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O problema com a "música clássica"

Hoje vamos falar sobre o problema da música clássica... Na verdade, o problema do termo “música clássica” e de outros utilizados para este gênero, como "música de concerto" e "música erudita".


Esse assunto pode ser controverso, eu sei. Mas, é um tema interessante (e importante) a ser pensado!


Toda vez que eu preciso me referir a este tipo de música sempre fico receoso e pouco a vontade em utilizar estes termos, seja "música clássica", "erudita" ou "de concerto". Cada um desses termos têm - em parte - razão de ser, mas, eles podem ser imprecisos ou até mesmo incorretos, dependendo do contexto.


Para entender melhor, vamos definir e refletir sobre os conceitos. Vem comigo!



Música clássica

Afinal, o que é "música clássica"? Esse termo está associado a duas coisas:


  1. Música do classicismo (enquanto período histórico, definido por historiadores e teóricos musicais);

  2. Conceito de clássico; obra que resistiu à prova do tempo e entrou para o cânone musical como uma criação consagrada.


O primeiro caso faz todo sentido quando estamos falando de Mozart, Haydn ou qualquer outro compositor desse período histórico denominado "classicismo". Mas, a realidade é muitas pessoas usam essa expressão também para se referir às criações musicais de outros compositores que vieram antes desse período, como J. S. Bach e Vivaldi, e compositores que vieram muito depois desse período, como Wagner ou Stravinsky. Portanto, está impreciso sobre este aspecto.


O segundo ponto é pensar que determinadas composições são clássicos. Esse uso da palavra para definir a tradição de música de concerto originaria na Europa me causa um pouco menos desconforto. Isso porque estes compositores todos citados acima - Mozart, Haydn, Bach, Vivaldi, Wagner ou Stravinsky - são todos criadores de obras que resistiram às provas do tempo e entraram para cânone musical como autores de composições consagradas. São clássicos da música, são música clássica.


Em contraponto, existe todo um cânone de composições populares que também resistiram às provas do tempo - como obras da Chiquinha Gonzaga criadas no final do século XIX - mas não são chamadas de música clássica. São clássicos, mas não são consideradas música clássica.


A problemática dessa nomenclatura fica ainda mais evidente quando observamos meu caso: eu fui nomeado ao Grammy Latino como melhor compositor de música clássica de 2013. Mas, eu não sou nem do classicismo, nem me transformei em um clássico ainda. E ai?


Música Erudita

"Erudito" vem do latim, "eruditus", e significa "educado", "instruído".


Essa expressão – música erudita – é utilizada quase que exclusivamente no português, referindo-se à este tipo de música que está associada a tradição clássica e à música apresentada nas salas de concerto. O uso dessa palavra parte da ideia de que este gênero musical exige um certo nível de erudição para se compor, tocar e compreender. A expressão é válida nesse sentido, se opondo à uma música mais simples, curta e repetitiva.


A expressão tem seu lado de razão, porque o estilo que estamos falando é ligado às ditas "altas artes"; à uma música minuciosamente elaborada de duração alongada e maior complexidade. Geralmente, as pessoas que entram em salas de concerto e apreciam este tipo de música têm um conhecimento relacionado ao gênero, aprenderam a apreciar, e têm um certo nível de erudição musical.


A problemática acontece quando associamos a complexidade e nível elaboração musical à um gênero específico, um ambiente de performance, grupo musical ou período histórico. Existem obras de ditos "compositores eruditos" que são relativamente simples e curtas, da mesma maneira que existem "compositores populares" que escreveram obras alongadas e extremamente complexas.


Rafael Piccolotto de Lima à frente da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas apresentando o concerto "Forró Sem Palavras" com sexteto solista, incluindo instrumentos característico da música popular.

A erudição na música popular

Algumas vertentes da música popular contam com uma série de criadores musicais que poderiam facilmente ser considerados "eruditos". Posso citar Tom Jobim, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti como três bons exemplos na música brasileira, ou George Gerswhin, Gil Evans e Maria Schneider no jazz. Eles são compositores que trabalham (ou trabalharam) com gêneros ditos "populares" e cujas obras tem um nível de complexidade comparável a dita "música erudita".


Vou usar a Maria Schneider como estudo de caso, alguém que posso falar com certa propriedade pois tive o privilégio de conversar com ela inúmeras vezes e entrevistá-la como parte da minha dissertação de doutorado. Ela é uma compositora que produz obras de fôlego para orquestra de jazz. Suas músicas têm formas estendidas com pouca repetição e seu vocabulário melódico, rítmico e harmônico são bem elaborados. Eu poderia até dizer que algumas de suas composições são mais complexas que uma obra de Mozart ou qualquer outro compositor do classicismo ou romantismo. Mas, apesar de tudo isso, essas composições da Maria Schneider não são consideradas eruditas seguindo o que entendemos por música erudita no discurso acadêmico padrão.


Música de concerto

A última expressão que vamos analisar é "música de concerto". Essa expressão também faz certo sentido, já que estas obras são produzidas para serem apresentadas primordialmente em salas de concerto. Você dificilmente vai ouvir uma orquestra sinfônica apresentando uma sinfonia em um barzinho, primeiro pelas limitações de espaço, e depois pelo perfil e expectativa do público.


Mas, também neste caso, a problemática se repete. A Maria Schneider, por exemplo, não tem suas obras tocadas num ambiente de barzinho onde o público está lá para dançar e/ou conversar durante a apresentação. As músicas dela são tocadas em bares específicos de jazz ou salas de concerto. A mesma coisa acontece com Egberto Gismonti e tantos outros nomes da música popular que criam músicas primordialmente para a audição silenciosa.


Uma questão em aberto

É muito complicado colocarmos rótulos às músicas desconsiderando a multiplicidade de elementos existentes na criação artística (e sua relação com o público). Essa problemática está inclusive no cerne da minha tese de doutorado. Se tiver curiosidade de ler, minha tese está disponível online para leitura através deste link. (em inglês)


E você, já tinha pensado sobre esse assunto? Qual nomenclatura você acha mais apropriada?

 

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Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador
Sobre o autor

Rafael Piccolotto de Lima foi indicado para o Grammy Latino como melhor compositor erudito. Ele é doutor em composição de jazz pela Universidade de Miami e tem múltiplos prêmios como arranjador, diretor musical, produtor e educador.


Suas obras foram estreadas e/ou gravadas por artistas como as lendas do jazz Terence Blanchard, Chick Corea e Brad Mehldau, renomados artistas brasileiros como Ivan Lins, Romero Lubambo, e Proveta, e orquestras como a Jazz Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica das Américas e Metropole Orkest (Holanda).


Criadores musicais (conteúdo educacional):

Rafael Piccolotto de Lima (conteúdo artístico):
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