top of page

O estudo da instrumentação e a escrita orquestral

Atualizado: 1 de mai. de 2023

"O maestro precisa saber tocar todos os instrumentos?"


Essa pergunta é tão comum que já virou até piada no meio musical.


Não me lembro nem quantas vezes eu ouvi essa pergunta de pessoas que ficam sabendo do meu trabalho como diretor musical, maestro ou compositor.



E a resposta é não!


A chave do entendimento dessa questão é o estudo da instrumentação. Uma area de conhecimento importante para compositores, arranjadores, orquestradores e maestros. Basicamente, instrumentação é o estudo teórico do funcionamento dos instrumentos.


Explico melhor: compositores, maestros não precisam e talvez nem conseguiriam ser realmente proficientes em muitos instrumentos, quanto mais em todos. Mas sim, eles precisam entender o funcionamento de cada um, tanto para escrever, quanto para dirigir.


Através do estudo da instrumentação, aprendemos os fundamentos técnicos e as características relevantes de cada instrumento; tais como tessitura, articulação, potência sonora e dificuldades técnicas, só para citar alguns elementos que devemos entender e dominar.


Também é importante compreender como esses instrumentos se comportam em um coletivo; como parte de um grupo musical ou uma orquestra. Isso tudo é importante para que o criador musical escreva de maneira idiomática e evite problemas de execução por parte dos instrumentistas (músicos que dedicaram a vida ao estudo e prática deste instrumento em particular).


O mesmo acontece em relação à direção musical. O regente precisa conhecer muito bem os instrumentos para poder dirigir os instrumentistas. O maestro tem que entender como o instrumento pode (e deve) soar para saber o que pedir, como sugerir e como direcionar a interpretação dos músicos. Tudo isso faz parte do estudo da instrumentação.


Rafael Piccolotto de Lima em ensaio com a Orquestra Sinfônica da UNICAMP (2011)

Eu, por exemplo, quando me graduei em composição pela Unicamp - Universidade Estadual de Campinas (SP) - tive um ano de instrumentação como parte do meu currículo, precedendo um ano de orquestração. Durante este período, focamos cada semana em um dos instrumentos, entendendo suas características principais. Nós tínhamos - inclusive - acesso ao instrumento em si e a instrumentistas, muitas vezes, músicos da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (OSMC) ou da Orquestra da Unicamp (OSU). Nestas oportunidades, podíamos ouvir cada instrumento isoladamente, conhecer trechos orquestrais famosos e de solo, além de entender questões técnicas do instrumento demonstradas na prática.


Diferente da performance - que para maioria das pessoas seria impossível chegar em um nível de proficiência razoável em todos os instrumentos - o estudo da instrumentação permite, em um relativo curto tempo, entender todos os instrumentos da orquestra e além dela. E como consequência, estarmos muito mais preparados para escrever para eles de maneira efetiva e idiomática.


Dito isso, acredito que sim, o contato direto - a prática do instrumento - pode ser uma experiência muito positiva, tanto para compositores, arranjadores quanto para orquestradores e maestros. Esse contato real, experienciando as dificuldades, os desafios e as sonoridades de cada instrumento musical, pode ser uma vivência extremamente útil.


Estudo de caso - minha experiência

Vou me utilizar aqui como exemplo. Comecei meus estudos musicais com trompete, estudei um pouco de piano, depois migrei para o saxofone, aprendi um pouco de flauta transversal, e ainda estudei alguns instrumentos de percussão (de maneira bem superficial). Toda vez que eu escrevo para qualquer um desses instrumentos, ou famílias de instrumentos, eu tenho uma vivência, um repertório empírico no qual posso me basear.


Em oposição, já não tenho essas mesmas práticas em vários outros instrumentos, como por exemplo percussões sinfônicas, instrumentos de corda, ou um acordeão. São todos instrumentos com os quais tive pouco ou nenhum contato prático. Mas, devido ao estudo da instrumentação, da audição de repertório e da prática da escrita, eu me sinto muito confiante para compor - também - para esses instrumentos.


Então - voltando a pergunta de abertura deste artigo - não, eu não toco todos os instrumentos, mas sim, eu me sinto muito confiante para dirigir e escrever para qualquer um deles!

 

Gostou do conteúdo?


Deixe nos comentários dúvidas e sugestões para os próximos blogs! E não deixe de visitar os meus perfis no Instagram, Facebook e o canal do YouTube para vídeos completos com conteúdos exclusivos!


 
Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador
Sobre o autor

Rafael Piccolotto de Lima foi indicado para o Grammy Latino como melhor compositor erudito. Ele é doutor em composição de jazz pela Universidade de Miami e tem múltiplos prêmios como arranjador, diretor musical, produtor e educador.


Suas obras foram estreadas e/ou gravadas por artistas como as lendas do jazz Terence Blanchard, Chick Corea e Brad Mehldau, renomados artistas brasileiros como Ivan Lins, Romero Lubambo, e Proveta, e orquestras como a Jazz Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica das Américas e Metropole Orkest (Holanda).


Criadores musicais (conteúdo educacional):

Rafael Piccolotto de Lima (conteúdo artístico):
42 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Commentaires


bottom of page