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As (possíveis) frustrações do estudo de composição musical

Atualizado: 3 de jan. de 2023

O caminho do compositor pode ser muito solitário e frustrante, eu sei. Encarar uma folha em branco sem saber por onde começar pode ser muito desafiador. Começar a escrever e se questionar sobre a qualidade (e relevância) do trabalho pode ser paralisante. Não saber como continuar... Ou ainda pior, questionar se vale a pena continuar! O que fazer então?



Eu sei que vocês estão acostumados a me ver aqui na posição de professor. Mas, nesta minha jornada de mais de 20 anos escrevendo músicas, eu passei por muitas experiências como estudante! Já me empolguei com projetos que acabaram não dando certo e me frustrei com alguns professores que não atenderam minhas expectativas da época.


Talvez você olhe para a minha produção musical atual - com obras apresentadas em algumas das principais salas de concerto do mundo - e não imagine os desafios que passei ao longo dos anos estudando composição. As experiências foram as mais diversas possíveis, desde o período pré-universidade, com professores particulares, passando pela graduação na Unicamp, o mestrado e doutorado na Universidade de Miami, até minha experiência como o grupo de compositores da BMI em Nova Iorque.


Por isso, hoje me (re)coloco na posição de aluno e conto para vocês um pouco das minhas frustrações com o ensino de composição. Nesse artigo eu conto um pouco da minha trajetória como aluno de composição. Divido meus pensamento sobre as aulas e experiências que realmente fizeram a diferença no meu aprendizado. Também compartilho um pouco das frustrações que eu tive nessa jornada artística. Dessa maneira você pode evitar esse tipo de situação.


Espero, através desse artigo, poder te ajudar a encontrar o melhor caminho para seu aprendizado e crescimento como criador musical.



Diagnóstico

Eu acredito que o estudo da área de composição – e tudo que envolve a área criativa – é uma das áreas mais difíceis de se ensinar, e ensinar bem. É muito fácil de se perder pelo caminho, o professor dar pequenos truques, querer ensinar fórmulas, focar em coisas extremamente técnicas ou, em oposição, devanear demais. Tudo isso leva a um caminho de ensino pouco efetivo.


Os dois extremos são perigosos

De um lado o ensino de composição pode ser abstrato demais. E, sendo abstrato, é muito difícil – especialmente para quem está entrando nesse universo criativo agora – conseguir dar os primeiros passos. Muitas vezes, o aluno tem dificuldade em desenvolver uma base que o ajude a começar a criar.


Ou, no lado oposto, há quem fique muito preso a conceitos extremamente técnicos, como detalhes de notação musical, orquestração, encadeamento de vozes ou progressão harmônica. Tenho várias memórias (como aluno) de aulas onde o professor focava por horas em pequenos detalhes que pouco ajudavam a solucionar as dificuldades reais do processo criativo. Esses detalhes todos podem ser importantes enquanto ferramentas para compositores, mas em grande parte não são os elementos mais importantes no ato da composição, especialmente para quem está só começando.


Outra grande dificuldade é que o “fazer” - em certos cursos de composição - fica em segundo plano. O aluno fica na posição de ouvinte e não “coloca a mão na massa”. Ele acaba virando um teórico da composição, mas não um compositor de verdade. Se você não escrever, não compor, não é um compositor.


O desafio é achar o caminho do meio. E é exatamente isso que busco fazer no meu curso de Processos Criativos: focar nos elementos que mais fazem a diferença na evolução de um compositor em potencial. Focar nos processos em si, de maneira prática e funcional.


A (minha) melhor experiência como aluno de composição

Algumas das minhas melhores experiências enquanto estudante de composição aconteceram durante meu período na Universidade de Miami, com meu orientador Gary Lindsay. Ele me guiou por anos através de exercícios musicais práticos e projetos artísticos reais que me deram grandes oportunidades de desenvolvimento.


Rafael Piccolotto de Lima e Gary Linday durante o Jazz Forum na Universidade de Miami.

Cada semestre eu tinha uma série de projetos diferentes para trabalhar, seja a escrita para big band, orquestra sinfônica, coral, grupo de câmera ou qualquer outro grupo musical. Toda semana tínhamos encontros para buscar referências, fazer análises e discutir técnicas ou conceitos.


Eu sempre estava na posição de criador, ativo! Seja fazendo um pequeno exercício em cima de alguma técnica ou conceito específico que estávamos estudando, ou trabalhando em cima de uma obra nova a ser apresentada ou gravada em breve. Tudo isso com feedback honesto e direto. Esse foi um dos períodos que eu mais cresci musicalmente durante a minha vida.


Além da sala de aula

Lembra que descrevi - em outro artigo - a importância da interação presencial nos cursos de música? Seja na sala de aula, na sala de prática ou no café dos intervalos? (clique aqui para ler esse outro artigo)


Pois bem! Outra coisa que agregou muito em minha trajetória e atribuo parte do meu sucesso, foi ouvir de outros compositores sobre os processos de composição deles. Dois exemplos relevantes para mim foram a Maria Schneider e o Vince Mendonza, grandes nomes da atualidade. Poder ouvir e analisar junto com eles as composições e arranjos deles foi muito enriquecedor. Pude, dessa maneira, entender como e por que fizeram certas escolhas composicionais. Eu tive a oportunidade de presenciar e entender - na fonte - diferentes processos criativos musicais. Essas experiências não simplesmente foram momentos muito inspiradores para mim, mas também me deram a oportunidade de incorporar esses conceitos no meu trabalho.


Rafael Piccolotto de Lima e Vince Mendoza durante um workshop sobre arranjo para big band na Universidade de Miami.

Infelizmente, a realidade é que existem poucos livros, poucos materiais e pouco professores - até onde eu conheço - que são realmente bons educadores e efetivos neste universo da criatividade, da composição. Por isso, criei um perfil no Instagram e YouTube, chamado “Criadores Musicais”. Quero poder ajudar vocês com pílulas diárias de conhecimento, insights e reflexões. Além disso criei um curso de “Processos Criativos” disponível aqui no meu site. Eu procuro oferecer aquilo que eu não tive, é como seu eu pudesse voltar no tempo e ensinar a mim mesmo o que eu gostaria de ter aprendido há 15, 20 anos atrás!

 

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Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador
Sobre o autor

Rafael Piccolotto de Lima foi indicado para o Grammy Latino como melhor compositor erudito. Ele é doutor em composição de jazz pela Universidade de Miami e tem múltiplos prêmios como arranjador, diretor musical, produtor e educador.


Suas obras foram estreadas e/ou gravadas por artistas como as lendas do jazz Terence Blanchard, Chick Corea e Brad Mehldau, renomados artistas brasileiros como Ivan Lins, Romero Lubambo, e Proveta, e orquestras como a Jazz Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica das Américas e Metropole Orkest (Holanda).


Criadores musicais (conteúdo educacional):

Rafael Piccolotto de Lima (conteúdo artístico):
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