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Relevância artística: entre excelência, conexão e sobrevivência criativa

Atualizado: 28 de mar.

Nos últimos tempos, tenho refletido muito sobre o que significa relevância artística. E imagino que, se você é músico ou trabalha com qualquer forma de expressão artística, essa pergunta já deve ter passado pela sua cabeça em algum momento.


Ser artista, especialmente de forma profissional, é buscar algum tipo de relevância. É criar (e viver) experiências que gerem impacto. É pensar no agora (criação), mas também pensar em uma construção, em um legado. É querer fazer um trabalho que tenha valor tanto para os outros quanto para si mesmo. É um processo de prazer e descoberta, mas que também envolve desafios, tanto de criação e performance, quanto de desenvolvimento de carreira. E, inevitavelmente, envolve o reconhecimento do outro, o desejo de que aquilo que fazemos ressoe, tenha impacto e encontre espaço no mundo.


Além disso, existe um aspecto muito concreto dessa busca. Vivemos em um mundo de mercado. Escolher a arte como profissão implica, como qualquer outra carreira, encontrar formas de sustentar a própria vida com o resultado e retorno financeiro desse trabalho. Em algum nível, relevância também se conecta à sobrevivência e à sustentabilidade.


Essas reflexões não são novas para mim, mas nos últimos tempos tenho voltado a elas com mais profundidade.


As várias faces da relevância artística


Tentando entender o significado da própria palavra relevância, chego a uma série de reflexões.


De maneira relativamente didática, podemos pensar na relevância atribuída a diferentes características e qualidades de um artista e de uma obra.


A relevância artística para nós músicos é a capacidade de criar algo que transcende o imediato, que propõe uma experiência estética ou expressiva que permanece e que amplia a forma de ouvir, sentir ou pensar a música.


A relevância social e de público se manifesta na capacidade de se conectar com as pessoas, provocar emoções, reflexão ou engajamento. É uma relevância mais imediata, em contraste com a relevância artística, que transcende o instante e não está necessariamente ligada a reconhecimento em escala, não é sobre quantidade. Essa face (social e de público) é sobre tocar as pessoas aqui e agora, gerar ressonância no presente e atingir o maior número de pessoas possível.


A relevância histórica e cultural surge quando uma obra dialoga com o tempo em que existe, com os movimentos culturais e sociais daquela geração. Ela pode traduzir aquele momento histórico ou até influenciar outras criações e percepções daquele período.


Por fim, a relevância profissional diz respeito a como um artista ou uma obra existe dentro de um ecossistema cultural (e mercadológico). Está ligada à contribuição para projetos, grupos, instituições e ao reconhecimento entre pares. A quanto um determinado profissional é requisitado (e valorizado) dentro do mercado.


Essas são diversas faces da relevância, e hoje consigo enxergá-las com mais clareza. Parte desse entendimento se conecta diretamente ao meu próprio desejo e à busca por ser um artista verdadeiramente relevante.


Ao longo deste texto, compartilharei reflexões sobre cada uma dessas facetas, mostrando como elas se manifestaram ao longo da minha trajetória, nas experiências, conquistas e também nas dúvidas e frustrações que vivi como criador musical.


Relevância como excelência, originalidade e profundidade


Durante muito tempo, a palavra relevância esteve ligada, para mim, à excelência técnica, à criatividade e à originalidade. Quando penso nisso, minha mente vai direto para grandes nomes da história da música, como J. S. Bach, Beethoven e Mozart, artistas que atingiram níveis altíssimos de excelência e impacto em sua época e que continuam sendo estudados e tocados séculos depois.


Em tempos mais recentes, no Brasil, penso em nomes como Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim ou Hermeto Pascoal. Artistas que criaram linguagens próprias, expandiram horizontes estéticos e deixaram obras profundas e transformadoras.


Por muito tempo, foi esse tipo de relevância que busquei na minha trajetória. A ideia de que, ao atingir altos níveis de originalidade, profundidade e excelência artística, o reconhecimento dessa relevância viria naturalmente como consequência (e geraria diversos frutos positivos).


Talvez você também tenha sentido isso: a sensação de que o valor artístico, por si só, deveria ser suficiente para gerar reconhecimento, impacto e espaço no mundo.


Mas não é bem assim.


A relevância da conexão com o público


Com o tempo, comecei a perceber que existe outro tipo de relevância igualmente poderosa: a relevância através da identificação e ressonância daquilo que se cria com o público, da conexão direta com as pessoas.


Isso me remete a uma frase associada a Milton Nascimento, de que “o artista precisa estar onde o povo está”. Não apenas fisicamente, mas emocionalmente, culturalmente, simbolicamente.


Muitas vezes, aquilo que mais ressoa com as pessoas não é o mais complexo, nem o mais inovador, nem o mais sofisticado tecnicamente. O que conecta, muitas vezes, é o que é familiar, acessível e imediato.


Hoje, com redes sociais e algoritmos, essa lógica se intensifica. A identificação instantânea tende a circular mais, alcançar mais pessoas e se tornar visível. E não é só sobre a música; é também sobre como ela é apresentada, visualmente e contextualmente. Surge, assim, uma relevância ligada ao alcance e à presença midiática.


Reconhecimento artístico e impacto real


Relevância também está muito ligada à validação, especialmente por aqueles que consideramos como profundos conhecedores daquilo que se faz. No meu caso, músicos que eu admiro, profissionais respeitados dentro do universo musical, especialmente por outros músicos.


Durante uma fase da minha vida, quando fui para os Estados Unidos fazer minha pós-graduação, foquei bastante na participação em concursos e na busca por reconhecimento em instituições relevantes. Foram alguns bons anos focados nisso.


Como um jovem criador musical, eu acreditava que o que eu precisava, para crescer na minha carreira e abrir novas portas, era o reconhecimento institucional. Eu precisava receber “selos de qualidade” reconhecidos, para que os detentores de recursos (possíveis patrocinadores, curadores de séries de concertos, diretores de orquestras) confiassem no meu trabalho e me dessem as condições para produzir e me apresentar nos melhores lugares.


Nessa busca, conquistei prêmios como compositor, arranjador, engenheiro de áudio e diretor musical pela DownBeat Magazine, além de receber, por duas vezes, o prêmio de jovens talentos em composição de jazz pela ASCAP, ganhei a medalha Carlos Gomes na minha cidade natal. Fui indicado ao Latin Grammy Awards como melhor compositor de música clássica aos 27 anos, possivelmente sendo uma das pessoas mais jovens a alcançar essa indicação nessa categoria.



E sim, dentro do meio profissional, esses reconhecimentos carregam um peso importante. São sinais de excelência e validação artística.


Mas até que ponto esse reconhecimento realmente coloca um artista em posição de realizar projetos de forma sustentável?


Direto ao ponto: esse reconhecimento se traduz em recursos reais? Se transforma em retorno financeiro? E esse retorno financeiro, de fato, se converte em poder de realização e crescimento na carreira?


E, além disso, até que ponto esse tipo de relevância dialoga com o público fora do meio especializado?


Quando os números contam outra história


Essa distância fica clara quando observo minhas próprias redes e meu canal. Quando compartilho obras originais minhas, inclusive premiadas, a ressonância costuma ser pequena. Poucas visualizações, pouco engajamento, circulação restrita a um público específico.



Por outro lado, trabalhos realizados com artistas de grande popularidade geram números dezenas ou centenas de vezes maiores.


A sensação é conhecida para muitos artistas: o trabalho no qual colocamos estudo, profundidade e intenção recebe pouco retorno, enquanto algo mais acessível ou ligado a nomes populares ganha enorme visibilidade.


O que isso nos diz sobre o mundo artístico atual? Sobre público? Sobre mercado? Sobre nós mesmos como criadores?


Relevância, público e viabilidade no mundo real


Hoje, uma questão se tornou central: dentro de uma estrutura de mercado, o interesse do público e, por consequência, a viabilidade financeira são fundamentais para a realização de projetos artísticos.


Produzir música não é apenas criar obras; é também garantir que essas obras existam de forma concreta. Trabalhar com outros artistas, contar com infraestrutura de qualidade, ter espaços, teatros ou salas de concerto exige investimento. Esse investimento depende de público interessado e de um valor percebido que se traduza em retorno financeiro, permitindo que o projeto seja sustentável.


Logo após terminar meu doutorado, percebi isso de forma muito clara. Apesar de prêmios e reconhecimentos, ao tentar apresentar minhas obras em espaços de relevância, encontrei um cenário diferente. Para produtores culturais e donos de casas de show, o peso de um prêmio tinha muito menos valor do que a capacidade de levar público. Essa realidade impacta diretamente o que é possível realizar artisticamente.


Essa constatação, por mais dura que pareça, não diminui o valor da excelência ou da originalidade. Mas mostra que relevância artística e viabilidade mercadológica são coisas distintas. Pensar na circulação e sustentabilidade do trabalho é parte essencial da própria criação artística (para que ela possa existir no mundo).


Admiração e resistência artística


Quando eu estava na faculdade, havia músicos que eram verdadeiros heróis para mim, músicos de destaque no meio instrumental de São Paulo, artistas que estavam gravando álbuns instrumentais e tocando em espaços culturais. Eu os admirava por sua expressividade, técnica e criatividade, e me incomodava o fato de muitos serem pouco conhecidos fora do meio musical. Parecia injusto que tamanha excelência não encontrasse um reconhecimento mais amplo.


Hoje, observo essa realidade retroativamente com uma percepção mais ampla e valorizo ainda mais a coragem desses músicos em seguir seu próprio caminho, construindo carreiras sustentáveis mesmo em nichos restritos. São artistas que criam sem se subjugar às demandas do mercado ou às tendências algorítmicas. A música deles não é pasteurizada. Conseguem criar algo em que acreditam ser verdadeiro e fazer essa música existir e acontecer.


Essa admiração se transformou em modelo para mim: a lembrança constante de que, mesmo em um mercado que valoriza números e alcance, é possível manter autenticidade, criar com integridade e produzir arte alinhada com o que se acredita.


Capital cultural e capital de mercado


Essa admiração revela outro aspecto fundamental do meio artístico: a tensão entre capital cultural e capital de mercado.


Nem todo valor é medido em números. Capital cultural está ligado à integridade artística, à excelência técnica, à criatividade e à inovação. Ele constrói relevância dentro do meio, mas não necessariamente se traduz em bilheteria ou popularidade. Gera respeito entre pares, aproxima artistas e instituições que compartilham valores estéticos e éticos.


Ao mesmo tempo, há artistas com enorme sucesso comercial que não ocupam o mesmo prestígio dentro do meio artístico. Esse descompasso evidencia uma tensão inevitável: o que o mercado premia nem sempre coincide com o que o meio artístico reconhece como valor.


Entre escolhas artísticas e caminhos possíveis


Hoje, busco um caminho onde diferentes formas de relevância coexistam. Continuo criando trabalhos originais, desafiadores e sofisticados, mesmo sabendo que talvez nunca dialoguem com um público amplo. Ao mesmo tempo, colaboro com artistas que possuem grande identificação popular, levando minha arte para espaços de maior alcance e conexão.


Talvez essa seja uma das grandes questões do artista contemporâneo: não escolher entre profundidade e alcance, mas aprender a navegar entre eles. Não abandonar a busca artística, mas também não ignorar o mundo real em que a arte circula.


Ambos os caminhos são válidos e constroem relevância de maneiras diferentes: um reforça excelência e originalidade; o outro amplia impacto e conexão.



Afinal, o que é ser relevante hoje?


No fim das contas, talvez a pergunta não seja se devemos buscar reconhecimento ou alcance junto ao público, mas como equilibrar essas forças ao longo de uma vida artística.


Até que ponto queremos tocar o maior número possível de pessoas, cultivando uma relevância social e de público, e ao mesmo tempo não nos diluir em algo previsível, raso ou feito para agradar o que já se espera?


Até que ponto conseguimos sustentar uma visão pessoal, profunda e provocadora, aquela relevância artística que desafia, inova e, muitas vezes, nem todos entendem ou aceitam?


Até que ponto buscamos retorno financeiro, visibilidade e reconhecimento, sinais de uma relevância profissional que nos permite existir dentro de um ecossistema cultural, mas que também pode nos prender a regras de mercado, a expectativas externas, a compromissos que desviam da criação?


E como equilibrar tudo isso com a vontade de deixar marcas que transcendem o instante, aquela relevância histórica e cultural que não se mede em likes, contratos ou bilheteria, mas que insiste em existir no tempo?


Ser relevante, então, é estar sempre entre contradições. É querer ser ouvido sem querer se submeter; é desejar impacto imediato sem abrir mão da profundidade; é buscar sustento sem trocar nossa voz por conveniência; é criar para agora, mas sem perder de vista o que poderá resistir.


Para mim, ser relevante hoje é navegar essas tensões, mantendo uma prática coerente com aquilo que me move, garantindo que a música exista plenamente, remunerando justamente músicos e colaboradores, e vivendo dignamente desse trabalho.


E ainda assim, a relevância continua sendo um território em movimento. É paradoxal, contraditória, imprevisível, e talvez nem sempre possa ser explicada. Mas é nesse conflito, entre desejo, criação, público, mercado e legado, que encontramos sentido, e é nele que a vida de um artista realmente se desenrola.


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Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador
Sobre o autor

Rafael Piccolotto de Lima foi indicado para o Grammy Latino como melhor compositor erudito. Ele é doutor em composição de jazz pela Universidade de Miami e tem múltiplos prêmios como arranjador, diretor musical, produtor e educador.


Suas obras foram estreadas e/ou gravadas por artistas como as lendas do jazz Terence Blanchard, Chick Corea e Brad Mehldau, renomados artistas brasileiros como Ivan Lins, Romero Lubambo, e Proveta, e orquestras como a Jazz Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica das Américas e Metropole Orkest (Holanda).


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