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Afinal, qual a importância da leitura musical?

Atualizado: 14 de mai. de 2023

Qual a importância de saber ler partituras para carreira de um músico?


O tema do blog de hoje é inspirado em uma pergunta feita por um possível que me contactou recentemente, interessado no meu curso de processos criativos.


Ele me contou que sabia tocar alguns instrumentos, mas não sabia ler partituras e me questionou se poderia fazer o curso. Isso me levou a uma reflexão sobre quão importante é a leitura musical!



Uma ferramenta muito valiosa (mas não necessária)

Faço uma analogia: precisamos saber escrever e ler para falar e nos comunicar? Não. Mas, se soubermos escrever temos mais ferramentas para registrar e transmitir nossos pensamentos. Se soubermos ler, temos acesso ao conhecimento registrado em livros, artigos, e tantas outras mídias que se aproveitam da escrita para fixar e comunicar idéias.


Existem poetas analfabetos? Com certeza, eles recitam seus versos. E podem fazer isso lindamente! Mas, com certeza, eles poderiam se beneficiar da escrita, por muitas razões que você deve imaginar.


Baseado nessa linha de raciocínio, da mesma maneira que os poetas analfabetos existem, nada impede que alguém que não leia partituras consiga fazer música. Afinal, a música - assim como a fala - já existia antes da escrita e vai continuar existindo independente dela.



Vantagens

Do ponto de vista do compositor e arranjador:
1 - Alcance e precisão

A escrita e leitura de partituras possibilita que a música chegue muito mais longe. A partitura ainda é a forma mais rápida e fácil de comunicar e transmitir informações sobre a performance musical.


Em contraponto, pode-se argumentar que hoje temos ao nosso dispor a facilidade de acesso a gravações, ou até mesmo a possibilidade de gravarmos nossa performance com smartphones para enviar para outros músicos. Mas, mesmo com essas ferramentas todas - próprias do nosso mundo digital - o músico que não sabe ler partituras ainda terá todo trabalho de tirar a música de ouvido e memorizá-la. Neste processo, ainda há o risco de erros de percepção e dificuldade de memória, o que compromete a precisão da performance.


2 - Processo criativo potencializado e mais eficiente

Do ponto de vista mais técnico, dos processos criativos, o fato de colocarmos as ideias no papel, ajuda a otimizar o fluxo criativo.


A escrita nos ajuda a ultrapassar limites de memória. A possibilidade de registrar os elementos musicais facilita a organização de ideias composicionais e de arranjo. Quando colocamos as notas no papel, conseguimos expandir nossa visão geral. É como se tivéssemos dois cérebros, já que podemos imaginar as coisas e olhar para elas no papel ao mesmo tempo. Assim, manipulá-las para a fluência da composição.


Do ponto de vista do intérprete e do diretor musical:

Comunicação e eficiência:

Existe uma facilidade maior de comunicação e independência quando temos a partitura como guia. Não é preciso memorizar ou transcrever obras de ouvido. A partitura funciona como um “mapa”, o que pode aumentar a eficiência dos ensaios e a precisão na execução, principalmente no quesito forma (sequência dos eventos musicais).


Imagine um músico que irá fazer um concerto de uma ou duas horas, com todas as músicas novas, arranjos novos que ele não conhece e nunca tocou antes. É brincadeira de gente grande! Isso exigiria muito tempo e energia para memorizar tudo que a ser apresentado.


Um bom exemplo é a apresentação que fiz do meu projeto “Forró sem palavras”, no festival de jazz de Toronto, recentemente, em meados de 2022. Tivemos um único ensaio. Eu enviei as partituras duas semanas antes do concerto, junto com algumas gravações de referência. Assim, os músicos puderam preparar as partes individuais e, em um único ensaio, passamos cada música duas ou três vezes. Isso nos possibilitou preparar e apresentar um concerto de qualidade de maneira super eficiente, que gerou – inclusive – gravações que estão disponíveis no YouTube (veja vídeo  abaixo).



Seu meio musical - Com quem você quer tocar?

Um fator determinante na necessidade (ou não) de saber ler partituras está diretamente relacionado ao meio musical no qual você quer fazer parte, com quem você quer tocar. Em certos universos musicais a leitura musical é um bônus, útil para ocasiões especiais, já em outros, ela é uma necessidade básica. Nesse segundo exemplo, se você não souber ler, dificilmente será chamado ou contratado para tocar.


Então a pergunta que você deve se fazer é: com quem você quer tocar? Quais meios musicais você quer transitar?


Meu caso: escrever para grandes grupos musicais.

No meu caso - enquanto compositor voltado para grandes grupos musicais, tanto no universo da música erudita, quanto do jazz e música instrumental brasileira - a leitura musical se fez extremamente necessária. Na realidade, se eu não soubesse ler, nem teria entrado na universidade de música.


Até hoje, todos os projetos que eu estive envolvido - seja uma apresentação com a Orquestra Urbana (big band em São Paulo), um concerto com minha orquestra de câmara (no Lincoln Center em Nova Iorque), ou encomendas de arranjos pela Brasil Jazz Sinfônica e TV Cultural -, todos só aconteceram devido a minha fluência na escrita e leitura musical.


De uma vez por todas:

Então, respondendo à pergunta original: a grafia musical, nos dias de hoje, continua sendo extremamente importante e útil para os músicos. Mas, repetindo: ela não é necessária, você pode - obviamente - fazer música independente dela.


A leitura (e escrita) de partituras é uma ferramenta de grande poder e pode te abrir várias portas. E se você tem acesso a essa poderosíssima ferramenta, por que não utiliza-la?


 

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Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador
Sobre o autor

Rafael Piccolotto de Lima foi indicado para o Grammy Latino como melhor compositor erudito. Ele é doutor em composição de jazz pela Universidade de Miami e tem múltiplos prêmios como arranjador, diretor musical, produtor e educador.


Suas obras foram estreadas e/ou gravadas por artistas como as lendas do jazz Terence Blanchard, Chick Corea e Brad Mehldau, renomados artistas brasileiros como Ivan Lins, Romero Lubambo, e Proveta, e orquestras como a Jazz Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica das Américas e Metropole Orkest (Holanda).


Criadores musicais (conteúdo educacional):

Rafael Piccolotto de Lima (conteúdo artístico):
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