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O Que Aprendi Sobre Música Brasileira Construindo uma Carreira Entre Brasil e Estados Unidos

Atualizado: há 11 horas

Recentemente recebi um convite inesperado para uma entrevista no Correio Popular de Campinas.


Não havia nenhum lançamento para divulgar. Nenhum concerto específico acontecendo. Nenhum projeto novo que justificasse uma matéria de página inteira em um jornal.


Por isso mesmo, aceitei o convite sem grandes expectativas. Imaginei que seria apenas uma conversa sobre minha trajetória profissional, os estudos nos Estados Unidos e alguns dos projetos que venho desenvolvendo nos últimos anos.


Mas quando a matéria foi publicada, uma coisa me chamou atenção.


Apesar de a conversa ter passado por temas muito diferentes - universidade, jazz, composição, Grammy Latino, Nova York, educação musical e projetos artísticos -, a música brasileira aparecia repetidamente.


Faz sentido que tenha sido assim.


Quando penso nos projetos mais importantes da minha trajetória, percebo que essa relação com a música brasileira está presente de uma forma ou de outra. Nem sempre de maneira explícita, mas quase sempre como parte daquilo que orienta minhas escolhas artísticas.


Estudar Jazz nos Estados Unidos Sem Deixar o Brasil Para Trás


Quando decidi estudar nos Estados Unidos, mais de uma década atrás, meu principal objetivo era mergulhar em um universo musical que me fascinava desde a adolescência: o jazz.


Queria aprender com grandes músicos, entender outras formas de pensar composição, arranjo, improvisação e orquestração. Queria ampliar meu repertório e expandir minhas ferramentas como criador musical.


E foi exatamente isso que aconteceu.


Ao longo dos anos, percebi que muitas das oportunidades que surgiam estavam justamente ligadas a esse encontro entre a formação que eu trazia do Brasil e aquilo que fui buscar nos Estados Unidos.


Eu já tinha clareza da importância da música brasileira na minha formação antes mesmo de sair do Brasil. Quando decidi estudar nos Estados Unidos, não fui em busca de uma substituição dessas referências, mas de uma expansão.


Queria aprofundar meu contato com o jazz, com a composição e com outras formas de pensar a música. Queria entender o que poderia surgir desse encontro entre universos que já me fascinavam.


O Encontro Entre Música Brasileira, Jazz e Composição


Com o tempo, muitos dos projetos que desenvolvi passaram a nascer justamente desse diálogo entre diferentes tradições musicais.



Esse encontro começou a aparecer cada vez mais claramente nas minhas composições, arranjos e projetos artísticos. Não porque eu estivesse tentando representar uma ideia abstrata de brasilidade, mas porque essas linguagens fazem parte da maneira como escuto, penso e organizo a música.


Hoje, olhando retrospectivamente, percebo que uma parte importante da minha trajetória aconteceu justamente no encontro entre diferentes universos musicais: a tradição da música de concerto, o jazz e a música brasileira.


Como Essa Perspectiva Passou a Definir Minha Trajetória


Talvez por isso eu tenha me identificado tanto com um comentário presente na matéria. Em determinado momento, a jornalista menciona que parte do meu trabalho é vista no exterior como uma forma de jazz brasileiro.


A observação me chamou atenção porque ela descreve algo que reconheço no meu próprio percurso.


Com o tempo, entendi que uma parte importante do meu trabalho acontecia justamente nesse espaço de encontro entre diferentes tradições musicais. Não apenas no domínio de uma linguagem específica, mas na possibilidade de colocá-las em diálogo.


No meu caso, essa perspectiva passa inevitavelmente pelo Brasil.


Uma Conversa Sobre Música Brasileira, Carreira e Educação Musical


A matéria reproduzida abaixo nasceu dessa conversa e registra alguns episódios importantes dessa trajetória, desde os anos de estudo nos Estados Unidos até a indicação ao Grammy Latino e os projetos mais recentes ligados à educação musical.


Compartilho o texto na íntegra.


Um sucesso "made in" Brasil (matéria do jornal Correio Popular de Campinas)
Um sucesso "made in" Brasil (matéria do jornal Correio Popular de Campinas)

Compartilho com vocês aqui o texto na íntegra:

Quando o campineiro Rafael Piccolotto de Lima, formado em Composição pelo departamento de Música da Unicamp, decidiu continuar os estudos nos Estados Unidos, ele queria explorar novos conhecimentos no berço do jazz. Hoje, 11 anos depois, com uma carreira de compositor estruturada em Nova York e uma indicação ao Grammy Latino, ele vê que parte do que o levou a este lugar é o que chama de "carta na manga que quase ninguém tem": explorar nos seus arranjos a riqueza da música brasileira. "Sou privilegiado, sempre levei o Brasil comigo", ressalta.
Sua formação brasileira sempre o colocou mesclando a música popular e a erudita, mas com a adição do jazz das suas pesquisas internacionais, ele pôde testar novas possibilidades. Hoje, muito do seu trabalho no exterior é chamado de "brazilian jazz", o jazz brasileiro, pois incorpora todas suas referências. "Lá, eles veem a nossa cultura com muito respeito e interesse [...] Nós temos essa mistura de música da Europa, desta tradição que era bem estabelecida, com o ritmo, o swing e o balanço da África. Nos Estados Unidos, essa mistura virou o jazz. Por aqui virou samba, forró, chorinho. É uma riqueza musical gigante", afirma.
Um dos seus maiores orgulhos é ter feito um arranjo para o célebre Chick Corea, que se estabeleceu como um dos principais pianistas de jazz nos anos 1960. Mas ele também colaborou com muitos artistas brasileiros, como Ivan Lins, Ana Carolina, Zélia Duncan, Romero Lubambo, Martinho da Vila e Alcione. O maestro conta que a vivência fora trouxe frutos na terra natal. "Por causa das minhas realizações nos Estados Unidos eu chamei a atenção no Brasil, me abriu portas". Em conversa com o Caderno C, ele até brincou relacionando sua própria caminhada com a Jornada do Herói, o conceito de jornada cíclica descrita por Joseph Campbell. "Quando a pessoa tem que sair do lugar de origem, conquistar algo em outro lugar para voltar transformada, ter o reconhecimento e trazer coisas boas de volta".
Rafael costuma vir pelo menos uma vez por ano para Campinas, para ver a família. Mas aproveita também para trazer projetos para desenvolver aqui. Um deles foi o "Forró Sem Palavras", arranjos baseados nos ritmos tradicionais do Nordeste com uma linguagem do jazz e da música de concerto. Este foi desenvolvido pelo compositor nos Estados Unidos, depois estreou em Nova York, mas também recebeu apresentações por aqui em 2019 pela Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, sob sua regência. "Começou em Campinas, com o meu interesse na música da época que eu dançava nos bares em Barão Geraldo, deu uma volta pelos Estados Unidos e voltou para cá", frisa.
O Grammy que quase não aconteceu
A indicação para o Grammy Latino em 2013, quando ele tinha 28 anos, é uma das grandes conquistas na jovem carreira de Rafael, reverberando a cada convite que recebe para novos projetos. A obra, "Aberturas Jobinianas" foi inspirada no trabalho sinfônico de Tom Jobim. Mas ele revelou que quase não inclui sua composição no álbum para o qual colaborou e que foi selecionado para o prêmio. O motivo? Ainda queria fazer revisões na obra e trabalhar uma interpretação diferente do arranjo. "Foi surpreendente! Eu não esperava. Nenhuma das outras músicas do álbum conseguiram a indicação e a minha, que não era o destaque do disco, conseguiu. Uma parte da minha história seria totalmente diferente se não fosse a insistência dos meus colegas de adicionar esta peça".
Os novos projetos de Rafael passam pelos caminhos da educação. Ele tem preparado cursos online, aulas em tempo real e também materiais gratuitos que devem ser disponibilizados, em breve, no YouTube. A ideia é lançar os primeiros no primeiro semestre de 2023 e pretende atuar em inglês e português, mas o foco é no Brasil. "Quero retornar esse conhecimento que acumulei nesses 20 anos para outras pessoas. Sei que muitos não têm a oportunidade que eu tive. Essa é a posição em que me vejo hoje, de trazer projetos interessantes, de coisas que aprendi fora, também para o Brasil", conclui.

Matéria escrita por Aline Guevara

Publicado no Correio Popular de Campinas, dia 15/01/2023


Continue Explorando


Uma reflexão sobre identidade artística e a construção de uma linguagem musical entre diferentes tradições.


Sobre os desafios e possibilidades que surgem quando diferentes universos musicais passam a dialogar.


Uma reflexão sobre crescimento artístico, colaboração e o impacto das parcerias no desenvolvimento profissional.


Como projetos autorais e uma visão artística consistente podem influenciar os caminhos de uma carreira musical.



Sobre o autor


Rafael Piccolotto de Lima é compositor, arranjador, diretor musical e educador. Foi indicado ao Grammy Latino e teve obras apresentadas e gravadas por artistas como Terence Blanchard, Chick Corea, Brad Mehldau e Ivan Lins, além de orquestras como Metropole Orkest e Brasil Jazz Sinfônica.




Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador

 
 
 

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