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Uma lição de vida: genialidade e generosidade musical

Certos momentos da nossa vida nos marcam e geram reflexões profundas sobre nossa jornada. Em 2013 eu tive um desses momentos e aprendi uma grande lição com Chick Corea.


Se você é um músico ou apreciador de jazz, você provavelmente sabe da importância dele: um dos maiores pianistas improvisadores do século XX. Ganhador de 27 Grammy Awards, com lugar reservado na maioria dos livros de história do jazz.


Eu tive a oportunidade de escrever para ele em um concerto. Essa apresentação em Miami depois virou um álbum e se desdobrou para um programa de televisão aqui nos Estados Unidos, na PBS (equivalente a TV Cultura no Brasil). Mais do que os créditos adicionais que ficam bonitos no currículo, a possibilidade de estar junto ao Chick Corea, foi um marco na minha vida.


Arranjador Rafael Piccolotto de Lima acompanhando o ensaio da orquestra jazz sinfônica do Henry Mancini Institute com Chick Corea (solista convidado).

Venha comigo nesta viagem no tempo. Entenda a importância deste episódio para minha carreira e como essa experiência se tornou uma lição de vida sobre generosidade musical, algo que você pode incorporar no seu fazer artístico também!


A primeira vez a gente nunca esquece

Ao longo da minha vida eu tive a oportunidade de escrever para vários grupos musicais, desde grupos de estudantes amadores, até grupos de músicos profissionais do mais alto nível, a exemplo da BMI New York Jazz Orchestra, Brasil Jazz Sinfônica e a Metropole Orkest (na Holanda), e de nomes como Brad Mehldau, Gregory Porter, Ivan Lins, Proveta e Romero Lubambo, só para citar alguns.


Entre as ocasiões de maior portfólio, consideradas mais importantes, uma das primeiras delas foi escrever para o Chick Corea. Lembro que na época, quando apareceu esta oportunidade, eu quase chorei de alegria em imaginar a realização deste sonho, que é escrever para uma das lendas do jazz.



O estudante

Lembro que quando comecei a estudar música, tinham músicas do Chick Corea no famoso livro das partituras de clássicos do jazz, o Real book. Antes mesmo de entrar na faculdade eu toquei uma de suas peças, talvez a mais conhecida: Spain.


E como se fosse ontem, me recordo de pensar “nossa, esta música é desafiadora”. E, acreditem! Foi essa mesmo que tive a responsabilidade de arranjar anos depois. Estar na posição de trabalhar com este artista e escrever para este concerto foi indescritível; um momento de muita felicidade, mas também de muita responsabilidade. Afinal, era hora de fazer bem-feito!


Grade orquestral do maestro e partituras dos músicos preparadas para o concerto. Spanish Suite, de Rafael Piccolotto de Lima.

Ousadia

Naquela época eu era relativamente novo, tinha por volta dos meus 28 anos. Estava em um momento de muita experimentação, e decidi correr um risco, confiando no meu instinto. Fui um tanto quanto ousado no meu arranjo, principalmente a considerar que era um arranjo justamente para a música Spain, a mais famosa do Chick Corea. Escrevi uma suíte orquestral, incluindo um trecho do Concerto de Aranjuez (concerto de origem espanhola, originalmente para violão, que o Chick Corea geralmente usa como introdução para a música dele).


Eu fiz um arranjo extenso, me apropriando dos elementos musicais dos originais, e os reapresentando de uma maneira diferente. O arranjo começa com uma sessão de solo improvisado do Chick Corea. Logo, a orquestra entra tocando uma variação lenta de um trecho de Spain, seguindo para uma re-orquestração do Concerto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo. Na sequência, o tema é transportado para um universo noir, que faz uma referência ao trabalho do grande arranjador Gil Evans, nos anos 50 e 60, com vocabulário harmônico modal cheio de dissonâncias. Isso até chegar no tema propriamente dito: Spain. Nessa última parte, eu trago à tona elementos de samba e habanera. No total, são cerca de 15 minutos.


Por ter sido tão ousado, eu poderia ter sido recusado, não ter dado certo ou qualquer coisa nesse sentido. Mas, aí vem a lição!


A hora da verdade

Primeiro mandei a partitura e um mockup (gravação de referência com sons sequenciados no computador) para ele e o produtor do show ouvirem. Para minha alegria o arranjo foi aprovado. Preparei todas as partituras e incluí nas pastas dos músicos da orquestra do Henry Mancini Institute (na época eu era maestro assistente da orquestra e uma das minhas responsabilidades era supervisão do arquivo musical, além da preparação de partituras para os concertos).


Scott Flavin (maestro, esquerda), Chick Corea (pianista, centro-esquerda), Shelton Berg (diretor da faculdade de música da Universidade de Miami, centro-direita), e Rafael Piccolotto de Lima (arranjador, direita).

Poucos dias depois chegou o grande momento. Me lembro vividamente! Estávamos no Adrienne Arsht Center for the Performing Arts - uma sala de concerto maravilhosa em Miami - para o ensaio com a orquestra e os solistas: Chick Corea, Terence Blanchard e Eric Owens. Quando começou, Chick Corea que estava sentado ao piano, disse que gostaria só de ouvir na primeira passagem e não iria tocar. Depois disso, ele me chamou para uma breve conversa ao piano (veja o exato momento na foto acima). Me perguntou sobre a construção da peça e o que eu havia pensado em cada ponto. Enfim, era a música dele, ele era a celebridade do evento, além de uma lenda do jazz. E quem era eu naquele cenário, “reinventando a roda”?


Ele teve uma postura muito generosa de ouvir sobre minha linha de raciocínio e depois, em cima dela, brilhar como pianista. Fazer o que os grandes gênios da música conseguem fazer: pegar uma idéia e transformar em algo muito maior. Para minha alegria, a apresentação foi gravada e você pode conferir abaixo.



A grande lição

Isto tudo foi, para mim, uma lição de generosidade, inclusive em comparação com outras oportunidades que tive como arranjador para artistas famosos. Um contraponto com artistas de renome que eu já trabalhei e – ao meu ver – estão muito longe. Algumas destas experiências não foram exatamente tão agradáveis, quanto mais inspiradores. Alguns artistas chegaram a questionar - e pedir para mudar - pequenos detalhes de arranjos que eu fiz, travando o processo.


Chick Corea, que vai ficar para a história como um dos grandes pianistas, compositores e improvisadores do século XX e XXI, teve a generosidade de aceitar minhas ideias e colaborar comigo. Eu transformei a música dele em outra coisa e ele pegou meu arranjo e deu a voz dele.


Essa generosidade musical é algo que tento levar para mim. É algo que observo em muitos dos grandes músicos com quem trabalho, músicos que são grandes improvisadores, grandes criadores musicais. São pessoas que são tão confiantes no que são capazes de fazer e têm a segurança para se abrir para coisas novas, coisas diferentes.


Acho que é isso que faz com que essas pessoas sejam tão criativas. Elas estão abertas a ouvir, aprender e experimentar coisas novas. Estão sempre em evolução. E isto também cria um ciclo bonito entre as pessoas. Algo que me remete a um conceito que atores aqui nos Estados Unidos conhecem bem. É como o “yes and” ou “sim e...”, quando eu aceito o que você está falando e falo outra coisa que vai dar prosseguimento a essa ideia.


Quer saber como eu cheguei a ter oportunidades musicais desse porte? Eu te conto no artigo: Transforme pequenos projetos artísticos em grandes oportunidades.

 

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Rafael Piccolotto de Lima - Compositor, arranjador, diretor musical, produtor musical e educador
Sobre o autor

Rafael Piccolotto de Lima foi indicado para o Grammy Latino como melhor compositor erudito. Ele é doutor em composição de jazz pela Universidade de Miami e tem múltiplos prêmios como arranjador, diretor musical, produtor e educador.


Suas obras foram estreadas e/ou gravadas por artistas como as lendas do jazz Terence Blanchard, Chick Corea e Brad Mehldau, renomados artistas brasileiros como Ivan Lins, Romero Lubambo, e Proveta, e orquestras como a Jazz Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica das Américas e Metropole Orkest (Holanda).


Criadores musicais (conteúdo educacional):

Rafael Piccolotto de Lima (conteúdo artístico):
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