UNICAMP e o Coletivo Orquestral em um concerto de jazz sinfônico.

O concerto reunia, de maneira concreta, elementos que eu vinha desenvolvendo e articulando durante aqueles anos: a circulação entre diferentes ambientes musicais, a escrita e o arranjo para grandes formações, incluindo a incorporação de práticas de improvisação, a regência e a responsabilidade de criar um projeto capaz de integrar músicos com experiências distintas.
Nada disso havia sido planejado quando entrei na universidade. Cada etapa surgiu de uma necessidade concreta: procurar disciplinas em outra área, participar de grupos, formar projetos próprios, pesquisar repertórios, escrever para os músicos disponíveis e assumir novas responsabilidades quando as oportunidades apareciam.
A UNICAMP me ofereceu um ecossistema amplo, no qual pude experimentar possibilidades, estabelecer conexões e construir gradualmente meu caminho profissional.
Essa experiência continua presente na forma como trabalho com orquestras, big bands, projetos de câmara, gravações e iniciativas educacionais. Muitas vezes, criar música também significa criar as condições para que ela possa existir.
→ Continue explorando os próximos passos da minha trajetória de formação: Entre a Universidade e a Prática Profissional: Minha Experiência no Henry Mancini Institute
Apêndice: Projetos Artísticos e Experiências Profissionais Durante Minha Formação na UNICAMP
Este apêndice reúne, de forma documental, os principais projetos artísticos, atividades de pesquisa, experiências pedagógicas e realizações profissionais do período em que estudei na Universidade Estadual de Campinas, entre 2004 e 2011. Seu objetivo é complementar o caráter ensaístico deste artigo com um registro cronológico que permita identificar projetos, funções, instituições e resultados com maior rapidez.
As experiências relacionadas a seguir possuem vínculos diferentes com a universidade. Algumas nasceram em disciplinas ou atividades institucionais. Outras foram desenvolvidas por estudantes, professores e colaboradores fora do currículo formal. Consideradas em sua totalidade, elas registram minha atuação naquele período como compositor, arranjador, saxofonista, regente, pesquisador, educador e criador de projetos.
Formação acadêmica em Composição e Música Popular
PERÍODO: 2004 a 2011.
FORMAÇÃO: Bacharelado em Composição, concluído em 2009, e bacharelado em Música Popular, concluído em 2011, com formação como saxofonista.
REGISTRO: Ingressei na UNICAMP em 2004 para estudar Composição. Desde o início da graduação, além das disciplinas dessa modalidade, cursei como eletivas diversas matérias de Música Popular. Posteriormente, ingressei na chamada modalidade combinada, que permitia a realização de duas modalidades do curso de Música, no meu caso, Composição e Música Popular. Concluí o bacharelado em Composição em 2009 e permaneci na universidade até 2011, quando concluí também Música Popular, com formação como saxofonista. Durante esse período, cursei ainda disciplinas da área de Regência e desenvolvi paralelamente atividades de composição, performance, arranjo, pesquisa, ensino e regência.
Inconsciente e a primeira experiência com uma formação jazz sinfônica
ANO: 2004.
ATUAÇÃO: Compositor.
PROJETO: Inconsciente, minha primeira obra escrita para uma formação jazz sinfônica.
REALIZAÇÃO: Estreia pela Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas e pela Big Band Canavial. A obra, inspirada por ritmos do Nordeste brasileiro, especialmente o baião, marcou o início de minhas explorações entre música brasileira e escrita para big band e orquestra sinfônica, com a improvisação incorporada como recurso musical.
LINK RELACIONADO: Escrevendo Música Brasileira para Orquestra: Entre a Música Popular, o Jazz e a Música de Concerto.
Quarteto de música instrumental brasileira
ANO: 2004.
ATUAÇÃO: Saxofonista e um dos criadores do grupo.
FORMAÇÃO: Saxofone, piano, contrabaixo e bateria.
REGISTRO: O quarteto foi formado com outros estudantes do primeiro ano. Durante uma greve da universidade, mantivemos uma rotina quase diária de ensaios nas salas de prática do Instituto de Artes. A atividade chamou a atenção do baixista Danilo Penteado, integrante do Quatro a Zero, e contribuiu posteriormente para meu ingresso na Gafieira Camisa Amarela.
Octeto de música instrumental e apresentação no FEIA
ANO: 2005.
ATUAÇÃO: Saxofonista, compositor e arranjador.
ORIGEM: Aula de prática de grupo.
EXPLORAÇÃO MUSICAL: Esse foi um dos meus primeiros trabalhos em que aprofundei uma vertente mais experimental e vanguardista da minha escrita musical, em diálogo com aspectos da estética de Hermeto Pascoal e com o uso do atonalismo, de compassos compostos, de polirritmia e de outros procedimentos pouco presentes em repertórios mais convencionais.
REALIZAÇÃO: Preparação de repertório para uma formação instrumental ampliada e apresentação no Festival Estudantil do Instituto de Artes, o FEIA. O projeto levou uma atividade iniciada em disciplina a uma apresentação pública organizada no ambiente artístico da universidade.
Caruwa
PERÍODO: 2005 a 2009.
ATUAÇÃO: Saxofonista, compositor e um dos responsáveis pela concepção artística.
FORMAÇÃO: Saxofone, violoncelo, contrabaixo acústico, violão, percussão e viola caipira.
PROPOSTA ARTÍSTICA: Grupo instrumental dedicado a aproximar a composição de elementos da música brasileira e da música de câmara, com a improvisação incorporada à linguagem e à performance do grupo.
PRINCIPAIS REALIZAÇÕES: Projeto selecionado pelo Fundo de Investimentos Culturais de Campinas, o FICC, para a gravação do álbum Caruwa, lançado em 2008. O disco contou com participações de Léa Freire, Tibô Delor, Lívia Nestrovski e da Oficina de Cordas de Campinas. O grupo também foi selecionado pelo ProAC para uma circulação de apresentações e oficinas por cidades do estado de São Paulo e participou do meu recital de formatura em Composição, em 2009.
Gafieira Camisa Amarela
PERÍODO: Durante parte significativa da graduação, de 2006 a 2010.
ATUAÇÃO: Saxofonista e arranjador.
REGISTRO: Ingressei no grupo a convite de Danilo Penteado e Lucas da Rosa, depois da aproximação iniciada durante os ensaios do meu primeiro quarteto. A experiência envolveu repertórios ligados ao samba de gafieira e à música brasileira de dança, além da preparação de arranjos e da atuação profissional em uma banda de maior porte.
Encontro da International Association of Schools of Jazz (IASJ)
ANO: 2006.
ATUAÇÃO: Estudante representante da UNICAMP.
EVENTO: 16º Encontro Anual da International Association of Schools of Jazz, realizado na University of Louisville, em Louisville, Kentucky.
REGISTRO: A IASJ, fundada e dirigida artisticamente pelo saxofonista e educador Dave Liebman, reunia escolas e universidades de diferentes países. O encontro incluiu ensaios, apresentações, jam sessions, aulas e atividades de intercâmbio entre estudantes e professores ligados ao ensino do jazz.
Coletivo Orquestral da UNICAMP
PERÍODO: Aproximadamente 2006 a 2011.
DIREÇÃO: Professor Mário Campos.
ATUAÇÃO: Inicialmente saxofonista e, nos anos seguintes, também compositor e regente em projetos e apresentações especiais.
REGISTRO: Projeto relacionado ao ambiente da universidade, mas não restrito a disciplinas regulares. Suas atividades incluíam ensaios, concertos, repertório autoral, projetos com artistas convidados e gravação. O Coletivo ofereceu algumas das minhas primeiras oportunidades de escrever para uma grande formação e reger composições próprias.
GRAVAÇÃO: Participação no álbum Compacto, creditado a Mário Campos e Coletivo Orquestral e lançado pelo selo Kalamata.
OUTRAS REALIZAÇÕES: Participação no meu recital de formatura em Composição, em 2009, e no concerto de conclusão do bacharelado em Música Popular, em 2011, ao lado da Orquestra Sinfônica da UNICAMP.
Projeto interdisciplinar com Arrigo Barnabé
ANO: 2008.
ATUAÇÃO: Saxofonista junto ao Coletivo Orquestral.
CONTEXTO: Programa Artista-Residente da UNICAMP.
REALIZAÇÃO: Participação em um processo de criação que reuniu estudantes de Música, Dança, Artes Cênicas, Multimeios e Artes Plásticas e resultou em apresentações no Centro de Convivência Cultural de Campinas. O projeto integrou música, cena, movimento e elementos visuais em um espetáculo multimídia.
Rafael de Lima Quarteto e Transfigurações Brasileiras
PERÍODO: Projeto criado por volta de 2008, com desdobramentos até 2012.
ATUAÇÃO: Saxofonista, compositor e líder do projeto.
FORMAÇÃO: Saxofone, piano, contrabaixo e bateria.
PROPOSTA ARTÍSTICA: Repertório autoral relacionado à música brasileira, ao jazz contemporâneo e a linguagens experimentais, com práticas de improvisação integradas à construção e à performance do repertório.
PRINCIPAIS REALIZAÇÕES: Vitória na etapa paulista do Furnas Geração Musical III e participação na final nacional, realizada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro em 2009. O quarteto desenvolveu também o projeto Transfigurações Brasileiras, selecionado pelo ProAC para circulação pelo interior do estado de São Paulo entre 2010 e 2011. Entre essas apresentações esteve Transfigurações Brasileiras: Uma Perspectiva Musical, realizada no Painel Instrumental do Conservatório de Tatuí em 2011. O grupo foi ainda contemplado pelo FICC para a gravação de um álbum. Lançado em 2012, o disco registrou um repertório criado durante o período da graduação.
Pelos Ares (composição premiada)
ANO DO PRÊMIO: 2009.
ATUAÇÃO: Compositor.
PRINCIPAIS REALIZAÇÕES: Primeiro lugar no II Concurso Latino-Americano de Composição Ricardo Rizek para big band. Anos depois, Pelos Ares deu nome ao primeiro álbum da Orquestra Urbana, gravado em 2015 e lançado em 2016.
LINK RELACIONADO: Pelos Ares: Dentro do Primeiro Álbum da Orquestra Urbana.
Recital de formatura em Composição
DATA: 16 de novembro de 2009.
LOCAL: Auditório do Instituto de Artes da UNICAMP.
ATUAÇÃO: Compositor, saxofonista, regente e responsável pela articulação artística do programa.
PROJETOS PARTICIPANTES: Caruwa, Rafael de Lima Quarteto e Coletivo Orquestral da UNICAMP.
REGISTRO: O concerto reuniu, na mesma noite, três formações que representavam diferentes vertentes da minha produção durante o bacharelado: música popular de câmara, jazz contemporâneo em pequena formação e escrita para uma formação orquestral.
Pesquisa de iniciação científica sobre a linguagem da big band brasileira
PERÍODO: Junho de 2010 a maio de 2011.
PESQUISA: A big band brasileira: composições e arranjos de sambas de Nailor Azevedo “Proveta” para Banda Mantiqueira.
INSTITUIÇÕES: Instituto de Artes da UNICAMP e FAPESP, processo 2009/15878-6.
ORIENTAÇÃO: Professor doutor Antônio Rafael Carvalho dos Santos.
ATUAÇÃO: Pesquisador, transcritor e analista.
OBJETO DE ESTUDO: Vovô Manuel, a suíte sobre O Samba da Minha Terra e Saudade da Bahia, de Dorival Caymmi, e o arranjo de Prêt-à-Porter de Tafetá, de João Bosco e Aldir Blanc. A pesquisa envolveu reconstrução de grades a partir dos manuscritos utilizados pelos músicos, comparação entre partituras e gravações e uma entrevista com Nailor Azevedo “Proveta”.
DESDOBRAMENTO ARTÍSTICO: Reorquestração de parte do repertório analisado para uma formação jazz sinfônica, apresentada no concerto de conclusão do bacharelado em Música Popular, em 2011. Mais de uma década depois, esse repertório recebeu uma nova reorquestração, desta vez para big band completa, e passou a integrar programas de concertos da Orquestra Urbana.
LINK RELACIONADO: Como Funciona a Linguagem da Big Band Brasileira? Lições dos Arranjos de Proveta e da Banda Mantiqueira.
Experiência como educador e monitor
PERÍODO: Durante a graduação.
ATUAÇÃO: Professor de instrumento complementar, ensinando saxofone a estudantes que o estudavam como segundo instrumento. Monitor e responsável por uma turma de prática de grupo para estudantes do primeiro ano, com acompanhamento de ensaios, organização de repertório e orientação do trabalho coletivo.
Residência artística de Nelson Ayres e atuação como regente assistente
PERÍODO: 2011.
CONTEXTO: Nelson Ayres participou das atividades do Departamento de Música como artista convidado em residência, em um modelo institucional semelhante ao da residência realizada anteriormente por Arrigo Barnabé. Ele não integrava o corpo docente permanente da UNICAMP.
ATUAÇÃO: Estudante participante e regente assistente de Nelson Ayres.
REGISTRO: Durante a residência artística, participei de atividades orientadas por Nelson Ayres e atuei como seu regente assistente em um projeto que reunia estudantes em uma formação jazz sinfônica. A experiência envolveu o acompanhamento de ensaios e de decisões relacionadas a arranjo, regência, equilíbrio instrumental e integração entre músicos de diferentes formações.
Concerto de conclusão do bacharelado em Música Popular
ANO: 2011.
FORMAÇÃO: Orquestra Sinfônica da UNICAMP e Coletivo Orquestral reunidos em uma formação jazz sinfônica.
ATUAÇÃO: Compositor, arranjador, regente e diretor musical.
PROGRAMA: Obras autorais e desdobramentos da pesquisa de iniciação científica, incluindo reorquestrações dos arranjos de Nailor Azevedo “Proveta” sobre O Samba da Minha Terra e Saudade da Bahia, de Dorival Caymmi, e Prêt-à-Porter de Tafetá, de João Bosco e Aldir Blanc.
REGISTRO: O concerto encerrou meu percurso de graduação reunindo composição, arranjo, performance, pesquisa e regência, além das experiências acumuladas com música brasileira, jazz, big band e orquestra sinfônica desde 2004.
Continue explorando
→ Escrevendo Música Brasileira para Orquestra: Entre a Música Popular, o Jazz e a Música de Concerto
Sobre o Autor
Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Além de sua atuação artística, desenvolve atividades de ensino, mentoria e formação de músicos nas áreas de composição, arranjo, criatividade musical e desenvolvimento artístico.

