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Técnica de ensaio - Seria esse o segredo dos grandes maestros?

Atualizado: 16 de out. de 2023

Você sabe o que é técnica de ensaio?


Para começarmos a pensar sobre o assunto, vamos deixar claro o conceito: técnica de ensaio é - basicamente - a maneira como dirigir e otimizar um ensaio. Todas as escolhas sobre o que fazer durante diferentes momentos do ensaio, os vários aspectos relacionados à preparação musical e a interação com os músicos. Na minha opinião, essa talvez seja uma das principais funções de um maestro.


Existem diversas técnicas e muitas habilidades relacionadas a esta prática musical. Uma parte desse conhecimento pode (e deve) ser ensinado em um curso de regência, mas o conhecimento empírico – a prática na frente de um grupo musical real – é a chave para o amadurecimento do maestro, especialmente ao que tange a habilidade de dirigir um ensaio. Ele precisa de experiências com vários grupos, afinal, cada circunstância traz desafios diversos e exige diferentes atitudes por parte do regente. Grupos com níveis técnicos distintos exigem diferentes considerações a serem feitas. Isso sem falar nas particularidades relacionadas ao repertório apresentado.


Rafael Piccolotto de Lima em sessão de gravação na Universidade de Nova Iorque (NYU)

Não é o que todos pensam

Quando falamos em regência, a primeira imagem que vem à cabeça da maioria das pessoas são os movimentos do maestro em cima do pódio. Mas – a meu ver – a habilidade de saber ensaiar é muito mais importante que a gestual. É na preparação do concerto que o maestro - o mestre, aquele que ensina - vai realmente construir e direcionar a performance. É no ensaio que ele realmente poderá potencializar o que o grupo tem de melhor.



O gestual é importante sim, para se comunicar com clareza, dar as entradas corretas, sinalizar direções de interpretação, ou até mesmo encorajar a performance dos músicos. Mas, na minha opinião, não é esse o principal fator que define um bom maestro. Pode-se ter um gestual lindo, uma ótima postura, mas se ele(a) não sabe ensaiar e potencializar grupo a sua frente, não está cumprindo seu papel adequadamente. Não é um bom maestro!


A prática

É importante entender que a técnica de ensaio está muito relacionada a uma série de escolhas que o diretor musical vai fazer, sabendo ler a situação e agir de maneira assertiva. Vou trazer minha experiência como exemplo: eu já estive em circunstâncias muito extremas, de tocar repertórios difíceis com pouquíssimo ensaio.


Rafael Piccolotto de Lima frente à orquestra Jazz Sinfônica do Gene Harris Jazz Festival nos Estados Unidos.

Divido uma passagem que aconteceu no Gene Harris Festival nos Estados Unidos em 2019, onde eu fui convidado como compositor e diretor artístico da Jazz Sinfônica montada especialmente para o evento. Nessa ocasião, depois da apresentação, alguns músicos vieram falar comigo e se disseram impressionados com o resultado do trabalho. Era um repertório complexo - todo original - e só tínhamos um ensaio antes do concerto. Eles temiam que, pela falta de tempo, não seria possível chegarmos a um bom resultado em tempo do concerto. Mas, em uma única tarde conseguimos ensaiar o repertório completo, resolver sessões desafiadoras de cada peça e a apresentação foi um sucesso.


O elogio que recebi foi justamente pelo ensaio que fizemos, pela direção e organização no pouco tempo que tivemos juntos. Essa é uma história onde fica claro que o importante não foi o gestual, mas sim saber como otimizar o tempo, escolher os trechos certos para focar durante o ensaio e como lidar com as dificuldades técnicas do repertório.


E aqui faço uma confissão para vocês: não me considero um regente com a maior técnica de batuta. Tem outros profissionais muito mais impressionantes do que eu nesse quesito. Mas, uma coisa que eu sei fazer bem é dirigir a interpretação de um grupo musical, trazer à tona o melhor dos músicos.


Rafael Piccolotto de Lima explicando detalhes de interpretação entre takes de gravação para o baterista Fabio Ragnelli na Universidade de Nova Iorque (NYU).

Planejamento e escolhas

Existem muitas considerações e escolhas que um maestro deve fazer antes e durante um ensaio.


Trago aqui para vocês algumas das questões que estão sempre na minha cabeça quando estou me preparando ou quando estou no pódio:

  • Que partes das músicas precisam ser ensaiadas e quais não?

  • Em certos repertórios, quais músicas eventualmente não passar?

  • Quantas vezes passar cada música, ou não passar?

  • Em termos de duração do ensaio(s), quando focar em cada música?

  • Escolher trechos importantes para focar;

  • Identificar erros na performance, decidindo quando seguir o ensaio sem parar independentemente dos erros, ou quando parar para corrigir;

  • Quando é necessário repetir trechos musicais e quantas vezes repassar?

  • Observar se o músico percebeu que errou (quando errou) e decidir se fazer ou não fazer correções.

  • Decidir o que comentar e como dirigir estas observações aos músicos: para quem fazer esses comentários? Devo fazer considerações para um músico isolado ou para o grupo todo?

  • Escolher quando e como isolar problemas específicos de performance, focando em um subgrupo da orquestra;

  • Como corrigir, às vezes, sem parar a performance.


São todas escolhas que o diretor musical tem que ter em mente. Ele precisa entender a dinâmica da orquestra e agir em tempo real, de acordo como o grupo responde. É uma mistura de preparação e adaptação à reação do grupo. A entender também, que cada grupo é único, cada situação é única, assim como o repertório.


Um erro comum de regentes inexperientes

É muito comum - como estratégia para se sentir seguro - jovens maestros estabelecerem uma ideia fixa sobre a música na cabeça e ensaiarem um gestual padrão para o repertório a ser apresentado, quase como uma coreografia. Isso pode até funcionar em certas ocasiões. Mas, com o tempo a falta de habilidade de se adaptar a performance do grupo, a falta de estratégia nos ensaios e a dificuldade de se adaptar à realidade, viram enormes obstáculos na sua evolução. E, insistir nesta postura, negando a resposta do grupo e as circunstâncias de cada situação o qualifica como um profissional limitado.


Rafael Piccolotto de Lima dirigindo orquestra de cordas em sessão de gravação na Universidade de Nova Iorque (NYU).

O aflorar de um maestro

Por tudo que descrevi nesse artigo, acredito que a vocação do maestro surge da habilidade do músico ser um líder no seu fazer musical, mesmo antes de se posicionar de batuta em cima do pódio.


A minha história é um exemplo: apesar de ser fascinado pela figura do maestro desde o início dos meus estudos musicais, eu não estudei regência até precisar dela. Eu não fiz faculdade de regência, mas a arte da direção musical me levou ao pódio. Eu dirigi durante muitos anos os ensaios dos grupos musicais nos quais tocava da minha estante como saxofonista.


Como compositor e arranjador, sempre estava na posição de guiar os ensaios para conseguir que minhas obras soassem como eu imaginava. Com o tempo e a participação em projetos com grupos cada vez maiores, surgiu a necessidade de largar o instrumento de lado e me dedicar inteiramente a essa função tão importante.


Até hoje, o ensaio é uma das minhas atividades favoritas do fazer musical, é quando ideias no papel vão tomando forma nas mãos dos músicos, e eu - na posição de maestro - tenho o privilégio de guiar esse processo.


 

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Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador
Sobre o autor

Rafael Piccolotto de Lima foi indicado para o Grammy Latino como melhor compositor erudito. Ele é doutor em composição de jazz pela Universidade de Miami e tem múltiplos prêmios como arranjador, diretor musical, produtor e educador.


Suas obras foram estreadas e/ou gravadas por artistas como as lendas do jazz Terence Blanchard, Chick Corea e Brad Mehldau, renomados artistas brasileiros como Ivan Lins, Romero Lubambo, e Proveta, e orquestras como a Jazz Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica das Américas e Metropole Orkest (Holanda).


Criadores musicais (conteúdo educacional):

Rafael Piccolotto de Lima (conteúdo artístico):
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