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O caminho das pedras - Dicas para estudar música nos EUA

Você tem interesse de estudar música nos EUA?


Antes de você querer se aventurar fora do Brasil, é preciso conhecer o cenário e as diferenças da experiência musical dentro e fora do país. Inclusive, é preciso levar em conta também a disparidade entre as metodologias de ensino das universidades. Aliás, sobre este assunto, escrevi um outro texto “Ensino Musical: Diferenças entre Brasil e Estados Unidos”, que talvez seja interessante você ler!


Já estou aqui há mais de 10 anos. Cheguei para minha pós-graduação, e depois fiz mestrado e doutorado na Universidade de Miami como bolsista. Trabalhei também como professor assistente no Henry Mancini Institute e, por tanto, são 5 anos de universidade nos Estados Unidos. Hoje trabalho tanto aqui, quanto no Brasil em diversos projetos.


Digo com certeza que é importante o aluno/músico pesquisar e compreender a realidade antes de tomar uma decisão tão importante quanto ir morar em outro pais. E para aqueles que estão interessados/decididos, espero que este blog possa ser útil.



Panorama geral

No Brasil existe o ensino de qualidade público e gratuito. Por exemplo, no meu caso, fiz Unicamp e não paguei nenhum valor, nos quase 7 anos de universidade. E isso não foi um privilégio meu, todos os outros alunos também não pagaram.


Nos Estados Unidos as coisas são diferentes, a maioria das universidades são particulares. E mesmo as públicas são pagas. O que torna a realidade um pouco diferente e torna as bolsas de estudo uma questão-chave para quem quer vir para os Estados Unidos.


Se você tem uma família que possui uma estrutura financeira muito consolidada, ou você e sua família estão dispostos a investir os recursos que têm no ensino fora do país, o caminho pode ser mais fácil. Afinal, você pode fazer suas escolhas e, se for o caso, já iniciar a própria graduação em outro país.


Mas, acredito que, para a maioria das pessoas, gastar U$50 mil (dolares) por ano - entre o preço da universidade e custos de vida fora do Brasil - não seja algo confortável ou até mesmo viável. São quase R$250 (reais) mil por ano e, ao todo, cerca de R$1.000.000,00 para completar o curso em quatro anos.


Então, trago algumas dicas para você interessado em estudar fora. Vou te contar como eu fiz. Mostrarei um caminho que talvez faça mais sentido para nós brasileiros, otimizando o que o Brasil e os Estados Unidos oferecem de bom de maneira estratégica.


O momento certo

Nos EUA, geralmente é muito difícil você conseguir uma bolsa para graduação. Às vezes, é possível conseguir uma bolsa parcial, se você for muito talentoso e eles acreditarem no seu potencial. Já na Pós-Graduação, Mestrado, existem algumas posições, como a de professor assistente - como eu mesmo fiz em Miami -, que podem ser boas oportunidades. Você inicia sua pós, se torna assistente e até dá aulas junto com os professores titulares. Se sua área for mais relacionada a pesquisa, você poderá ser um assistente de pesquisa.


No meu caso, apesar de ter dado algumas aulas, minha real atuação era como compositor em residência no Henry Mancini Institute e maestro assistente. Por conta disso eu não paguei nada. Se você pensar, como fiquei cinco anos entre mestrado e doutorado lá em Miami, economizei mais de R$1.000.000,00 em custos do curso, considerando o câmbio de hoje. Além disso, eu também recebia um salário que me ajudou, em grande parte, a me manter em Miami, com alguns custos básicos de vida.


Assista abaixo a estréia de uma das primeiras composições que eu escrevi na posição de Composer Fellow do Henry Mancini Institute na Universidade de Miami:



Seja interessante para a universidade

Meu conselho é tentar aproveitar o Brasil para ter uma formação básica muito boa e desenvolver qualidades te tornem um candidato atrativo para essas as vagas na pós gradução que eu mencionei. Características que façam você se transformar em um ativo valioso para as universidades dos Estados Unidos.


Vamos entender um pouco melhor como funciona nos Estados Unidos. A maioria dos alunos buscam os grandes centros, como Nova York, para se inscreverem. Instituições como a Julliard ou a Manhattan School of Music. A concorrência é muito alta e muitas vezes, músicos talentosíssimos acabam não conquistando a vaga.


Para equilibrar a balança, as universidades com menos destaque estão em busca de talentos para trazer para dentro do ambiente acadêmico e assim, elevar o nível do corpo discente e das produções. A exemplo das vagas de professor assistente que mencionei anteriormente. Para a universidade é mais vantajoso investir em um bolsista, do que contratar um outro professor. Investir em acadêmicos de qualidade poder sinônimo de mão de obra barata, extremamente qualificada e que ainda vai produzir com qualidade e se tornar instrumento de “venda” para a própria universidade. Alunos de alto nível são, literalmente, um investimento para as universidades. Apesar de o profissional ganhar menos como assistente, ele será um custo maior para a instituição do que se somarmos o salário e o desconto que é oferecido.


Para o aluno também é positivo. Como eles dizem nos EUA, é um "win-win" - os dois lados ganham. Alunos trocam algumas horas de trabalho semanal pela oportunidade de estudarem e utilizarem uma infraestrutura diferenciada para a realização de projetos. Com essa estrutura formada é muito mais facil realizar projetos de alto nível, projetos que muitas vezes conquistam prêmios e reconhecimento. Tudo isso vira portfolio e propaganda tanto para o aluno quando para a própria universidade, formando um ciclo virtuoso.


Prêmios da revista norte-americana DOWNBEAT recebidos por Rafael Piccolotto de Lima em 2015.

Esta é a grande sacada. Se eu pudesse dar uma dica a mim mesmo, anos atrás, seria esta: esteja muito bem-preparado e ofereça algo de qualidade para a universidade. No momento em que ela perceber que você tem potencial e está agregando valor para ela, as chances de te oferecer uma bolsa são muito maiores. E isso vai além de te dar uma bolsa, mas também te colocar numa posição de relativo destaque dentro da universidade, apostando que você representará bem a instituição. Isso tudo vai te gerar ótimas oportunidades de crescimento artístico e profissional.


Por isso, se prepare, utilize as oportunidades que você tem no Brasil, para ser o melhor que você puder, e pense em como seus talentos podem servir à universidade fora do país.


O perfil de cada universidade

Trago aqui um bônus! Cada universidade tem um perfil, busca um tipo de aluno e tem determinados objetivos. Então faça uma pesquisa detalhada e veja em quais o seu perfil se encaixa melhor.


Eu mesmo me inscrevi para três universidades: a de Miami, a de Manhattan, em Nova York e a Eastman, em Rochester. Não fui selecionado para a Eastman, mas fui chamado pela Manhattan School of Music com uma bolsa de 50%, um dos maiores valores que eles oferecem para alunos. E em Miami ganhei a bolsa integral e a possibilidade de trabalhar na universidade. Depois de muito poderar, escolhi a última opção.


E você deve se perguntar: como você não foi aceito em uma e ganhou 100% de bolsa em outra? Exatamente por conta do perfil. Eu tenho um perfil mais inovador, diverso, moderno, e trago influências diferentes para o meu trabalho. Para uma universidade tradicional, isso não é um atrativo! Mas, já para a Universidade de Miami, que é mais moderna, foi um grande diferencial!


Rafael Piccolotto de Lima dirigindo a Big Band Latina da Universidade de Miami. (2014)
Orquestra de Salsa da Universidade de Miami (2014)

Aproveite o que a universidade te oferece

Eu consegui aproveitar ao máximo o que me foi oferecido e isso mudou minha vida. O fato de estar dentro de uma universidade grande, com estrutura, cheia de professores bons e alunos de alto nível, me fez potencializar e crescer muito enquanto músico.


Durante este período pude criar um grande portfólio, trabalhei com profissionais renomados, fiz ótimas gravações e ganhei mais de 20 prêmios internacionais, entre eles o prêmio da revista DownBeat em várias categorias e uma indicação ao Grammy Latino. Tudo isso só foi possível, nessa escala, por conta desta estrutura favorável.


É hora de agir!

Por fim, reforço a importância de se posicionar no lugar certo e contar com um toque de sorte para que seja a hora certa! Vale pena investir tempo pesquisando todos os detalhes para aumentar suas chances de sucesso. Uma vez que você tenha escolhido, se preparar da melhor maneira possível para ser atrativo para a universidade. E uma vez aceito, aproveitar tudo que ela pode te oferecer - se dedicar inteiramente.


Se ainda quiser mais informações para ponderar sobre essa decisão tão importante, sugiro você ler o texto “Ensino Musical: Diferenças entre Brasil e Estados Unidos” - artigo que mencionei lá no começo.

 

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Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador
Sobre o autor

Rafael Piccolotto de Lima foi indicado para o Grammy Latino como melhor compositor erudito. Ele é doutor em composição de jazz pela Universidade de Miami e tem múltiplos prêmios como arranjador, diretor musical, produtor e educador.


Suas obras foram estreadas e/ou gravadas por artistas como as lendas do jazz Terence Blanchard, Chick Corea e Brad Mehldau, renomados artistas brasileiros como Ivan Lins, Romero Lubambo, e Proveta, e orquestras como a Jazz Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica das Américas e Metropole Orkest (Holanda).


Criadores musicais (conteúdo educacional):

Rafael Piccolotto de Lima (conteúdo artístico):
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